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“Obra coxa” ou primeiro passo para grande mudança? Em Janeiro Mercado de Benfica entra em obras

Não é a grande renovação anunciada, que incluiria novos espaços de restauração no mercado tradicional mais vivo da cidade. Intervenção visa mexer no básico para melhorar salubridade.

Rute Barbedo
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Rute Barbedo
Jornalista
Mercado de Benfica
Rita Chantre | Mercado de Benfica
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A intervenção prevista para este mês de Janeiro, sem que o mercado feche e envolvendo pavimentos, bancadas e câmaras frigoríficas, é um primeiro passo na requalificação do Mercado de Benfica, o mercado tradicional mais dinâmico de Lisboa. A mais recente foi a substituição da cobertura, em 2012, que trouxe mais conforto térmico. Fora isso, na estrutura inaugurada em 1971, "há muito a fazer", diagnosticam José da Silva Santos e a filha, Patrícia Alexandra, que lideram a Casa Santos, uma das primeiras inquilinas do mercado, apontando o dedo aos problemas na canalização e esgotos, pintura, limpeza e sanitários, "que são uma vergonha, têm zero condições, sobretudo para os mais velhos". Perante várias promessas de melhoria, José Santos constata que "a única mudança no Mercado de Benfica nos últimos anos é que tem vindo a degradar-se", por isso, sobre as obras que deverão arrancar este mês acumula desconfiança. "Há mais de 10 anos que falam nisso e até agora nada", constata o comerciante, que vende queijos das Beiras, mel ou frutos secos. 

As dúvidas multiplicam-se pelos comerciantes. Desde queixas sobre não terem sido informados de forma oficial até às sucessivas promessas que viram por cumprir, o que os fará acreditar que é desta que o mercado muda? Por outro lado, há "questões que são do dia-a-dia" e não dependentes de obra, indica ainda José Santos, comerciante em Benfica há mais de 50 anos.

José Santos
Rita ChantreJosé Santos

"Desde que a responsabilidade do mercado passou para a Junta de Freguesia [até 2014, era da Câmara de Lisboa], vemos mais funcionários, mas menos trabalho feito. As casas de banho e a zona do cais de cargas e descargas cheiram sempre mal... E antes, por exemplo, era a Câmara que despejava os caixotes do lixo e agora temos de ser nós", critica. "Até à segunda, quando o mercado está fechado, vimos para aqui limpar", acrescenta a filha, que gere mais de três metros de banca em família. 

Mercado de Benfica
Rita ChantreMercado de Benfica

As obras agendadas para Janeiro incluem a modernização dos pavimentos, novos revestimentos, câmaras de frio e ventilação, num investimento total a rondar os 3,1 milhões de euros, tal como anunciou o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, num vídeo divulgado nas redes sociais. "O Mercado de Benfica vai ganhar nova vida", sublinhou o autarca em Novembro, adiantando que o funcionamento da estrutura não seria interrompido durante a intervenção. Mas para o presidente da Junta de Freguesia de Benfica, Ricardo Marques, não há vida nova em causa. A intervenção é "importante", mas trata-se de "uma obra coxa", critica, em declarações à Time Out. "Não tem nada a ver com a obra de 20 milhões planeada há quatro anos. Temos receio de que seja uma intervenção para empurrar com a barriga a obra com que todos sonhamos. Este já é um terceiro projecto para o mercado, uma solução de consenso, sendo que o primeiro previa um segundo piso com espaços comerciais e um estacionamento em profundidade", declara Ricardo Marques. "Esta intervenção de agora é uma obra paliativa, não é o que se precisa", insiste.

Projecto de 2021
DRProjecto de 2021

Nem todos, porém, sonham com o mesmo futuro para o Mercado de Benfica. Unânime é a vontade de mais lugares de estacionamento entre os comerciantes abordados pela Time Out numa quarta-feira de Dezembro, mas também está latente o receio de que se altere a identidade do mercado tradicional com mais mudanças, coisa que Ricardo Marques garante querer ver preservada. "A ideia é ter aqui um mercado tradicional. Não há nenhuma vontade em transformar o Mercado de Benfica num mercado Time Out. Mas quer-se criar algo mais aberto para a rua, mais envidraçado, e fazer com que o espaço possa ser vivido para além das horas de funcionamento normal do mercado, com os cafés e restaurantes."

Para os comerciantes, muitos deles aqui há décadas, o sonho envolve antes "câmaras frigoríficas novas e casas de banho em condições", como afirma Rosa Maria, há 22 anos a vender fruta no espaço. "Mas há mais de oito anos que se fala em obras e nunca aconteceu nada. E se agora vão começar obras em Janeiro, a nós não nos disseram nada", reclama. Já sobre alterar o piso ou melhorar a ventilação, a comerciante lembra que "está pior o piso da rua". "Lá fora é que é preciso fazer obras", defende. Na sua resistência à mudança está o receio de que mexam na identidade do Mercado de Benfica. "Depois disto o que vem? Modernices? Isso não é preciso", diz.

Rosa Maria
Rita ChantreRosa Maria

Também Patrícia Alexandra, da Casa Santos, partilha hesitações e receios sobre eventuais obras no Mercado de Benfica. Acerca da intervenção agendada para este mês de Janeiro, tem "muitas dúvidas" de que irão realmente acontecer, visto que o tema é falado há vários anos e nunca passou para a prática. Avançando, por outro lado, receia que seja um primeiro passo para algo maior. "Se abrirem aqui restaurantes novos, vão prejudicar os que já cá estão. Por outro lado, as pessoas vão passar a vir para cá passear em vez de virem às compras", teme. "O que deviam resolver era o problema da falta de estacionamento ao pé do mercado. Esse é o nosso grande problema", atesta a comerciante. 

Um mercado que pulsa

Para descrever o Mercado de Benfica, o presidente da junta de freguesia não joga por baixo. "É o mercado tradicional com o maior número de clientes do país." A veracidade do posto não é fácil de confirmar, mas, a qualquer dia semana, são várias as bancas com fila e, no exterior, a feira de vestuário e outras utilidades não fica atrás no movimento. "Em termos de qualidade-preço é difícil fazer frente ao nosso mercado. As pessoas da freguesia, mas também de outros lados, como da Amadora, vêm cá de propósito porque sabem que numa grande superfície nem vão ter estes produtos nem esta diversidade e estes preços. Nós fazemos força para ter tudo em ordem e depois sabemos do que estamos a falar. Quando um cliente pergunta alguma coisa, sabemos tudo. Isso faz a diferença", acredita Patrícia Alexandra, da Casa Santos.

Patrícia Alexandra
Rita ChantrePatrícia Alexandra

Paulo Pinto, que trabalha num dos talhos do mercado, contribui para a mesma lógica. "Temos chispe salgado, carne de cabra, coisas que não existem nos supermercados, e isso atrai muitas pessoas, desde os mais velhos às comunidades africanas", descreve. Mais importante ainda, para Ana Dias, das frutas Maradona, é o trato. "O que mantém isto vivo desta maneira são os comerciantes. Não é mais nada. Os meus pais já vendiam no mercado antigo, ao pé da Mata de Benfica. Depois vieram para aqui e eu estou cá desde os 17 anos, com três pontos de venda, e conheço toda a gente. Sabemos da vida das pessoas", detalha a comerciante de 42 anos. "Hoje o mundo está em massa, tudo à base do modelo do centro comercial, em que ninguém conhece nem cuida de ninguém. Mas há quem queira outro tratamento, outra coisa. E quem prefere isso vem aqui", diz.

À dta., Paulo Pinto
Rita ChantreÀ dta., Paulo Pinto

Nisso, as obras de Janeiro não vão mexer. Melhorando-se o pavimento, o armazenamento a frio e as condições das casas de banho, "fica tudo bem", defende Ana Dias, "que recorda as várias reuniões que teve com a Junta de Freguesia e com a Câmara Municipal de Lisboa", ao longo dos anos, em que viu estes pedidos "essenciais" sendo adiados. Quanto ao resto, prefere evitar revoluções. "Temos medo de perder o espírito deste mercado, que sempre foi um espaço direccionado para a venda directa ao freguês. Um mercado para turistas, aqui, não faz sentido. Agora, se as obras não mexerem nisso, se não alterarem esse espírito, por nós, tudo bem."

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