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O turismo de raízes está a gerar um “boom” de viagens em África – eis por que os viajantes negros estão a aderir à tendência

Graças a várias iniciativas legislativas, uma nova geração está a dar prioridade às suas raízes no que toca aos locais para onde viaja, vive e trabalha.

Vivienne Dovi
Escrito por
Vivienne Dovi
Travel writer
Historic city on the Goree island near Dakar, Senegal, Africa. Goree Island is a UNESCO World Heritage Site known for its historical significance as a center of the transatlantic slave trade.
Goree island near Dakar, Senegal, Africa | Photograph: Nick Fox / Shutterstock
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Há seis anos, o meu pai tomou uma das melhores decisões possíveis para a minha vida: certificou-se de que eu obtinha o meu passaporte togolês.

Nascida e criada em Londres, mas com raízes nigerianas, ganesas e togolesas, sempre tive interesse pelas culturas e identidades africanas. O meu pai disse-me que, dada a minha paixão por viagens, ter o passaporte tratado tornaria as minhas deslocações e qualquer potencial trabalho em África mais fáceis. Tinha razão. Mas aconteceu algo inesperado: embora já tivesse visitado o Togo antes, receber o meu passaporte togolês fez-me sentir mais togolesa do que nunca. Foi como se o documento oficial validasse algo que eu já sentia. O Togo pareceu-me mais como a minha casa.

Não estou sozinha – a superestrela Ciara expressou um sentimento de “reconexão” quando lhe foi concedida a cidadania do Benim, um pequeno país na África Ocidental, em Julho do ano passado, ao abrigo da nova lei My Afro Origins, que oferece nacionalidade aos descendentes de pessoas escravizadas. O anúncio incendiou as redes sociais e ajudou a destacar a visão mais ampla do governo beninense para construir laços com a diáspora africana e impulsionar o turismo cultural.

A woman sits and looks at a waterfall in Togo
Vivienne no Togo | Vivienne Dovi

Existem iniciativas semelhantes de países como o Gana, a Guiné-Bissau e o Gabão, que ofereceram cidadania honorária a pessoas com linhagem directa ou que são descendentes de pessoas escravizadas.

Para muitos de nós com laços directos, as memórias de viajar para África estavam principalmente ligadas a visitas a familiares. Mas viajar de volta para explorar a pátria de cada um – conhecido como turismo de raízes – tornou-se mais popular do que nunca para a diáspora africana. As gerações mais jovens estão agora a visitar o continente para fazer o que fariam em qualquer outro país: experimentar restaurantes, conhecer a vida social e a vida nocturna e ter algum merecido descanso.

Os dados de viagens comprovam a tendência. O Skyscanner reportou um aumento homólogo de 15% nas pesquisas de voos económicos do Reino Unido para Acra em Julho de 2025 (para viagens até ao final do ano); um aumento sem dúvida impulsionado pelas recém-lançadas rotas de voo para a capital ganesa. Em Janeiro, a Condé Nast Traveller nomeou as “viagens de ancestralidade” como uma das maiores tendências de viagem do ano, destacando as “cerimónias profundamente emocionais e regressos a casa” organizados pelas Family Reunions da African Ancestry.

A woman stands by a tower in Togo
Vivienne no Togo | Vivienne Dovi

Nos meus círculos, as conversas mudaram agora de “Já visitaste África?” para “Quando é que voltas de vez?”. Graças a um clima político cada vez mais hostil no Ocidente, com a ascensão de movimentos de extrema-direita e a discriminação racial, há um desejo colectivo de estar num lugar onde não nos sintamos como a minoria. Agora, a viver no Senegal, ter um passaporte africano tornou-se no meu derradeiro selo de aprovação.

O mesmo é válido para Sandy Abena, fundadora da Abenafrica, que aguarda o resultado do seu pedido de passaporte beninense. Nascida e criada em Paris, originária de Guadalupe mas a viver na Costa do Marfim, Abena afirma que a nova lei está a permitir à diáspora africana “reivindicar o que já nos pertence”.

“Devido à escravatura, as pessoas foram levadas de África à força. Eu posso voltar a África, mas oficialmente continuo a ser francesa. Terei sempre orgulho em ser caribenha, mas não estamos apenas a pedir cidadania; o passaporte mostra oficialmente que estamos finalmente de volta a casa.”

O processo de candidatura do Benim é um dos programas de cidadania mais acessíveis, na medida em que não é exigido aos candidatos que vivam no Benim para se candidatarem. As candidaturas podem ser feitas online e custam 100 dólares. Quando a cidadania de Ciara foi anunciada, o site do governo foi abaixo devido à enorme afluência de pedidos.

“Eles estão basicamente a dizer: não têm de fazer muito. Já são africanos. Se querem fazer a ponte cultural entre as vossas raízes e compreender quem são, a melhor maneira de o fazer é no Benim”, afirma Abena.

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Cascatas de Tanongou à entrada do parque Pendjari no norte do Benim | Fotografia: Anne-Lise Dussel/Shutterstock

Sofia Askel, nascida e criada em Londres, viajou para o Senegal e para a Gâmbia no início deste ano para descobrir a história de como o seu avô chegou a Inglaterra. Askel esperava conhecer alguns familiares durante a sua primeira visita, o que acabou por se revelar a experiência mais transformadora da sua vida.

“Serendipidade é a palavra que melhor descreve a minha experiência, cada conversa, interacção e momento levou a uma descoberta maior. Aconteceu que a avó do meu anfitrião do Airbnb conhecia o meu avô lá em Inglaterra. O pai dela recorreu à sua rede de contactos e imensas pessoas entraram em contacto com informações. Fui recebida em casa e disseram-me: ‘Não estás perdida’.”

Agora ela tem planos para regressar e passar mais tempo em ambos os países, descrevendo o sentimento que muitos têm quando vão ao continente pela primeira vez: “Foi quase como se o meu corpo soubesse que eu estava a tocar na terra dos meus antepassados.”

Street on Gorée island, Senegal, Africa
Ilha de Gorée, Senegal | Fotografia: Wynian/Shutterstock

O sentimento de desconexão é bastante comum. Kiera Payne, nascida em Seattle, Washington, obteve a cidadania da Serra Leoa através da Temne Abara Nation (TAN), uma sociedade de preservação de património e cultura, juntamente com vários outros afro-americanos. Agora, planeia mudar-se oficialmente para lá.

“Depois de fazer um teste de ancestralidade aos 24 anos, fiquei obcecada em aprender mais sobre uma cultura, história e modo de vida de que nada sabia. Eu sabia antes de partir para a Serra Leoa que era exactamente disto que a minha alma precisava.”

Após reuniões de imersão cultural e uma cerimónia de atribuição de nome, juntamente com a entrega do seu passaporte, Payne afirma: “Já não sou a mesma pessoa que era antes. Temos uma família à nossa espera algures e ainda não o sabemos”.

Para uma nova geração de viajantes, dar prioridade às suas raízes está agora no centro do turismo e da migração – e a tendência continuará a crescer de forma óptima este ano. Há algo de poderoso em caminhar por uma cidade onde todos se parecem connosco, mas estas conversas só podem começar a fermentar assim que definirmos o que é o lar dentro de nós mesmos. É formidável que os governos estejam a acompanhar e a receber-nos de volta a casa – e nós estamos certamente a responder à chamada.

Países que recebem a diáspora de volta a casa

Gana
O pioneiro no regresso da diáspora. A cidadania está disponível através de ascendência ganesa (pai ou avô) ou através do programa Right of Abode (Direito de Residência). A naturalização exige cinco anos de residência. Nota da redacção: o governo ganês suspendeu temporariamente as candidaturas em Fevereiro.

Benim
Os candidatos podem efectuar a sua candidatura online através da plataforma My Afro Origins por 100 dólares (cerca de 87 euros). Aberto a maiores de 18 anos, com ascendência africana subsaariana e provas de ligações ao tráfico de escravos. Não é exigida residência – apenas documentação ancestral.

Serra Leoa
A cidadania está disponível para aqueles que têm laços ancestrais verificados. O Right of Abode Act (Lei do Direito de Residência) de 2000 concede aos membros da diáspora direitos irrestritos de viagem e trabalho. Organizações como a Temne Abara Nation podem ajudar a facilitar o processo.

Guiné-Bissau
A cidadania por descendência é concedida se um dos progenitores for cidadão. A Decade of Return Initiative (Iniciativa da Década do Retorno), lançada em 2021, também concede cidadania a descendentes verificados através de testes de ADN da African Ancestry. Os primeiros passaportes foram entregues em Janeiro de 2025.

Já agora, viu que quatro cidades africanas foram nomeadas entre as melhores do mundo pela Time Out?

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