Notícias

“Nunca é aborrecido tocar José Pinhal. Nunca tive um concerto aborrecido”

Dez anos após o primeiro concerto, a José Pinhal Post Mortem Experience preparam-se para fechar o ciclo. Falámos com o grupo, que começou por resgatar a obra do cantor que lhe dá nome e acabou por rebentar a bolha do circuito indie.

Hugo Geada
Escrito por
Hugo Geada
Jornalista
José Pinhal Post-Mortem Experience
DR | José Pinhal Post-Mortem Experience
Publicidade

Tudo começou com uma cassete encontrada num caixote do lixo. De repente, temos uma cover feita por José Malhoa e dois grandes espectáculos de despedida e homenagem. Com concertos marcados para o Coliseu Porto Ageas (9 de Outubro) e o Coliseu dos Recreios, em Lisboa (7 de Novembro), sentámo-nos à conversa com os José Pinhal Post Mortem Experience – isto é, João Sarnadas, ZéZé Cordeiro, Bruno Martins, David Machado, José Pedro Santos, Nuno Oliveira e Tito Silva. Um encontro que serviu para reflectir sobre o percurso de dez anos desta banda de tributo, mas também sobre o papel que desempenhou na aceitação da música popular em Portugal, e ainda falar da relação com os fãs e da decisão de sair em grande, no ponto mais alto da sua popularidade.

Como é que estão a correr os ensaios? Os concertos de despedida estão aí a bater à porta.
João Sarnadas: Estão a correr bem. Estamos a afinar alguns pormenores, mas ainda temos alguns ensaios pela frente para aperfeiçoar o espectáculo.

Tem sido uma longa viagem desde que ajudaram a renascer a lenda do José Pinhal. Passaram de levar estas músicas de um nicho de fãs para se tornarem um fenómeno popular, que rebentou a bolha e chegou ao mainstream. Quando começaram este projecto, em pequenas festas e concertos esporádicos, alguma vez imaginaram que isto fosse acontecer?
JS: Nunca nos passou pela cabeça. Foi um processo crescente que fomos acompanhando com alguma surpresa.
ZéZé Cordeiro: Nos nossos primeiros concertos, só queríamos mesmo tocar estas músicas ao vivo numa festa. Não tínhamos objectivos nem idealizávamos nada.
JS: Depois de alguns concertos, fomos tomando o gosto por este projecto, mas foi só depois da entrada do José Pedro Santos [baterista] que percebemos que podíamos chegar a outros sítios, além do nicho onde nos movimentávamos, apesar de continuarmos a ter um som muito específico e fiel ao material original. O projecto foi crescendo de forma gradual até que, de um momento para o outro, atingiu proporções fora daquilo a que estávamos habituados. Quando demos por nós, estávamos a actuar para públicos de mil ou duas mil pessoas. Mesmo a acompanhar este processo de crescimento, foi muito surpreendente.
Bruno Martins: Quando tocámos nas festas de São João, em 2018, estava muita gente, sem dúvida... mas também era São João, é aquela noite em que não sabes se as pessoas estavam lá para te ver ou se estavam apenas a aproveitar as festas. Só anos mais tarde, em 2022, em Paredes de Coura, durante o Festival Sobe à Vila, é que tivemos a certeza que as pessoas estavam lá para nos ver.

Eu também estava lá. Foi um dos grandes momentos do festival. O público estava completamente louco.
ZC: Sim, esse foi um dos nossos primeiros grandes concertos. Já tínhamos percebido que durante a pandemia tinha havido um aumento de interesse pela música do José Pinhal. Estes concertos foram a confirmação.
JS: Apesar de ter sido surpreendente, já tínhamos alguma certeza do que ia acontecer. Dois dias antes, tínhamos tocado no Bons Sons, às duas e tal da manhã. Ou seja, é um horário em que as pessoas já só ficam se estiverem mesmo para te ver e estava mesmo muita gente. Destes momentos para a frente, o fenómeno foi sempre a crescer.

José Pinhal Post-Mortem Experience
Mariana SilvaJosé Pinhal Post-Mortem Experience

Foi nesses concertos que notaram este salto de popularidade e que estavam a construir algo especial?
ZC: Foi muito gradual. Mesmo antes da pandemia, já notávamos assim um interesse crescente. Nós tocámos, por exemplo, na Associação de Moradores da Pasteleira, ainda em 2021, e esgotou em horas. Mesmo sendo pouca gente, notámos que havia muito interesse e que não era algo pessoal, não era só o nosso grupo de amigos que nos queria ver.
JS: Nós começámos a actuar em salas cada vez maiores, como a Galeria Zé dos Bois ou o Espaço Musas, e fomos percebendo que estávamos sempre a ter mais pessoas do que estes sítios permitiam. Eram números que não estávamos à espera de atingir. E, claro, era sempre surpreendente quando estávamos a tocar para milhares de pessoas e toda a gente conhecia as letras.

O momento em que senti que José Pinhal e o vosso trabalho estava a chegar a uma audiência cada vez maior foi, precisamente, nesse Paredes de Coura de 2022. Não pela quantidade de pessoas que estava no concerto, mas porque era impossível passear pela zona de campismo ou pelo rio e não ouvir alguém com uma coluna a passar músicas como "Tu És A Que Eu Quero – Tu Não Prendas O Cabelo" ou "A Vida Dura Muito Pouco".
ZC: Isso foi algo muito engraçado. Fui a muitos Paredes de Coura e fiquei a acampar muitas vezes e não me lembro de haver um artista que fosse assim tão consensual.

Ficaram surpreendidos quando o José Malhoa decidiu fazer uma cover do José Pinhal?
[Risos.] JS: Não necessariamente, porque sabíamos que eles se conheciam. Ficámos mais surpreendidos por ele não assumir que era logo uma versão da música. Alguém nos tinha dito que o José Malhoa e o José Pinhal eram amigos, mas, mais tarde, o José Malhoa mandou uma mensagem para o Facebook do José Pinhal como se estivesse a falar com o próprio. A dizer "Amigo, o que é feito de ti?". Achámos isso estranho, porque tenho ideia de nos terem dito que ele ou foi ao funeral ou doou dinheiro para o funeral, mas, de repente, estava a falar com uma pessoa que ele, tecnicamente, sabia que tinha morrido. Mais tarde quando ele lançou a música foi algo que não nos surpreendeu e que faz algum sentido.
ZC: Fomos vendo as músicas, principalmente a "Tu Não Prendas o Cabelo", a entrar no cânone da música de baile e do cancioneiro das festas, por isso é normal aparecerem mais bandas e artistas a tocar estas canções.
JS: As pessoas não têm noção, mas os fãs vão apanhando várias versões de José Pinhal e enviam-nos os vídeos. Já ouvimos versões de rock, metal, de tunas e de todo o lado do país. As músicas foram passando pelas várias gerações, públicos e festas diferentes até se tornar algo transversal.

Esta é a pergunta de um milhão de euros. Numa altura em que estão no pico da fama deste projecto, porquê acabar agora com José Pinhal Post Mortem Experience?
JS: É, precisamente, por esse pico de fama que achamos que faz sentido acabar. Queríamos acabar numa altura em que estamos em cima da onda, quando há interesse e em que conseguimos encher uma sala grande. Este projecto surgiu numa festa, era suposto ser uma banda de uma noite, e durou dez anos. Temos muitos projectos, e este é um de que gostamos imenso, obviamente, mas também sentimos que chegou uma boa altura, e faz algum sentido terminar enquanto a banda está em grande e no nosso décimo aniversário.
BM: Já tínhamos tido conversas sobre este assunto, mesmo à medida que a banda se foi popularizando. Sabíamos que iria haver um fim, que isto não era uma coisa para ficar a tocar até ao infinito.
ZC: Este não é propriamente um projecto nosso e existe uma finitude de material. Não vão sair mais discos novos de José Pinhal, não é? Não sabemos se há mais cassetes perdidas, mas, à partida, não há. Portanto, também existe esse lado de já sabemos tocar praticamente este repertório todo de cor e de ser algo cada vez menos fresco para nós, enquanto músicos.

Também enquanto músicos que fazem música experimental e em registos diferentes, acredito que também seja aborrecido estar tanto tempo seguido a tocar sempre as mesmas coisas sem poder inovar o repertório.
JS: Obviamente, que são muitas vezes as mesmas músicas e tudo mais, mas nunca é aborrecido tocar o José Pinhal. Nunca tive um concerto aborrecido do José Pinhal.
ZC: Isto tem o peso que tem, mas os concertos de José Pinhal são sempre divertidíssimos e poderíamos continuar que seriam divertidos na mesma, não é por causa disso.
JS: Os projectos têm um fim, é apenas natural. Uma coisa que nós não gostaríamos é de aqui a dez anos estarmos a tocar outra vez para dez pessoas. Isso também não traz nada de novo nem de bom à memória do José Pinhal. Preferimos que as pessoas fiquem com uma memória bonita e que deixe saudades.
ZC: Agora, há muitas pessoas a tocar a música dele e esperamos que continue a espalhar-se e de muitas formas diferentes.

José Pinhal Post-Mortem Experience
DRJosé Pinhal Post-Mortem Experience

Uma das razões que levaram a este fim foi para não gerarem uma fadiga na audiência de tanto tocarem José Pinhal?
ZC: Ainda há muitas pessoas que não conhecem estas músicas. Umas pessoas fartam-se e outras passam a descobrir um artista que não conheciam, mas isso é como tudo. Nós não podemos pensar muito nisso porque não é algo que dependa da nossa vontade.

Estavam a falar de se focarem nos vossos outros projectos. O que é que têm na calha para sair?
JS: Eu vou lançar um disco a solo enquanto Coelho Radioactivo, que vai sair na última semana de Outubro. Espero conseguir actuar um bocado mais ao vivo e vou contar com a ajuda da Tânia Dinis no vídeo e que ajudará a tornar a experiência mais multimédia. Vai ser diferente porque vou passar de tocar algo muito divertido e animador para algo mais deprimente.
BM: Eu vou ter um disco novo de Bruno de Seda, que está quase pronto, e que vai sair em Novembro, no mês seguinte espero estar a apresentá-lo ao vivo. O Zézé e o Zé Pedro fazem parte da minha banda.
JS: O Nuno está a preparar um disco a solo, o David tem Criptobanda Musical de Paradela do Rio e, juntamente com o Tito, tem uma banda chamada Chico, que também irá lançar uma cassete em breve.

Já tocámos um pouco neste assunto, mas, agora que vocês, que são os porta-estandartes a dar vida à música do José Pinhal, vão parar de tocar, o que acham que vai acontecer à música deste artista?
ZC: Acho que vai continuar a ser ouvida. De três em três meses, ou qualquer coisa assim, há uma publicidade nova com uma música nova do José Pinhal, e ele ainda tem muitas músicas para usarem em mais publicidades [risos]. Não é algo que passe por nós.
JS: Como a música do José Pinhal também teve este ressurgimento, agora, durante estes tempos, há de ter a sua vida própria.
BM: Há algo em que penso e que me dá um certo alento. Estes putos que descobriram José Pinhal nestes últimos anos e viram os nossos concertos, daqui a dez ou 15 anos vão estar a dizer que esta era a "música da minha juventude", como os outros cotas que viram também no seu tempo [risos].
JS: Foi uma coisa que marcou tanto estes últimos anos que dificilmente vai voltar a cair no mesmo esquecimento em que estava. É algo que ficou entranhado na cultura musical portuguesa.

Nos últimos tempos também tem havido uma nova atenção e muita gente a fazer música inspirada na música popular portuguesa. O Chico da Tina, o Mike El Nite, o David Bruno ou até o Van Zee, por exemplo, que samplou uma música do José Pinhal. Acham que este renascimento da música do José Pinhal contribuiu para este movimento?
ZC: Acho que sim, influenciou, sem dúvida. Posso dizer que o David Bruno estava a ver o nosso primeiro concerto [risos].
JS: Houve uma confluência de factores. O êxito do José Pinhal também se explica por haver um maior interesse na cultura popular e uma predisposição para a consumir. Obviamente, o José Pinhal é um artista muito singular. Apesar de vir do passado para agora, existe uma estética muito bem definida e uma postura e imagem característica. Aquele penteado e o fato branco são muito marcantes.

Estamos a falar do José Pinhal, que foi quem concebeu e criou estas músicas, mas como é que olham para o vosso trabalho neste contexto? Também dão uma palmadinha nas costas e sentem que tiveram um papel importante neste ressurgimento da música popular em Portugal?
BM: Não podemos negar que fizemos parte, mas também não queremos ser aqueles gajos que dizem "isto surgiu por minha causa".
JS: Isso é para o José Cid e para o Rui Veloso. Nós fizemos parte de um movimento que é maior do que nós. Há quem se considere um génio ou líder de um movimento quando, na verdade, as coisas acontecem numa escala muito maior.
ZC: Existem muitas causas que extrapolam no mundo da música, há factores culturais e sociais para lá disso. Recentemente, há um movimento de aceitação da música cantada em português, por exemplo, que foi criado nas últimas duas décadas com grupos como os Ornatos Violeta. A música cantada em português deixou de ser foleira.
BM: O Manel Cruz tem inclusive uma entrevista em que ele diz que, nos anos 90, cantar em português era a coisa mais foleira que podias fazer.

E hoje em dia é quase o oposto.
ZC: Nós não te podemos dizer que tivemos nenhuma intervenção nisso porque ainda nem sequer sabíamos tocar um acorde [risos].
JS: Mas é um movimento no início da década, graças a artistas como o B Fachada e tantos outros, que veio desaguar numa coisa que sempre foi considerada mais parola, que é este lado da cultura popular portuguesa. As pessoas querem ser muito urbanas, mas de repente percebem que se perdeu alguma coisa. Lembram-se das festas de aldeia de quando eram crianças, que achavam foleiras porque eram adolescentes e achavam que era uma coisa para os tios de aldeia.
BM: Na altura as influências também eram outras. Estávamos todos mais colados à música americana.
JS: Sim, foi um processo longo, com vários actores e nós fizemos parte disso.
ZC: Fizemos parte e, no fundo, usufruímos. Se não fosse este contexto em que nós crescemos e em que viemos parar, não teríamos conseguido fazer o primeiro concerto.
JS: Sim, se calhar nem tínhamos tido vontade de ter uma banda de baile. Tudo isto surgiu porque era algo diferente e que nunca tínhamos tocado. Entretanto comecei a gostar cada vez mais do estilo, o Bruno começou o seu projecto de música romântica... Houve uma confluência de factores.

O que é que podemos esperar destes dois últimos concertos?
JS: Vão ser concertos muito emotivos. Para nós, vai ser o fim de uma era, e tenho a certeza que para o público também. Quando actuamos em salas fechadas há uma energia muito emotiva que se cria – que até é mais culpa do público do que nossa. Vamos fazer um repertório estendido, tentar tocar o máximo de coisas que conseguirmos, para que seja o culminar destes 10 anos de percurso.
BM: Uma das coisas mais fixes deste projecto é a maneira como o público interage connosco e como nós conseguimos responder à energia que o público dá. Vai ser, principalmente, um último momento de comunhão com o público. Entre as pessoas que nos acompanharam e que conheciam o José Pinhal também.
JS: Para nós, também há este lado mais emotivo. Nos últimos anos conhecemos a filha do José Pinhal, amigos, familiares e músicos que tocaram com ele. Vai ser a última homenagem, pel o menos em concerto, que fazemos a essas pessoas.

Coliseu Porto Ageas, Rua de Passos Manuel, 137 (Porto). 9 Out (Sex) 22.00. 20€-25€; Coliseu dos Recreios, Rua das Portas de Santo Antão, 96 (Lisboa). 7 Nov (Sáb) 22.00. 18€-30€

🎭 Mais cultura: arte, livros, música, teatro e dança em Lisboa

📲 Siga-nos nas redes sociais: Whatsapp, Instagram, Facebook e LinkedIn

Últimas notícias
    Publicidade