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Nuno Lopes: “Nunca tive o desejo de ser um actor internacional”

‘Operação Maré Negra’ é a primeira produção luso-espanhola da Amazon Prime Video. Falámos com Nuno Lopes, um dos actores portugueses do elenco, sobre as ligações entre os dois lados da fronteira e o estado da cultura no país.

Margarida Coutinho
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Margarida Coutinho
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Operação Maré Negra
Operação Maré Negra
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Numa pequena vila piscatória na Galiza, a maior parte da população luta para esticar o ordenado até ao final do mês. Neto de pescadores, Nando (interpretado pelo espanhol Álex González) cresceu nesta realidade, mas quer sair dela. Tem talento para o boxe e já conquistou vários títulos por Espanha. Acontece, todavia, que está demasiado velho para se tornar profissional e ganhar a vida dentro do ringue. Com o melhor amigo, o português Sérgio (Nuno Lopes), partilha a vida boémia e o sonho de um futuro despreocupado. E são estas aspirações que os arrastam para o mundo das drogas, das lutas ilegais e, mais tarde, para o perigoso empreendimento que envolve um submarino artesanal e três toneladas de cocaína. A história é inspirada em factos reais e Operação Maré Negra conta-a em quatro episódios, a partir de sexta-feira, 25 de Fevereiro, na Amazon Prime Video. A série também terá transmissão na RTP, que é co-produtora, embora não haja ainda data confirmada.

Operação Maré Negra
Operação Maré NegraNuno Lopes interpreta Sérgio, um português melhor amigo de Nando, a personagem principal.

“[O Sérgio] é uma personagem mais inocente mas que, ao mesmo tempo, não pensa muito na vida porque quer é divertir-se”, diz Nuno Lopes à Time Out sobre a personagem que interpreta nesta co-produção luso-espanhola, a primeira da plataforma de streaming da Amazon. O actor português enquadra Sérgio e confidencia-nos que um dos motivos que o levou a aceitar o papel nesta série foi o facto de se tratar de uma história real, uma história sobre uns homens que não só embarcaram num submarino fabricado artesanalmente com cerca de três toneladas de cocaína, como ainda conseguiram fazer a viagem desde a América Latina até à Europa, onde foram interceptados pela polícia galega.

Em Operação Maré Negra, Nando e Sérgio – um galego e um português – partilham uma amizade que supera línguas e fronteiras. “[O Sérgio] tem uma amizade extrema pelo Nando porque se conhecem desde miúdos e, de certa maneira, quando estão juntos é como se voltassem a ser adolescentes”, explica Nuno Lopes. Conseguir estabelecer uma ligação que chegasse ao público seria à partida uma das maiores dificuldades. No entanto, a química com o actor espanhol Álex González foi quase imediata. “A nossa primeira cena foi num barco onde passámos quase 12 horas, dois dias seguidos, e percebemos que já deveríamos ser amigos e que vamos ser amigos para a vida.”

Operação Maré Negra
Operação Maré NegraNuno Lopes (Sérgio) e Álex González (Nando) durante as filmagens de 'Operação Maré Negra'

A série passa-se entre Portugal e Espanha com uma equipa luso-espanhola dentro e fora do ecrã. “É preciso quebrar as fronteiras, sobretudo na ficção e contar histórias que mostrem as nossas afinidades”, defende Nuno Lopes. Depois de 3 Caminos, estreada em Março do ano passado, esta produção volta a juntar a Ficción Producciones, a RTP e a Amazon Prime Video. “Há tantas histórias para contar entre Portugal e Brasil, Portugal e Espanha, que é uma estupidez estarmos confinados pela língua”.

Em 2020, Nuno Lopes chegou ao mundo das gigantes do streaming com White Lines, da Netflix, e regressa agora com Operação Maré Negra. Ao mesmo tempo, continuou a participar em produções nacionais como Causa Própria, a série de ficção realizada por João Nuno Pinto para a RTP, que se estreou em Janeiro deste ano, ou Princípio, Meio e Fim, de Bruno Nogueira, que foi para o ar em 2021 na SIC. “A grande diferença [entre grandes e pequenas produções] é o tamanho porque, como é óbvio, tem mais gente, mais dinheiro, mais condições, mas depois quando é a altura de filmar estamos a falar do mesmo quer se esteja a fazer uma série com alto ou baixo orçamento.”

Portugal pode ser “um paraíso de cinema”

Realizada pelos espanhóis Daniel Calparsoro e Oskar Santos e pelo português João Maia (Variações), a série começa em Espanha, passa por Portugal e segue caminho até ao Brasil. Ficção à parte, a rodagem ficou-se pelos dois primeiros países e Portugal serviu de cenário mesmo nas cenas que nos transportam para o verde da selva da Amazónia – mais exactamente na área protegida de Bertiandos, em Ponte de Lima. “Portugal tem todas as condições para ser um paraíso de cinema. Temos um tempo maravilhoso para filmar e temos vários tipos de paisagem a 50 minutos de distância umas das outras”, observa Nuno Lopes. Esta facilidade pode ajudar a atrair mais produções estrangeiras para Portugal e, consequentemente, mais trabalho para actores e equipas técnicas nacionais. “Espero cada vez mais que produções como esta tragam mais trabalho estrangeiro para Portugal e permitam aos actores e às equipas portuguesas trabalharem com outro tipo de meios”.


Depois de Operação Maré Negra, Nuno Lopes continua a somar projectos internacionais. “Tenho para estrear este ano filmes do Marco Martins, do João Canijo, do Tiago Guedes, duas produções francesas e, agora, vou começar a filmar um filme de guerra francês”, desvenda o também DJ. Ao contrário do que se podia esperar, a carreira internacional de Nuno Lopes não fazia parte dos seus objectivos. “Eu nunca tive o desejo de ser um actor internacional e continuo a não ter. Tenho desejo de filmar e é muito difícil de o fazer em Portugal porque, infelizmente, há pouco apoio às artes e só fazemos dez filmes por ano”. O problema da precariedade da cultura já tinha sido realçado por Nuno Lopes que, ainda assim, é um dos actores mais requisitados da sua geração. “[A precariedade] obriga a que uma pessoa que, como eu, queira continuar a filmar e a contar histórias, seja obrigada a sair do nosso país”. O actor não deixa de realçar, no entanto, que “temos uma cinematografia tão pequena e mesmo assim somos premiados, isso revela o quão fantástica é a qualidade dos nossos técnicos, actores e contadores de histórias”.

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