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No QG Atelier Bar, não escolhe o cocktail que vai beber. O cocktail escolhe-o a si

No QG Atelier Bar, Ricardo e Lívia Lemos recebem como se estivessem na própria casa. Aqui, o cocktail nasce da conversa e o bartender mistura sabores como quem improvisa jazz.

Hugo Geada
Escrito por
Hugo Geada
Jornalista
QG Atelier Bar
Maria Mattos
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Ricardo Lemos podia estar a desfrutar da reforma, nas calmas, na Costa da Caparica, onde vive. Mas preferiu abrir um consultório de psicologia... perdão, um bar. A confusão não é descabida: no QG Atelier Bar, no Príncipe Real, a experiência começa com um pequeno interrogatório terapêutico. “O que é que gostaria de beber hoje?”, pergunta Ricardo, com a calma de quem conduz uma sessão. E logo a seguir: “Gosta de vodka, rum, gin, whisky? Prefere cítrico ou frutado? Doce ou amargo? Quer espuma? E gengibre, gosta?”.

É o início do jogo que dá nome ao cocktail personalizado Ask Ricardo (15€), o best-seller da casa e, provavelmente, o melhor exemplo do conceito deste quartel-general da coquetelaria clássica. À Time Out, o bartender propôs um desafio que resultou num cocktail de base de vodka e maracujá, com um toque subtil de pimenta. Não só gostámos, como ficámos com a sensação de que ele conhece melhor os gostos da clientela que os próprios fregueses. 

Ricardo estudou arte-terapia e trabalhou na área, antes de voltar ao balcão. “O bartender é um terapeuta, um ouvinte, alguém que dá ombro e ouvido”, explica. “Aqui, no fundo, lidamos com a pior droga que existe, que é o álcool, e é preciso responsabilidade. Quando percebo que alguém já passou do ponto, ofereço água. Não sou terapeuta de ninguém, mas sinto que posso ajudar de alguma forma.” O passado na cerâmica e nas artes plásticas também deixou marca. “Sempre vi a coquetelaria como uma performance artística, sensível. É arte misturada com relação humana.” 

O QG nasceu dessa mistura. Lívia Lemos, filha e sócia de Ricardo, é quem comanda a sala e gere o espaço. Já tinha experiência empresarial, mas procurava algo mais pessoal e familiar. “Eu não estava satisfeita com o que fazia, pensava até em emigrar”, recorda. “Mas o meu pai é um exímio bartender, e percebi que era o melhor sócio possível. Ele traz uma clientela fiel, gente que o segue há anos, desde os tempos do Jobim, em Lisboa. Então, quando surgiu este espaço, senti que era a oportunidade certa.” O restaurante que ali existia deu lugar a um bar pequeno, íntimo e artesanal — literalmente feito à mão por Ricardo, que tratou da reforma e montou um balcão “à medida dele”. 

QG Atelier Bar
Maria MattosQG Atelier Bar

A casa abriu com uma ambição modesta, mas clara: ser um bar de destino, não de passagem. “Aqui não passa ninguém na rua”, diz Ricardo, “mas isso é o que quero. Quero uma clientela sólida, calma, que venha para estar, conversar e apreciar uma bebida.” O jogo é, claro, o Ask Ricardo, em que o bartender tenta adivinhar o paladar de quem chega. “Se a pessoa gostar, eu ganho o jogo e ela paga. Se não gostar, eu perco o jogo”.  

Apesar deste momento para o improviso, há espaço para os clássicos. “Os tradicionais são os mais difíceis de fazer”, garante. “Um bom Negroni, um bom Manhattan, um bom Whisky Sour. Isso é o que separa o bartender que conhece a base da moda passageira.” No QG, a coquetelaria é “old school”. Não há efeitos de fumo ou copos extravagantes. As frutas são frescas, os xaropes feitos na hora, e o menu é curto, porque quase tudo é preparado à medida. Ricardo trabalha com serenidade e concentração – “como um ceramista”, diz – e o bar, com a sua luz quente e o som discreto de jazz, parece um prolongamento natural dessa filosofia. 

“Chamamos-lhe a nossa sala de estar”, diz Lívia. “É o pai e a filha a receber amigos em casa.” A hospitalidade é, aliás, um traço de família. “Vem da minha avó”, conta, “que adorava receber, cozinhar, agradar as pessoas. Transformámos isso num negócio familiar, e é por isso que os clientes se sentem em casa.” O espaço é pequeno, comporta apenas alguns lugares, e o ambiente é de respeito e tranquilidade. “Não é um bar para gritar nem para fazer confusão”, reforça Ricardo. “Depois das onze, não há copos lá fora, para não incomodar os vizinhos. Se vejo gente a rir alto, lembro-me que em cima moram uma enfermeira, um bombeiro e idosos”. As regras, longe de afastar o público, criaram uma comunidade fiel, habituada à calma e ao tom de voz baixo. Não é à toa que Ricardo usa no peito uma estrela a dizer xerife.  

QG Atelier Bar
Maria MattosQG Atelier Bar

O menu sólido acompanha a bebida. Os pastéis brasileiros — de camarão com queijo ou carne — são um sucesso. Há ainda sanduíches inspiradas nos bares do Rio de Janeiro: o de carne maluca, feito com carne cozida e desfiada, e o de pernil com abacaxi, uma homenagem ao lendário Cervantes, bar boémio que pai e filha frequentaram em tempos. “Trazem memória afectiva”, diz Lívia. “E são uma delícia com um bom Whisky Sour.” 

O futuro do QG passa por crescer. A ideia é que o QG seja o primeiro de uma linha de espaços que mantenham esta essência da coquetelaria clássica e ambiente intimista. “Queremos escalar o negócio mantendo a excelência e a essência", acrescenta Lívia. “Vejo muitos bartenders novos a querer surpreender pela técnica ou pelo efeito visual. Mas é preciso saber tocar um clássico antes de querer compor uma música nova”, diz Ricardo.

Melómano dedicado, o bartender fala dos cocktails como quem fala de canções: “O jazz é improviso, é criação pura, é sentimento. E os meus cocktails também. Cada um nasce da conversa com quem o vai beber. Não há páginas escritas, nem fórmulas”. O que é uma pena. Se quiséssemos replicar estas poções, provavelmente, iríamos falhar. Resta-nos regressar ao QG. Ricardo saberá melhor do que ninguém o que nos servir. 

Calçada Engenheiro Miguel Pais, 3B (Príncipe Real). Ter-Sáb 19.00-02.00

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