Notícias

"Partia alguém ao meio para proteger a minha família": como Priyanka Chopra abraçou a vida pirata com ‘O Refúgio’

A estrela renascida fala da vida pirata, de matar com cocos e do seu regresso a Bollywood.

Shaurya Thapa
Escrito por
Shaurya Thapa
Film writer
Priyanka Chopra
'O Refúgio' na Amazon Prime Video | Priyanka Chopra chega à Amazon Prime com 'O Refúgio'
Publicidade

Priyanka Chopra navegou por vários mares ao longo de uma carreira que já dura há décadas, desde a vitória no concurso Miss Mundo, no ano 2000, à conquista de Bollywood e ao seu recente renascimento como estrela de cinema de acção em Hollywood. Ainda assim, a sua interpretação ensanguentada de uma ex-pirata implacável em O Refúgio pode bem ser a mais pessoal de todas: a de uma mãe disposta a matar para proteger a família.

Em conversa com a Time Out, Chopra recorda a leitura do argumento deste novo épico de piratas da Prime Video quando a filha ainda era bebé. O primeiro pensamento que lhe ocorreu depois dessa primeira leitura foi: "Até onde irias para proteger os teus filhos?", recorda.

E então, até onde iria?, pergunto-lhe. "Partia alguém ao meio para proteger a minha família", responde. "Sei que encontraria essa fúria dentro de mim para o fazer. E essa foi a minha bússola neste filme." Chega a mudar para hindi para reforçar a ideia: "Mai keher macha dungi" – "Vou semear o caos."

E semeia. Mesmo.

A espalhar dor

Inspirado numa época real (e de uma violência absurda) da história marítima e em alguns dos bucaneiros de água salgada que a marcaram – os bucaneiros eram piratas de origem europeia que faziam pilhagens nos mares das Caraíbas entre os séculos XVI e XVIII –, O Refúgio (The Bluff, no original) apresenta Chopra como uma saqueadora reformada chamada Ercell “Bloody Mary” Bodden. A personagem não ganhou esta alcunha por gostar de vodka com sumo de tomate: no sangrento filme de acção do argumentista e realizador Frank E Flowers, Chopra distribui pancada em modo claramente para maiores de 18.

A história acompanha o ameaçador e viscoso Capitão Connor, interpretado por Karl Urban (pensem em Billy Butcher, de The Boys, com cerca de quatro litros de rum em cima), que chega à sua pacata casa nas Ilhas Caimão com os seus amigalhaços do mar. Estamos no final do século XIX e estes piratas das Caraíbas tentam desesperadamente manter acesas as últimas brasas da chamada “Idade de Ouro da Pirataria”. Alguns, como Ercell, procuram uma nova vida. Mas, como manda a tradição dos bons filmes de acção de Hollywood, o passado violento acaba por os apanhar.

Nunca tinha trabalhado com lâminas, por isso tive de treinar em [diferentes] estilos de combate com espada.

Quando o seu filho pequeno é ameaçado, os instintos mais ferozes regressam – e em força. Vale a pena ficar de olho em Chopra a chacinar membros da tripulação de Connor numa gruta e a esmagar piratas com uma concha marinha. Não, isto não é os Piratas das Caraíbas

Priyanka Chopra
'O Refúgio' na Amazon Prime VideoPriyanka Chopra

Piratas em terra

Apesar das espadas e dos duelos, O Refúgio não é um típico filme de piratas. A maior parte da acção decorre em terra, numa ilha, e não a bordo de galeões em alto-mar. Frank E Flowers, natural das Ilhas Caimão, descreve-o como um “thriller de invasão doméstica” à imagem de Cães de Palha, de Sam Peckinpah.

O realizador compara a guerreira vingativa de Chopra ao pistoleiro envelhecido de Clint Eastwood em Imperdoável. "Ela é uma agricultora em campo aberto!", diz à Time Out. "Não se orgulha do seu passado complexo e sombrio. Quando o perigo surge, tudo o que quer é afastar-se, mas não a deixam. Por isso, tem de ser mais visceral."

As sequências de acção de O Refúgio não são novidade para Chopra. Já interpretou agentes armadas nas séries Quantico e Citadel e na comédia de acção Chefes de Estado (2024) era uma agente do MI6 que defendia o primeiro-ministro britânico de Idris Elba e o presidente norte-americano de John Cena de terroristas. Nenhum desses papéis exigiu, contudo, que usasse um ralador de coco como arma. "Há um plano único em que estou escondida, no escuro, e faço cinco ou seis mortes pelo caminho", conta. "Mato alguém com uma corda e enforco-o. Esfaqueio alguém no pescoço." São esses “pequenos detalhes” – palavras dela – que dão a Bloody Mary o seu nome.

O arsenal improvisado do filme inclui ainda facas antigas, espingardas e, basicamente, tudo o que estiver à mão. Mas, no essencial, O Refúgio segue a longa tradição dos filmes de piratas desde Errol Flynn: é tudo sobre espadas. "Nunca tinha trabalhado com lâminas, por isso tive de treinar diferentes estilos de esgrima", recorda Chopra.

Aproveitou pausas nas filmagens de Chefes de Estado para treinos intensivos de 20 minutos e contou com o coordenador de duplos de Piratas das Caraíbas, Rob Alonzo, e com a sua duplo Anisha Gibbs durante as seis jornadas semanais de rodagem ao longo de dois meses e meio na Austrália.

A acção cobrou o seu preço físico. "Banhos com magnésio, creme de arnica nas nódoas negras, antibióticos para cortes e pés em água quente" foram algumas das suas estratégias de recuperação. E também alguns abraços. "Precisava mesmo", ri-se, acrescentando que a filha esteve presente durante as filmagens, com o marido, o cantor e actor Nick Jonas, que viajou para lhe dar apoio moral.

Uma homenagem às Ilhas Caimão

Mantendo-se fiel às suas origens, Flowers escolheu Cayman Brac, a mais oriental das Ilhas Caimão, como cenário da história. É esta massa rochosa que dá nome ao filme: o afloramento calcário de 43 metros é conhecido como “The Bluff”.

A Gold Coast e outras zonas de Queensland servem de substitutas das Caraíbas no ecrã, mas o filme está impregnado do espírito e da história das Caimão. Até o ralador de coco de Ercell tem significado na culinária local.

A obsessão de Flowers por piratas vem da infância nas ilhas, onde a Pirates Week (Semana dos Piratas) é um festival nacional. "Não nos mascarávamos muito no Halloween", recorda, "mas fazíamo-lo na Pirates Week. Lembro-me de estar aos ombros do meu pai a ver os navios a entrar na cidade, com pirotecnia e duelos de espada."

Voltar a ver o imponente Bluff em adulto convenceu-o a situar ali o seu épico sangrento. A Ilha North Stradbroke, em Queensland, serviu de plano B, com a ajuda de um verdadeiro “parque temático” do próprio filme: cenários do século XIX com plantações de cana-de-açúcar, bancas de bananas, igrejas de madeira e docas.

"Ninguém tira Bollywood de dentro de mim"

Enquanto Flowers investigava cartas de antigos colonos das Caimão, Chopra mergulhou nas vidas de piratas como a britânica Mary Read e a irlandesa Grace O’Malley. Também visitou as ilhas antes da produção arrancar. O argumento, co-escrito por Flowers e Joe Ballarini, enquadra a personagem no contexto histórico dos trabalhadores e escravos contratados levados da Índia para as Caraíbas. "A história da minha personagem começa assim, com a família raptada por comerciantes da Companhia das Índias Orientais", explica Chopra. "Queria explorar essa sensação de desenraizamento e o que significa não ter raízes nem identidade."

Priyanka Chopra
'O Refúgio' na Amazon Prime VideoPriyanka Chopra

Pode ser involuntário, mas há qualquer coisa de distintamente indiano em O Refúgio, uma sombra de clássicos do cinema indiano como Sholay. Esse “western curry” de 1975, em hindi, e muitos filmes de acção que se lhe seguiram, incorporavam a fórmula clássica da pequena vila invadida por bandidos e de forasteiros improváveis que acabam por se tornar salvadores. Chopra não fez essa ligação directa durante as filmagens – "Queria ser fiel à minha personagem, cujas raízes indianas foram esquecidas porque foi raptada e perdeu os pais muito nova" – mas até amigos seus notaram ecos de Bollywood em algumas reacções e grandes planos de Bloody Mary. "Foi no cinema hindi que aprendi o meu ofício e tenho muito orgulho nisso", diz. "Ninguém tira Bollywood de dentro de mim."

O Refúgio é produzido pelos irmãos Russo, Joe e Anthony, e conta com a vencedora de um Óscar Zoe Saldaña, que chegou a ser apontada ao papel de Bloody Mary, como produtora. Estaria Chopra disponível para uma sequela ao lado da estrela de Avatar? "Seria um sonho", ri-se. "A Zoe é como uma irmã e um ícone do género."

Segue-se o regresso ao cinema indiano com Varanasi, o aguardado projecto de S. S. Rajamouli que sucede ao épico de acção RRR. Mas, para já, não revela muito. "Tenho a certeza de que levarei muitas coisas de O Refúgio para Varanasi e para tudo o que fizer a seguir", diz.

A questão é: será que vai envolver voltar a esmagar vilões com uma concha?

The Bluff estreia na Prime Video a 25 de Fevereiro de 2026

🎭 Mais cultura: arte, livros, música, teatro e dança em Lisboa

📲 Siga-nos nas redes sociais: Whatsapp, Instagram, Facebook e LinkedIn

Últimas notícias