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‘O Fantasma da Ópera’ está em cena (e revelamos o que o faz um sucesso)

Depois de esgotar em 2024, a produção conjunta da Broadway e do West End regressa ao Campo Pequeno. Fomos descobrir o que mantém viva a magia deste espectáculo.

Raquel Dias da Silva
Escrito por
Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
O Fantasma da Ópera
Everything is New | O Fantasma da Ópera, no Campo Pequeno
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Estamos no Campo Pequeno. É a segunda vez que Álvaro Covões, director-geral da promotora Everything is New, traz a Lisboa The Phantom of the Opera, o musical de Andrew Lloyd Webber, numa produção conjunta da Broadway e do West End. A história é conhecida: um génio musical vive nas catacumbas da Ópera de Paris e, hipnotizado pelos talentos e beleza de uma jovem soprano, tenta fazer dela sua protegida. Mas o que transforma esta versão itinerante num verdadeiro fenómeno? Fomos espreitar os bastidores e saímos de lá fascinados com os detalhes e os profissionais que dão forma ao que se vê em palco.

“A nossa ambição é promover espectáculos que consigam fazer algo que nos parece absolutamente fundamental, que é trazer de novo as pessoas para as salas e para o consumo da cultura de uma forma geral. Mas todos os espectáculos são capital de risco intensivo, só os malucos é que andam aqui, porque os bilhetes não se guardam no frigorífico para se vender no dia seguinte, como a hortaliça”, diz Álvaro Covões, a brincar, mas muito a sério. Mesmo depois de ter esgotado em 2024, com a primeira temporada, um musical em grande escala como este requer circunstâncias excepcionais (tem até dia 25 de Outubro para perceber porquê com os seus próprios olhos).

A produção chega com mais de dez camiões de 14 metros, a montagem leva seis dias e a desmontagem quatro. As equipas chegam três a cinco horas antes de cada apresentação para garantir que tudo está preparado. A complexidade técnica só é acompanhada pela grandiosidade visual. Veja-se o guarda-roupa. São 230 trajes, mil peças de figurino e vinte trocas ao longo da noite, uma das quais acontece em palco, diante do público. Mas há números e rotinas ainda mais impressionantes. Por exemplo, os 650 quilos do icónico lustre, uma estrutura maciça com 3,2 metros de largura e 3,5 de altura que, num momento de tirar o fôlego, cai a 2,5 metros por segundo.

The Phantom of the Opera
Everything is New/ EIN Comunicação

“Uma grande parte do nosso espectáculo é o cenário e não há muito espaço atrás do palco, por isso foi necessário criar toda uma coreografia para os bastidores”, revela à Time Out a assistente de encenação Sophia McAvoy. “Temos de assegurar que a tecnologia funciona correctamente, sem imprevistos, mas também que os actores estão preparados, física e vocalmente, e isso às vezes envolve um certo caos. É o efeito dominó, uma coisa acciona outra. Mas é um privilégio poder ver como diferentes públicos reagem, e poder adaptar o que for preciso para que se apresente o melhor espectáculo possível.”

Esta temporada traz novidades. O proscénio, ou frente de palco, é mais amplo e McAvoy promete que o trabalho de câmara também vai permitir ver melhor o que está a acontecer através das diferentes telas, que se colocaram em pontos estratégicos. “É importante para mim porque a história vive muito do que está a acontecer no rosto das personagens”, justifica, antes de destacar o profissionalismo da restante equipa. “O espectáculo não existiria sequer sem Stephen Barlow e Ewan Jones [director e coreógrafo, respectivamente], e depois temos Andrew Riley, o cenógrafo, e Howard Hudson, o designer de luz. Estas quatro pessoas são especiais, mas há muitas outras no terreno.”

No total, são 80 membros, entre técnicos, elenco e orquestra. O Fantasma é interpretado por Nadim Naaman, que faz teatro musical há mais de duas décadas. A sua maquilhagem leva 90 minutos para ser aplicada e 30 a ser removida. O rosto é hidratado e barbeado, e as próteses fixam-se antes que duas perucas, dois microfones sem fio e duas lentes de contacto, uma branca e outra opaca, sejam colocadas. Não temos sequer tempo de falar com o actor depois do ensaio, mas apanhamos Bridget Costello, uma das actrizes que interpreta a protagonista, a cantora lírica Christine (a outra é Georgia Wilkinson).

“O cenário, os figurinos, os adereços, tudo isso é parte da nossa personagem e do mundo que ela habita, e o local onde as cenas acontecem também é importante. Acho que faz parte da força do espectáculo. O covil do Fantasma, por exemplo, aparece no primeiro e no segundo actos, e a minha relação com esse espaço muda de um momento para o outro”, partilha Bridget. “Temos a sorte de ter uma equipa criativa e inteligente a apoiar-nos com toda a sua sabedoria e experiência. É muito importante ter a equipa certa, caso contrário não funcionaria, porque este espectáculo envolve muita confiança.”

Lara Martins
Fotografia: Giulia Marangoni| Lara Martins, no papel de Carlotta, em The Phantom of the Opera

Lara Martins, que veste o papel de Carlotta há mais de uma década, incluindo no West End de Londres, não poderia concordar mais. Fazer oito espectáculos por semana é um grande desafio. É preciso cuidar muito bem da voz e do corpo. Desde a sua rotina de ginásio à sua dieta, tudo impacta a performance, e ajuda estar rodeado das pessoas certas, claro. “Eu tenho imensos figurinos, estou sempre a mudar de roupa, por isso também tenho uma assistente que me acompanha no processo. Mas isto já está tudo muito bem oleado”, garante a actriz portuguesa, que continua tão entusiasmada como da primeira vez para mostrar ao público a vulnerabilidade da antagonista da história.

Quem também mal pode esperar para voltar à cena é Francisca Mendo. A bailarina, também portuguesa, chegou a integrar várias companhias de dança no Reino Unido até 2023, quando decidiu fazer a audição para The Phantom of the Opera. “O ano passado foi um sonho tornado realidade. Inicialmente era só um contrato de seis meses, mas entretanto foi renovado e nessa altura anunciaram a paragem em Lisboa”, recorda. “Poder voltar é uma lufada de ar fresco. A primeira temporada foi muito emocionante, mas este ano vou aproveitar mais e significa muito para mim o nosso país querer ver-nos outra vez, porque eu saí de Portugal por não sentir apoio à cultura, e estar aqui novamente é muito gratificante.”

A cereja no topo do bolo seria que esta paragem em Lisboa não fosse a última. Francisca gostava de levar o espectáculo ao Porto, onde nasceu em 1994 e iniciou os seus estudos de Ballet Clássico em 1997, no Centro de Dança. Mas, enquanto sonha, não se esquece do mais importante agora: adaptar-se ao palco. “O que fazemos em cena é mais fácil de controlar do que aquilo que não se vê, porque todos os teatros são diferentes. Às vezes temos escadas para chegar aos camarins, às vezes não temos. Será que conseguimos fazer aquela troca rápida? Por isso, essa é mesmo a parte mais desafiante. Mas também é parte da magia, e do que torna tudo tão emocionante e tão fresco, e depois, passados dois anos, somos de facto uma família. Isso nota-se em palco.”

Campo Pequeno. Até 25 Out, Ter-Sex 21.00, Sáb-Dom 15.30 e 21.00. 45€-140€

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