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O paraíso, bem longe do rock. A música de dança e as raves dos 90s chegam ao cinema

‘Paraíso’, documentário realizado por Daniel Mota sobre a história da música de dança e da cultura rave em Portugal, estreia esta quinta-feira. É para matar saudades e fustigar.

Rute Barbedo
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Rute Barbedo
Jornalista
'Paraíso'
DR | 'Paraíso'
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"Uma desgraça", "um suicídio", "um paraíso". Tudo se ouve para falar da emergência da música de dança, electrónica, em Portugal, dos clubes às raves. Na era em que dominavam a pop e o rock, os Spectrum (década de 1980) vieram agitar a possibilidade de produção doméstica e um nicho de músicos viu uma brecha, de inspiração britânica, pronta a abrir em casas como o Alcântara-Mar, o Kremlin (Lisboa) ou o Vaticano (Barcelos), a partir das quatro da manhã. Quando a coisa pegou, saíram das salas e fizeram festas em castelos, conventos, barracões, no Rivoli. Uma explosão.

É mais ou menos isso que contam, com pormenores, os 38 entrevistados (de DJ a bailarinos) do documentário realizado por Daniel Mota, Paraíso, que estreia esta quinta-feira, 9 de Outubro. Nele, figuras centrais como DJ Vibe, Miss Sheila ou Carlos Manaça – bem como fotografias e vídeos inéditos que ganhavam mofo em sótãos e armários de vários pontos do país –, contam que libertação era aquela, na forma de dançar e de estar.

"É um filme que até pode ser visto de pé", conta Daniel Mota à Time Out, partilhando que muitos dos que já o viram (passou no IndieLisboa, numa versão mais curta, e na discoteca Lux, numa espécie de noite de homenagem à rave) confessam sair dos 82 minutos de imagem com batida por trás com vontade de "ir para uma festa". 

'Paraíso'
DR'Paraíso'

"A construção musical foi muito pensada. São sobretudo remixes das músicas que na altura estavam fortes, tendo em conta que há alguém a falar por cima [durante as entrevistas]", explica o realizador. Por outro lado, os testemunhos aparecem quase sempre em formato de conversa a dois, "um pouco naquela ideia do back to back, para sacar deles uma coisa mais dialogada e menos textual". Começaram, Daniel Mota com João Ervedosa e Maria Guedes (ambos da produção), mas também Marco Rodrigues (Photonz) e Inês Coutinho (DJ Violet, Rádio Quântica, ex-Planeta Manas), como assistentes de produção, em 2015, a entrevistar Rui Vargas e Di Stefano. Depois foi desenrolar o resto do novelo, sem dinheiros, "muito DIY, o que acabou por condizer com o espírito das raves", analisa o realizador, que nunca pisou uma rave nem é assíduo na noite, mas foi lá parar quando, depois de terminar o curso de cinema, andou a fazer vídeos promocionais de discotecas como o Sardinha Biba (Braga) ou o Havana Club (Freamunde). Depois, conheceu João Ervedosa, DJ e produtor de música, que desenvolvia um rol de entrevistas a malta do underground electrónico na Rádio Quântica, com Maria Guedes. Eram pessoas com "histórias do caraças", que era preciso registar. Assim começou a viagem.

Electrónica made in Portugal

O fenómeno das festas de dança, nos anos 90, pode ter passado despercebido a muitos, mas não vivia tão oculto assim. No arranque do documentário, José Rodrigues dos Santos dava até o recado: "A vida nocturna dos portugueses está a ser agitada por uma novidade: são as raving parties", "festas semi-secretas, muitas vezes ilegais, porque se prolongam depois das quatro da manhã". A RTP seguia em reportagem e os ravers tentavam enquadrar o fenómeno. Para o realizador, hoje, a emergência da cultura de dança em Portugal é tão-só uma "história impressionante" que merecia ser contada. "Muitas vezes menosprezamos as nossas formas de cultura e, na altura, isto chegou a picos altos da fama." Um dos mais altos, conta o filme, foi quando DJ Vibe e Rui da Silva (na altura, no projecto Underground Sound of Lisbon) foram parar a Nova Iorque com um hit que tirava pó do chão em todo o lado: "So Get Up" (1993). 

"Paraíso" começou a ser feito em 2013 e é um processo teoricamente inacabado, assume o realizador. Depois de ter passado este ano no IndieLisboa, apareceram-lhe novas imagens, algumas do mítico Rocks, de Vila Nova de Gaia, que, para muitos não podia faltar para contar a história. O filme que chega esta quinta-feira, dia 9 de Outubro, às salas de cinema, tem mais oito minutos de festa. E assim "pode continuar", assume Daniel Mota. 

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