[category]
[title]
A fase mais precisa e "económica" do artista de 69 anos é condensada nesta exposição do MAC/CCB, local ao qual regressa 24 anos depois da primeira antologia.

É preciso que se mude uma linha, uma cor ou uma posição para que nada fique na mesma. O trabalho de José Pedro Croft, artista maior no panorama da arte contemporânea, é a negação da famosa máxima do romance O Leopardo, de Lampedusa – é preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma. Aqui nunca muda tudo. Permanecemos. É isso que mostra com uma das peças feitas expressamente para a exposição que inaugura esta quarta-feira, dia 29 de Abril, no MAC/CCB e que assinala mais de 40 anos de trabalho do artista natural do Porto: pegou no desenho de uma escultura em ferro, espelho e espaços vazios feita em 2019 (para ser exposta na Fundação Gulbenkian) e trocou a sua relação espacial, virando-a e trocando espelhos de lugar. Se as linhas-base são as mesmas, a relação do objecto connosco e com o espaço é outra: numa encontramos a altura, o céu e as aspirações, na outra, a sensação de abismo, a gravidade.
"José Pedro Croft. Reflexos, Enclaves, Desvios" acontece 24 anos depois da última grande exposição do artista no mesmo museu. "Essa exposição antológica permitiu-me fechar uma porta e abrir outra", introduz Croft. E é aí que estamos agora, num trabalho "muito mais focado, económico", a que chegou através de "uma capacidade de ser mais complexo sendo mais simples". Uma depuração crescida da experiência, aprimorada no acto de seleccionar e excluir, para ficar com o que importa.
Nas 170 obras divididas por cinco salas do piso 0, há esse gesto persistente de fazer a diferença na repetição (bebendo a filósofos como Gilles Deleuze ou Byung-Chul Han). Na busca de Croft é preciso, então, encontrar simetrias e afinidades, mas também desvios. Numa das salas da exposição, por exemplo, a escultura feita de duas mesas em ferro, uma em cima da outra, mostra como o desvio premeditado das estruturas é o factor de criação. Quando nos olhamos ao espelho, "a cabeça vai para um lado e o corpo para o outro", faz ver Croft. Na mesma sala, as grandes gravuras directamente fixadas nas paredes (algumas chegam a ter três metros, jogando com o amplo pé direito da maioria das salas) mostram como o processo com águas-tintas é "a única técnica que permite chegar a este veludo, a estes volumes e a estas variações quase infinitas de cor", algumas apenas perceptíveis se nos aproximarmos como de um outro corpo.
A exposição torna também transparente o jogo de José Pedro Croft com as formas, independentemente da técnica em uso. Se há variações ao nível da matéria ("o papel tem uma fragilidade e uma pobreza que me convêm muito, são uma coisa muito poderosa e muito forte", haveria de discorrer o artista durante a visita à imprensa desta terça-feira), a substância não sofre desvios. Logo na primeira sala, é através das muitas gravuras dispostas em linha que se mostra o jogo de Croft com as chapas, virando-as ao contrário para obter outros cenários. Quase como um trabalho de escultura que passa para o papel. Também os espelhos, que são marca assente das suas esculturas em base férrea, convocam simetrias, reflexos e confrontos, numa relação constante com o espaço e com o nosso corpo.
O curador, Luiz Camillo Osorio (que foi também responsável pela exposição de Croft no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, em 2025), fala num "trabalho exaustivo", de chapas pesadas, que implicam desgaste físico, tempo e uma equipa dedicada, circunstâncias que pesam na experiência de quem o vê, obrigando a "dar uma desacelerada", como diz. Esse trabalho de mão, de corpo, "faz com que o olhar tenha outro cuidado", defende o curador brasileiro. Imaginar Croft no atelier, oito horas por dia, durante meses, com a equipa, virando chapas, carregando espelhos mas também desenhando centenas de linhas de 0,35 milímetros de espessura a tinta-da-china, faz esticar o tempo. E isso "é um acto de resistência", nos dias do consumo e da velocidade, assume José Pedro Croft. É "pôr as coisas em equilíbrio com o pequeno gesto", na visão do artista. Se o pequeno gesto, assim, "põe tudo em ordem", basta um para "confirmar todos os outros", resume Croft.
Estes "Reflexos, Enclaves, Desvios" compõem, por isso, um "movimento muito vertiginoso e ao mesmo tempo muito lírico" ao longo de cinco salas, com peças de 2003 a 2026, em que "uma forma ensina a ver a outra", como descreve o curador. "Não é a perfeição o que procuro", remata Croft. É o essencial.
Praça do Império (Belém). 30 Abr-13 Set, Ter-Dom 10.00-18.30. 15€. Inauguração: 29 Abr, Qua 19.00, entrada livre
📲 Siga-nos nas redes sociais: Whatsapp, Instagram, Facebook e LinkedIn
Discover Time Out original video