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Projecto de Tiago Pereira e da Junta de Benfica visa gravar músicos da freguesia, formar coros com a comunidade e registar o nosso tempo. Arrancou este mês e tem a duração de quatro anos.

Abel Zambujo esteve para vender o Mini. Tinha mudado de vida há pouco tempo, largado um emprego estável para se dedicar à música que aprendeu como autodidacta, e queria comprar um saxofone. "Felizmente, deixou de ser preciso", conta à Time Out no coração de Benfica, o bairro onde vive. O músico, que tinha trabalhado em publicidade até aos 36, conseguiu dar a volta e o carro ficou no mesmo sítio. Entretanto deu concertos em bares, fez backs no computador, tocou em casamentos. Depois começou a desligar-se das bandas e foi para Belém, tocar sozinho junto ao rio. "Tocar na rua é diferente. Só que escolhemos sempre outros sítios, longe da nossa morada, para tocar." As escolhas seguintes, no entanto, acabaram por contradizê-lo: desde a pandemia que, além dos concertos em espaços privados, toca junto ao Palácio Baldaya, perto do Centro Comercial Fonte Nova e dos restaurantes David e Tradicional, clássicos de Benfica. Hoje, 19 de Novembro, toca também para uma câmara de filmar, em plena avenida, entre a pastelaria e a marisqueira. É o familiar "Pink Panther's Theme", de Mancini, ali, junto ao quiosque. E os vizinhos trauteiam-no à passagem.
"Em Benfica está tudo o que nos interessa", explica Tiago Pereira, mentor do projecto A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria (MPAGDP), que há quase 15 anos documenta a música e a tradição oral do Gerês aos Açores e que hoje arranca com quatro anos de gravações e criações na freguesia. O trabalho é um dever de memória e de gratidão para com quem canta e toca nos passeios, em casa, nos cafés, tascas e clubes recreativos. "Temos aqui muitas pessoas nascidas nos anos 40 e 50, que têm agora 80 e tal anos", e é preciso filmá-las, guardar tudo, para que a memória colectiva não se perca. "Em 2014, com a Mouraria a Gostar Dela Própria, gravámos uma Lisboa que entretanto já não existe. As coisas mudam rápido", chama a atenção o realizador.
"Depois, Benfica é o paraíso da diáspora, nos dois sentidos": os portugueses que voltaram e os imigrantes (e filhos) do Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, Ucrânia. Acrescentam-se ainda os êxodos internos que trouxeram para cá gente do Alentejo, Minho, Beiras. Um caldo que interessa misturar ainda mais, para ver o que dali sai.
O que interessa à MPAGDP é registar, sim, mas que esse registo faça acontecer. É por isso que o trabalho começado em Novembro, com o mapeamento dos músicos que moram no bairro e a gravação das suas histórias e canções (fase que vai durar até ao final do ano), terá mais tarde efeitos práticos. "Vamos gravar as músicas, as histórias de vida, tudo. E vamos falar desta língua portuguesa que é cantada por todos eles." Com um novo cancioneiro que aqui se vai formar, "de várias influências", desde o padre da freguesia a músicos das ex-colónias, serão criados três coros: o infantil (com Sara Mercier, do Coro dos Anjos); o comunitário, de cariz intercultural e intergeracional (com Joana Alves Pereira, do Coro de Gigantes e que foi candidata à presidência da Junta do Areeiro, nas eleições deste ano); e o dos Funcionários, formado pelos trabalhadores da Junta de Freguesia (o responsável pela parte musical está por definir).
Estruturados os coros, virão as composições, as actuações, as letras "sobre questões humanistas, o universo, o que eles quiserem". Em paralelo, a equipa da MPAGDP vai continuar a filmar, sempre, porque o projecto, embora tenha a duração formal de quatro anos, "em teoria, nunca se esgota", sublinha o criador.
De mulheres na Galiza a fazer música com enxadas aos Cantadores de Paris, passando pelas Chamarritas de São Jorge, nos Açores – sem esquecer Serpins, onde o projecto inaugurou o seu espaço físico, o Cura, em 2023 –, habituámo-nos a ver a MPGDP, desde 2011, nas pedras, com fundos de feno, grandes céus. "Gravei música, poesia, gastronomia, histórias de vida ou artesanato em 228 municípios. Faltam-me 80 e vou gravar em todos", dizia em Outubro Tiago Pereira, nas redes sociais. O meio rural ocupa mais terreno. Porquê vir para uma cidade agora, especialmente entre diagnósticos de turistificação e perda de identidade? "Neste momento, Lisboa tem tudo em termos musicais. O adufe já quase não é tocado na Beira, toca-se aqui, em Lisboa, onde estão a crescer movimentos que já não são apenas trad ou folk mas uma mistura com coisas novas", responde Tiago.
Nessa vaga, e pela necessidade de encontrar um "instrumento social e de politização", propagam-se os grupos corais no meio urbano, à volta de canções de intervenção. Cantam sobre o trabalho, a terra, o minério, os ciclos e as relações de poder. No caso de Benfica, com as gravações em curso e a formação dos três coros a partir de Janeiro, está-se "a construir uma biblioteca" sobre estes tempos e os que já passaram, e a "estimular a criação de uma comunidade". Por fim, existe ainda uma outra razão para apostar na cidade: numa altura em que muitos se focam em mecânicas entre a morte do comércio tradicional e a expansão dos tuk-tuks e lojas de souvenirs, "é preciso enaltecer Lisboa". "Tantas coisas boas e bonitas que esta cidade tem", reflecte o documentarista.
Luís Fialho aparece com a mala que a avó lhe deu (merchandising lá dentro), casaco apertado e cancioneiro alentejano no Jardim do Eucaliptal. Benfica também é um pedaço de Alentejo, no pão, no espírito de bairro, nos velhinhos sentados nos bancos e nas mesas demoradas de domingo. "Tenho 23 anos e sou de São Manços [Évora]. Em pequeno ia para as tabernas e ficava ali caladinho, a olhar e a ouvir o cante. Só depois, quando estava sozinho em casa, é que começava a cantar", relata o músico, no primeiro dia de gravações de "Benfica à Música Portuguesa Gostar Dela Própria".
No jardim, com as marquises em fundo como imagem de marca do bairro, interpreta uma moda e evoca um ritmo que não o dos autocarros que passam na avenida. Também ele veio de um coro, o dos Almocreves da Amieira. Agora actua a solo, não só no jardim como por esse país.
No Palácio Baldaya, um pouco antes, foi a aldeia de Tabatô, na Guiné Bissau, a entrar pelas câmaras. Enquanto os funcionários da Junta penduravam a iluminação de Natal e cantarolavam Xutos & Pontapés, Mamadu Baio tocou a guitarra como se tivesse uma khora nas mãos. "Vivo em Portugal há 15 anos", começou por contar, e foi em Benfica que co-fundou uma associação de apoio à criação e fruição cultural, o CACL – Clube das Artes e Culturas Lusófonas. É um trabalho de criar pontes, porque "as artes são uma ferramenta que podemos usar sem briga".
Na mesma ideia, outra língua, outro sotaque e outros trajes, assenta a música de Nuno Fernandes, pároco da Igreja de Nossa Senhora do Amparo e fundador de uma rádio local. "Eu não sou um cantor. Gosto de cantar, de partilhar a minha vida através da música", esclarece. O homem que estudou primeiro Comunicação e depois seguiu a via do sacerdócio senta-se na sacristia, santos em volta, Cristo crucificado atrás, para apresentar "Um sentido para a vida". A música é aqui um acto de comunidade, que já levou a salas como o Auditório Carlos Paredes, e que vai compondo nas pequenas solidões.
A partir de Janeiro, todos vão juntar-se, de uma maneira ou de outra. Virão também os músicos de etnia cigana do Bairro da Boavista, o hip hop, as mornas e o funaná, o fado de Lena Silva. "A partir destas músicas, destes registos, vamos fazer um novo cancioneiro de Benfica, tudo misturado", entusiasma-se Tiago Pereira, que tem esta missão de "usar a música para chegar a várias idades e comunidades, dos mais velhos aos excluídos". Pelo meio, vão acontecer oficinas com o público escolar, para ensinar a gravar e filmar pessoas. E vão aparecer, certamente, mais pessoas e letras imperdíveis, em caves, esquinas, em Benfica, no Beato, onde calhar. Também em Janeiro, a MPAGDP vai comemorar 15 anos e há-de lançar o seu próprio motor de busca, o Lastro, que servirá como "uma nova forma de explorar música, tradição oral, memória colectiva e património humano". Se eles não o fizerem por nós quem o fará?
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