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Voltas ao mundo, recordes de pessoas cegas ou viagens feitas por mulheres proibidas de andar de moto. Há dez anos que o Lisbon Motorcycle Film Fest mostra a beleza das duas rodas.

"Malucos é um exagero, mas sãos também não somos." A resposta é dada por Manuel Portugal, fotógrafo e um dos fundadores do Lisbon Motorcycle Film Fest (LMFF), um dos festivais de cinema de motos que há mais tempo dura no mundo, para enquadrar o momento em que quatro amigos decidiram criar um evento de nicho, em que quase todos os filmes são documentários de viagem, sobre duas rodas. Primeiro, perguntamo-nos: quão vasto é este universo cinematográfico para permitir fazer um festival anual sobre isso? A questão seguinte é também sobre o tamanho, mas em relação ao potencial público.
"Um dos desafios é estarmos há dez anos a passar filmes na Sala Manoel de Oliveira, do Cinema São Jorge, onde cabem [quase] mil pessoas. Nós conseguimos pôr lá 400, o que é muito bom quando estamos a falar de cinema e ainda por cima de cinema de motos, mas, mesmo assim, quando tiramos fotos cá de cima, a sala parece vazia", brinca o organizador. Só uma vez é que isso não aconteceu, na loucura do The Bikeriders, de Jeff Nichols, em 2024, que estreou no festival. Encheram a sala grande e ainda tiveram de fazer uma sessão extra numa das pequenas.
De resto, os filmes assumem a moto sobretudo como instrumento de liberdade e de superação, como "um sobre uma menina do Irão, que viaja de moto, sendo que às mulheres do país é proibido andar de moto", outro sobre um motociclista cego que bate um recorde num lago salgado americano ou outro ainda sobre médicos que transportam medicamentos em motos pelo meio de selvas africanas. "A má fama das motos começou muito no cinema, com as figuras dos mauzões, dos fora-da-lei, como no Easy Rider. Mas sempre houve uma luta para as motos serem bem vistas. Com o festival, tentamos trazer alguma luz sobre esta cultura", explica o organizador.
Mas vamos ao início. Manuel Portugal, Joaquim Horta, Rodrigo Monteiro e Hugo Vaz estavam à mesa de "um café bafiento de Alcântara" quando concordaram com veemência que ao cinema sobre ou de motos faltava um lugar digno de transmissão. A partir de 2014, começou a haver "muito conteúdo de qualidade, mas circulava no Youtube, nos telemóveis", diz o primeiro. Então, abordaram a EGEAC, "sem esperança nenhuma", porque o pessoal das motos está habituado a "levar para trás". Só que as portas do São Jorge abriram-se e a aventura começou. "Era apenas um projecto, uns apontamentos num caderno, muitas ideias, mas mais que tudo, uma missão: divulgar e dignificar a cultura das motos", lê-se no livro Ponto de Fuga (4SEE), com fotografias de Tiago Miranda a uma série de motociclistas portugueses e textos de Ricardo Marques, publicado em 2021 a propósito do LMFF. E por que passou a haver "muito de conteúdo de qualidade"? Porque "os artistas e as motos estavam a reaproximar-se, algo que já não acontecia há décadas" a nível global e que em Portugal era algo que se experimentava pela primeira vez.
O festival era, assim, mais uma peça na "aceitação do motociclista", depois de muitas outras, como o crescimento dos motoclubes ou o acesso à condução de motociclos de 125 cc por quem tirasse a carta de condução de veículos ligeiros. Com várias curtas-metragens, duas longas, conversas e encontros com realizadores, vai aplaudindo a moto e os seus amantes, que vão de famílias completas, gente urbana, agricultores ou senhoras de 90 anos. Este ano, o festival estreia também uma exposição de motos personalizadas no terraço do Capitólio (no sábado e domingo, das 14.00 às 21.00, com entrada livre), como amostra do prolífero campo português de construção deste segmento.
Não é coisa fácil de se fazer, o festival, ainda por cima há dez anos. Por um lado, é cinema de nicho, por outro, vive do voluntariado. "Fazemos reuniões às dez ou onze da noite, depois de deitar os filhos. Para não falar dos stresses legais e de todas as burocracias", enquadra Manuel Portugal.
O LMFF acontece entre esta sexta-feira e domingo, à volta do cinema e do encontro, com Yalla Habibi!, de Edwin El Bainou e Ryan Kluftinger, como filme de abertura. No sábado, acontece o habitual passeio nocturno por Lisboa, com início e fim no Cinema São Jorge, onde depois há festa: a NEXX x Garage Party. O programa completo pode ser consultado aqui.
Avenida da Liberdade, 175 (Avenida da Liberdade). 22–24 Mai, Sex–Dom. Filmes: 5€, Talks: 1€.
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