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"Habitar a Contradição" é a nova exposição do CAM Gulbenkian. Através da escala, mas também de momentos de intimidade, o artista português junta obra própria e colecção, dentro e fora do museu.

Menos museu, mais casa. A fórmula de Carlos Bunga respira-se no CAM. Inaugurada na última sexta-feira, "Habitar a Contradição" é o fechar de um ciclo para o artista que aqui entrou pela primeira vez ainda na qualidade de estudante. Hoje, molda o espaço, fazendo dele um sítio mais próximo e menos institucional. "Para mim é importante chamar este espaço de casa. Porque, de alguma maneira, a palavra museu tem sempre uma carga muito forte, um peso institucional, tem uma carga história. Chamar este lugar casa e ter este mobiliário à entrada é para que as pessoas se sintam identificadas com uma casa que é para todos", começa por explicar o artista, ainda no átrio do Centro de Arte Moderna.
Para este espaço, Bunga trouxe de facto peças de mobiliário – objectos encontrados que cortou, pintou e aglomerou. Como explica Rui Mateus Amaral, director artístico do Museu de Arte Contemporânea de Toronto e curador da exposição, ao mesmo tempo que as silhuetas nos são familiares, trazem também estranheza e austeridade ao perderem a sua função primordial.
O artista quer que o visitante dance. Este interesse na coreografia do público que ciranda pela exposição leva-nos até à Nave do CAM, onde ergueu uma floresta de cartão, material indissociável da sua criação artística. Entre colunas e troncos de árvores, Carlos Bunga quer que nos embrenhemos neste labirinto, que lhe toquemos e que nos detenhamos – ora na contemplação, ora na introspecção. "É esta ideia de floresta urbana, também inspirada nas árvores que estão lá fora, que cria momentos de luz, de escuridão, que acalma, que inquieta, capaz de trazer clareza e conexão", começa por resumir o curador.
Para um espaço amplo e monumental, Carlos Bunga criou a sua maior e mais complexa instalação até à data, transformando-o numa floresta conceptual – "um espaço para refúgio, um espaço que naturalmente se transforma, um espaço onde podes esconder, onde podes guardar, e um espaço que tem esta monumentalidade, porque é uma peça que quer convidar o público a entrar", como refere o artista. Em jeito de sugestão, foram deixadas cadeiras no espaço para que os visitantes as movam e se sentem onde quiserem. Uma forma diferente de habitar o espaço expositivo e de conexão com a criação artística.
"É uma maneira de trabalhar que quer romper de maneira intencional com esses estereótipos de não tocar, com essa coisa das vitrinas. Esta peça quer ser a antítese de tudo isso. Quer ser uma obra que está dentro de um museu para ser tocada, para ser contornada, para que te envolva, que seja maior que tu. E, principalmente, quer que nos sintamos vivos. Eu costumo trabalhar com bailarinos e coreógrafos e, quando me perguntam com que bailarinos mais me identifiquei, eu sempre digo que são as pessoas. Porque, ao caminharmos nestas peças, dançamos sem ser conscientes. Estamos a ser um baile. Isso faz-nos sentir vivos e é muito importante numa época do digital, da internet. Experiências físicas, experiências em que te sintas vivo", contextualiza Carlos Bunga.
A par com a monumentalidade da instalação, também o lado mais íntimo desta exposição espreita na Nave do CAM. O Lugar Onde Cada Dia Abandonamos o Mundo é o primeiro desses momentos. Tingida de negro, a instalação feita em 2021 para o Secession, em Viena, refere-se "ao momento de maior vulnerabilidade do ser humano", o momento em que dormimos e "o corpo desaparece". "Aquela não é uma cama qualquer. Foi uma cama de infância. Onde é hoje o Museu da Resistência, no Forte de Peniche, houve um centro de refugiados. Eu fui um dos que viveu lá. As camas tinham precisamente esta cor, as camas dos presos. Mas há uma luz. Há uma luz acesa".
"Esta obra não fala só sobre mim. Na exposição, há momentos de muita intimidade, mas é um reflexo também de todos nós. A arte tem a grande potência de funcionar como um espelho. Não é só o que vemos, mas é o que ela projecta em nós. Uma casa, um quarto, a família, a infância estão cheios de segredos, de traumas, silêncios. Isso é muito importante nesta exposição – esses momentos de intimidade, que possam despertar esses pequenos traumas que todos temos. No meu caso, a arte serviu de terapia para poder estar aqui. Graças a ela, consegui crescer, consegui ter uma esperança e uma luz que me guiou de alguma maneira. E também penso na arte no mundo em que vivemos hoje – esquizofrénico, polarizado. A arte é um oásis para a esperança e para a empatia", afirma o artista.
Noutro nicho da galeria, lê-se Maternidade, momento que o artista dedicou à mãe, representada em três grandes formatos, ampliados a partir dos registos feitos por um fotógrafo da vida nocturna nos anos 80. Chegou a Portugal em 1975, com uma filha de dois anos e grávida, para fugir à guerra civil em Angola. Carlos nasceria já em Portugal. O trabalho é um dos mais íntimos do artista, que o quis expor na Gulbenkian, também por ser um regresso ao país onde nasceu e onde não vive há 20 anos. Por fim, a casa onde viveu grande parte da infância e que visitou pouco tempo antes da sua demolição, em 2002. Nesse dia, encontrou a porta aberta, janelas partidas e velhos brinquedos. Além das fotografias, expõe agora uma pequena réplica que construiu a partir de uma caixa de cereais.
A exposição prolonga-se no jardim. Junto às janelas da Nave, Carlos Bunga colocou algumas esculturas da série Nómadas – figuras humanas, com corpos de criança, com casas no lugar das cabeças. Do outro lado do edifício, apropriou-se do espaço da antiga nora, rodeado de colunas, no jardim. Chamou-lhe Beijódromo. "É um espaço para namorar, um espaço para amar, um espaço para estar junto, um espaço para a empatia, palavras que fazem mais sentido agora do que nunca, num mundo polarizado, num mundo manipulado, num mundo do digital", remata o artista.
De volta ao interior, subidas as escadas, encontramos a mezzanine da Nave do CAM povoada de obras da colecção escolhidas por artista e curador. Um trabalho cuja responsabilidade pesou sobre Carlos Bunga e Rui Mateus Amaral. Das reservas à biblioteca, passando pelo jardim e pelo arquivo do extinto Ballet Gulbenkian, "Habitar as Contradições" também se debruça sobre a própria instituição. No exercício curatorial, a dupla privilegiou obras raramente exibidas e difíceis de classificar. Sara Bichão, Lourdes Castro, Maria Helena Vieira da Silva, Francisco Tropa, Alberto Carneiro, Keiichi Tahara, Túlia Saldanha, Kenneth Martin e Kapwani Kiwanga são alguns dos nomes presentes na selecção.
Do alto, continuamos a avistar a floresta de cartão. Vai manter-se assim, imperturbável, até 14 de Março, data em que Carlos Bunga regressa ao CAM para, diante do público, transformar a própria obra – cortando-a e desmontando-a, para depois a compor de novo.
Rua Marquês de Fronteira, 2 (São Sebastião). Qua-Seg 10.00-18.00 (Sáb até às 21.00). Até 30 Mar. 10€
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