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“O Manuel Vieira sou eu mesmo. Não estou a pintar para uma audiência”

"A Ilha Púrpura: Notas e Paisagens" é um passeio no campo com figuras improváveis e uma síntese de 40 anos de pintura, desenho e escultura de Manuel João Vieira. Inaugura segunda-feira, 18 de Maio, no MAAT.

Rute Barbedo
Escrito por
Rute Barbedo
Jornalista
Manuel João Vieira
Rita Chantre | Manuel João Vieira
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Conhecemo-lo mais como músico e performer, é a sua vertente pública. Nos palcos andou (e anda) com bandas como os Ena Pá 2000, Irmãos Catita ou Corações de Atum. Este ano, foi candidato à Presidência da República, sob o mote "Só desisto se for eleito". No MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, não é nada disso que Manuel João Vieira (Lisboa, 1962) está a montar. Encontramo-lo numa quarta-feira de manhã, dias antes da inauguração de "A Ilha Púrpura: Notas e Paisagens", que acontece no Dia Internacional dos Museus, 18 de Maio, com entrada livre.

Na ilha há perto de 50 pinturas, desenhos e esculturas feitas entre 1982 e 2026. "Aquele desenho, de 20 metros, é deste ano", conta o artista à Time Out. Chama-se Banda Desenhada, o lugar onde quase tudo começou, quando Manuel João Vieira era uma criança e compunha histórias em quadradinhos. Depois vieram as Belas Artes, as paródias e provocações do Movimento Homeostético, que co-fundou em 1983, e que vinham contrariar o snobismo do universo da arte contemporânea. Já naqueles 80s, o crítico de arte João Pinharanda, agora responsável pela curadoria da exposição, dava relevo ao trabalho do colectivo irreverente. Agora, e sobre Manuel João Vieira a solo, o director artístico confirma que "a pintura é uma das áreas onde a sua presença alcança maior significado". Presença artística e cívica. "Há, na sua pintura e desenho, um jogo com o passado que só o presente pode fazer – porque se revela irónico, melancólico e sem saída, como toda a arte que surge depois de todas as revoluções já terem sido feitas." Nas peças de Vieira estamos na tragédia, na comédia, no teatro, no anti-cálculo e, sobretudo, no inconsciente, que é "exactamente o que não conseguimos explicar", como afirma o artista. Não expliquemos, portanto.

Como chegaste a esta ilha?

Eu estou sempre a chegar à ilha. Mas acho que há aqui um contexto, que tem um bocado a ver com a forma de elaborar as relações entre as figuras, que é a de um caderno de viagem. A forma como vou descobrindo a paisagem dos desenhos e das pinturas é também a forma de uma espécie de peregrinação, isto é, acho que sou espectador daquilo que eu próprio estou a fazer, daquilo que se está a desenrolar. No caso dos desenhos, eu consigo perceber bem que são uma espécie de solo, como acontece no solo de um instrumento. Agora, as escalas e as harmonias e as figuras de estilo nas quais estou a trabalhar muitas vezes repetem-se, isto é, existe uma espécie de abecedário formal, de figuras, que vou desenrolando sempre de uma maneira diferente. Quando estou a começar um desenho não sei como é que ele vai acabar. No caso deste desenho a preto e branco, de 20 metros – os dois primeiros são de 2024, o resto é de 2026 – e que é o único que foi feito de propósito para vir para esta curva, eu nunca soube como é que ele ia acabar.

Nas figuras há um universo clássico, de infernos, paraísos, bestas. São as figuras que habitam o teu imaginário?

O que acontece é que as figuras sofrem transformações à medida que são repetidas. E vão estabelecendo relações diferentes também. Por exemplo, o elemento “água” está em várias pinturas – por isso é que eu também pensei neste título [A Ilha Púrpura] –, mas sempre de forma diferente. Naquela pintura [aponta para o fundo da sala], por exemplo, a água são ao mesmo tempo os lençóis que a lavadeira está a lavar e ali [aponta para outra] o mar é oblíquo. Estou quase sempre a desenhar paisagens e aquilo que dá o ritmo, muitas vezes, às pinturas são os elementos das árvores com as arquitecturas, o mar. Depois há sítios em que há alguma confusão e há sítios em que há alguma paz.  

E cenas onde há confusão e paz ao mesmo tempo.

Sim, por exemplo, nesta pintura temos aquele barco peregrino numa espécie de piscina que vai ter a uma fonte e, do lado esquerdo, um caos completo [com figuras do domínio do fantástico, como uma criatura com nove mamas] 

E isso é para falar do quê? Das nossas cabeças?

Estou a escrever sobre as pinturas, para fazer um catálogo que também é um livro que vai ser publicado com a ajuda da Documenta e da galeria Ala da Frente, de Famalicão, e apercebi-me de que, quando escrevo sobre elas, acabo por descrever aquilo que podem ser as figuras do ponto de vista verbal. Eu penso visualmente nas coisas. Embora elas sejam muito figurativas e haja temas como o São Sebastião espetado pelas setas ou Marte e Vénus, nunca penso nelas do ponto de vista verbal. 

Montagem de "A ilha púrpura", MAAT
Rita ChantreMontagem de "A ilha púrpura", MAAT

Numa entrevista de 2010, ao Público, dizias que vivias nos anos 60, quando as cores da moda eram o azul e o amarelo. Em que época andas agora?

Depende um bocado daquilo que faço. Acho que, em termos musicais, sou um bocado anos 60/70 e tenho uma fase dos anos 80, que é o fim das utopias. Em termos de pintura, estou sempre numa situação de viver o instante. Estava a viver o instante em 82 e estou a viver o instante agora. Eu gosto de passear no campo. É aquilo que diz o Cesário Verde: "No campo eu acho a musa que me anima." Na homeostética [movimento artístico criado em 1983 por Vieira, Pedro Portugal, Ivo, Pedro Proença e Xana, enquanto alunos da Escola das Belas Artes de Lisboa, que vinha romper com o cânone da arte contemporânea, agitando-o com manifestos e provocações da pintura ao vídeo ou performance], também tínhamos outros dizeres. Tivemos uma exposição chamada “Um Labrego em Nova Iorque”, porque considerávamos que havia qualquer coisa de orgulhosamente labrego no nosso movimento de arte portuguesa, talvez uma tentativa de haver qualquer coisa de português na arte, por comparação com outros grupos que tentavam estar na crista da onda daquilo que são os centros da arte contemporânea internacional. Portanto, a ideia de haver um certo contra, um provincianismo assumido. E eu acho que isso tem muito a ver com os elementos de paisagem que tenho nas coisas. 

Passas algum tempo em Trás-os-Montes, perto de Vidago, na casa do teu pai, o pintor João Vieira. É um campo que te transporta para estas paisagens?

Agora estou com os joelhos um bocado lixados, mas antes tinha a mania de fazer passeios de horas no campo e de vez em quando tinha momentos de contemplação e de sentir, como hei-de dizer?, não é maravilhado, mas qualquer coisa assim do género. 

Deslumbrado?

Um bocado fora de mim próprio. Obviamente que depois de andar muito, a subir, uma pessoa começa a ficar com a cabeça um bocado diferente... As paisagens que vou compondo, obviamente, não são as mesmas que vou vendo, mas no próprio andar existe uma imitação daquilo que é estar em peregrinação e [no pintar há um] estar a olhar para coisas que eu não estava à espera que acontecessem. E isso é um pouco estranho, porque sou eu que as faço.

Um pouco como a ideia do escritor que é levado pela mão.

Sim, como na escrita automática surrealista. Isso passa-se um bocado. Já na figura do Orgasmo Carlos [heterónimo de Manuel João Vieira], por exemplo, as figuras são todas pensadas. Ele não é um solo, é uma coisa que tem a ver com alguma crítica e alguma compreensão ou não compreensão da arte contemporânea, e há sempre uma ironia clara, uma construção conceptual que aqui [em Manuel Vieira] não existe. Aqui, a parte inconsciente está sempre a ser revisitada. Há também a ilusão de que quase podes entrar dentro da pintura, fisicamente, que tem um pouco a ver com a Alice [no País das Maravilhas, de Lewis Carroll], com o outro lado do espelho. Mas não tenho nenhuma abordagem psicanalítica ou psicológica das coisas. 

Não havendo ironia ou uma busca pelo humor premeditada nas pinturas…

[interrompe] A ironia que existe é a de encontrar determinadas formas que se relacionam com outras de uma maneira que não seria visível. 

Mas o que ia perguntar era se o pintor, o artista plástico Manuel Vieira é a mais séria das tuas personagens.

É aquela em que é mais difícil eu pensar, porque o Manuel Vieira sou eu mesmo. Quando pinto, não estou a pintar para uma audiência, estou a tentar descobrir coisas por mim próprio e estou mais ou menos no silêncio. É uma relação diferente da que tenho com a música ou com uma manifestação como a do Orgasmo Carlos, que tem qualquer coisa de palhaço e de irónico acerca de si próprio. 

Montagem de "A ilha púrpura", MAAT
Rita ChantreMontagem de "A ilha púrpura", MAAT

Como é a tua rotina de trabalho? Ainda pintas nos Coruchéus?

Estou a pintar nos Coruchéus, sim, e ainda bem porque tem uma luz muito boa. Tento trabalhar mais ou menos como se fosse operário. Mas agora estou a tentar fazer uma coisa de cada vez, quando antes fazia tudo ao mesmo tempo. Por exemplo, tenho um disco para gravar, dos Ena Pá 2000, que já está mais de metade gravado e agora tenho de fazer as guitarras, as vozes e as teclas. Em vez de fazer tudo ao mesmo tempo, pensei em dedicar-me a isto [a exposição no MAAT], depois a Famalicão e depois ao disco. 

Então não há um prazo para o disco.

Para o disco não, mas para estas coisas há.

Como artista plástico, tens andado sobretudo pelo circuito das galerias, espaços mais pequenos, muito menos abertos que o MAAT. É diferente pensar nesta escala?

Agora que estou a sentir melhor o espaço, penso que é uma pena não ter trazido para aqui umas peças de chão que eu tenho, como uma mesa chamada “O atelier de Lenine”. Tem 4,5 metros, várias gavetas de onde saem “Lenines" e um comboio no meio. Não ficava nada mal, mas já estamos um bocado em cima do prazo… Ah! [interrompe o discurso] Esqueci-me de uma peça, que é um Pato Donald! Tenho de ir buscar a Marvila.

Manuel João Vieira
Rita ChantreManuel João Vieira

Vais pôr o Pato Donald ao pé daquele Salazar com corpo de cão?

Não sei se o Salazar vai ficar, talvez não tenha muito a ver com as outras peças.

Como é que apetece fazer um Salazar?

O original é um busto em gesso, de uma altura em que fiz umas figuras e andava a experimentar, e depois o corpo é um cão de loiça. Há um outro com manchas, que vendi, e depois resolvi fazer este à Benfica. É um Salazar vermelho, que é um bocado incompatível. 

Auto-retrato
Rita ChantreAuto-retrato

Vamos então a outro cenário improvável. Se tivesses sido eleito presidente da República, quem gostarias que pintasse o teu retrato oficial?

[risos] Boa pergunta. 

Tens ali um auto-retrato, talvez pudesses ir por aí.

Pois, como fazer um novo hino nacional e essas coisas. Mas não sei… Acho que tinha de ser uma coisa completamente surrealista. 

Talvez um surrealista morto?

Um (Giorgio de) Chirico, por exemplo. 

A exposição começa com o auto-retrato. Eles foram uma constante no teu percurso?

Aquele é de agora, a partir de uma fotografia minha que tem mais de cinco anos. É uma fotografia em que tenho pena de mim próprio ao olhar para ela, com os olhos muito grandes e não sei o quê. É de uma altura em que eu não estava muito bem da cabeça. Não costumo fazer auto-retratos, fazia um bocado quando andava nas Belas-Artes e mesmo mais novo, quando fazia bandas desenhadas, baseei-me em mim próprio para fazer um personagem. Mas o que me interessa ali é ser uma referência ao original e o facto de não estar bem da cabeça. 

Querias registar esse momento. 

Sim, esse momento pode ter a ver com as coisas feitas na altura.

Montagem de "A ilha púrpura", MAAT
Rita ChantreMontagem de "A ilha púrpura", MAAT

Há uma fase marcante do teu percurso, a da fundação do Movimento Homeostético. Eras um miúdo, mas parece não ter sido um acto de irreverência da juventude, porque manténs-te fiel a muitos princípios.

A irreverência da juventude aconteceu e aconteceu nas nossas manifestações, nos nossos manifestos, também numa certa forma de lidar com as pessoas que faziam parte do mundo da arte. Eu fiz bastantes disparates. 

Nós sabemos.

De facto, as coisas evoluem naturalmente. 

Mas continuas a votar na ideia do “labrego em Nova Iorque”?

Sim, acho que sim. Acho que a ideia de haver uma arte que seja portuguesa e de isso fazer algum sentido é um bocado esquisita e anacrónica. Em Portugal, temos um conjunto de poetas sensacionais e muito acima da média e isso acaba por ter a ver com alguma lusitanidade. E acho que na pintura também pode acontecer a mesma coisa. Mas, depois, no que é que consiste ser português? Não sei. Acho que a maneira mais simples de lá ir é ser completamente sincero, não ter artifícios nem tentar arranjar uma explicação racional e pedagógica. É como o solo de guitarra, como eu estava a dizer, que está sempre mais ou menos preso às harmonias. Aqui as harmonias são interiores, é a composição. 

Quão vivo está o Movimento Homeostético?

A última vez que fizemos uma coisa juntos foi na Galeria Valbom, em 2020 ou 2021. Também fizemos um filme, o Arthomem [2021], que é a história de uns artistas que invadem um centro de arte moderna para fazer reféns e estão sempre a dizer: “Isto não é uma performance, isto é a sério.” É uma história paralela com a de quatro assassinos violadores campestres que vão atrás de umas raparigas num burro. Ao mesmo tempo, há um colóquio do Dr. José Gabriel Pereira Bastos e algumas dissertações sobre arte, do Fernando Brito. O filme é engraçado. Um bocado lento, à portuguesa, o som não se percebe, à portuguesa, mas foi divertido de fazer. 

Ainda têm vontade de fazer coisas juntos?

Continuamos a encontrar-nos, muitas vezes no campo. O Portugal tem uma quintazinha e a gente vai lá de vez em quando.

E ainda andam nus pelo campo?

Nus nem por isso. Mas é verdade, fizemos alguns filmezinhos no campo com personagens nus, em Super 8. 

Manuel João Vieira
Rita ChantreManuel João Vieira

Esta será uma das tuas maiores exposições, são perto de 50 obras, de diferentes décadas. Pode dizer-se que é uma espécie de síntese do teu trabalho?

Acho que sim, que se pode pensar nisso. Se calhar devia ter mais coisas dos anos 80. Houve, por exemplo, uma exposição em Serralves ["6=0", em 2004] com muitas coisas dos anos 80… Agora nem sei onde estão algumas.

Essa exposição teve direito a uma grande festa de inauguração, com concerto dos Ena Pá 2000, que acabou às tantas. Vai haver festa aqui também?

Não sei, vamos ter de conversar.

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