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A artista portuguesa editou o primeiro álbum, ‘LONDON, WHEN ARE U GONNA FEEL LIKE HOME?’. À Time Out, revela o processo de criação deste disco sobre ansiedades, pertença e a procura de um lugar a que possa chamar casa.

Começou a chamar a atenção em 2021, com as músicas do EP The Way e com a participação no festival londrino We Out Here, no ano seguinte. Agora, Raquel Martins, cantautora e guitarrista portuguesa, que se mudou para Londres aos 17 anos, edita o seu primeiro disco de longa duração, LONDON, WHEN ARE U GONNA FEEL LIKE HOME?.
A Time Out falou com a artista – que, por enquanto, tem apenas uma data para apresentar este trabalho em Portugal, em Lisboa, a 20 de Novembro no Lux – sobre as ansiedades que inspiraram o trabalho, como tem sido colaborar com pessoas como Rina Sawayama ou Loyle Carner e se ambiciona, um dia, regressar a Portugal.
Quando é que surgiu a vontade de criares o teu primeiro disco?
Foi há três anos. O primeiro disco é um marco especial. Quando começamos a fazer música é sempre um objectivo e algo que queremos muito fazer. Após fazeres música durante algum tempo, acredito que consegues perceber quando é que é o momento ideal para dar esse passo. No meu caso, já tinha dois EPs e comecei a sentir esse chamamento. Desde que sou pequena que adoro ouvir discos como o To Pimp a Butterfly (2015), do Kendrick Lamar, e esse acabou por se tornar no meu standard de qualidade.
Esse disco foi uma inspiração?
Queria que o meu álbum pudesse contar uma história, que tivesse uma narrativa, personagens. Na altura, estava entre tours, a tocar para outros artistas, e, apesar de ser uma experiência interessante, era algo que me deixava frustrada criativamente, porque não me permitia expressar. Adoro estar em casa a produzir a toda a hora e a ver resultados a aparecer. Quando estás em digressão, vives sempre a mesma rotina enquanto estás sempre a tocar as mesmas músicas.
Houve algum momento em que esse sentimento foi assoberbador?
No final do South by Southwest, quando estava a acompanhar a Biig Piig, nos Estados Unidos, enquanto estávamos a vir embora, observava as pessoas a voltarem para casa, para junto das suas famílias. Sentia-me como quando ia de férias com os meus pais, no entanto, estava a voltar para Londres e não para Portugal. Isto provocou-me uma certa estranheza, apesar de viver lá desde os 17 anos. Sentia que Inglaterra não era a minha casa, mas Portugal também não, uma vez que estava cada vez mais afastada do país. Senti-me sem chão. Comecei a tentar perceber e a desconstruir o sentimento de casa. Se é algo que existe mesmo, se é uma coisa que idealizamos.
Como é que foi esse processo?
O primeiro momento de criação deste disco foi quando comprei um caderno e a primeira frase que escrevi foi: "London, when are you gonna feel like home", que daria o nome ao álbum. Depois foi uma questão de registar todos os meus sentimentos e ideias em torno do concerto de "casa".
A Raquel, como já tinha dito, lançou dois EPs antes de editar este trabalho de longa duração. Sente que é uma artista muito diferente de quando lançou o seu primeiro trabalho, The Way, em 2021?
Sinto-me muito, muito diferente. Continuo a ter o mesmo espírito e razões e os "porquês" continuam a ser todos iguais, mas sinto que, desta vez, estava com muito mais confiança a nível de produção. Na altura, quando estava a trabalhar nesse primeiro EP muitas pessoas ficaram surpreendidas quando disse que ia ser eu produzi-lo. Se calhar como era uma mulher da indústria não era suposto ter este trabalho.
Que outros obstáculos é que sentiu ao longo deste percurso?
Houve muitas barreira para ultrapassar. Estava numa fase onde tinha acabado de estudar guitarra, tocava este instrumento para outras pessoas e acabei a odiar tudo relacionado com este processo. Por isso é que no The Way não se ouve muita guitarra, estava desencantada, ouves muitos mais teclados. Quando comecei a trabalhar no Empty Flower (2023) voltei a interessar-me pela guitarra e pelos sons que conseguia fazer com vários pedais. Mas, mais uma vez, voltei a fartar-me. Hoje, sinto-me muito mais apaixonada pela guitarra acústica com cordas de nylon. É uma coisa muito específica, mas sinto que me permite pegar numa certa tradição musical e conseguir aplicar uma inovação. Até agora, acho que é a forma que encontrei para me expressar que é mais fiel e mais "eu". Isso era o mais importante neste trabalho, tinha de ser genuína.
Como é que descobriu esta nova paixão?
Isto foi algo que aconteceu um bocado involuntariamente. Comecei a perceber, em sessões de estúdio, que era chamada para tocar guitarra acústica e cantar em português. Isso fez-me perceber que essas queriam que fosse eu mesma. Este disco foi uma grande procura daquilo que eu queria que fosse o meu próprio som.
Sente que ao trabalhar com tantos artistas diferentes, como a Rina Sawayama ou o Loyle Carner, isso ajudou-a a ganhar mais experiência e confiança para se expressar de uma forma mais singular?
No início, o meu trabalho de sessão estava mais ligado à pop, ou seja tinha de gravar partes de músicas que já estavam escritas, o que não me permitia imprimir muito o meu cunho pessoal. No entanto, recentemente, por exemplo, com o Loyle – que me pediu para tocar nylon –, tinha mais liberdade para oferecer o meu input. Estou muito feliz por ter chegado a este ponto.
Achas que, de certa forma, esses artistas te estão a convidar para participar no projecto devido às tuas origens portuguesas e porque querem este som nos seus trabalhos?
Talvez. Embora tudo isso dependa do contexto. Não acho que a minha música seja propriamente aquilo a que estamos habituados quando falamos de [música] portuguesa tradicional. Mas adoro que me permitam ser apenas eu. Adoro quando bandas permitem que cada integrante possa mostrar os seus talentos e as qualidades que os tornam únicos, como fazia o Miles Davis quando levava artistas como o John Coltrane para o seu grupo. Tento sempre fazer o mesmo no meu projecto. Todos os membros conseguem fazer coisas diferentes e, de repente, estamos todos a trocar de instrumentos e a fazer algo de novo e especial.
É como juntar vários ingredientes para fazer um bolo especial e único.
Exactamente. Um dos meus exemplos preferidos foi quando a Joni Mitchell convidou o Jaco Pastorius para participar no Hejira (1976). É impressionante ouvir músicas como o baixo dele complementa a voz e a guitarra em músicas como a "Coyote". Isto vem também de uma escola de pensamento dos Estados Unidos, onde os artistas tentam alterar os sons dos instrumentos até eles ficarem irreconhecíveis, que é algo que me interessa muito.
Estava a falar sobre descobrir a sua identidade sonora e experimentar coisas diferentes nos seus vários trabalhos. Depois de adoptar estilos como o jazz ou o R&B, este seu disco de estreia é muito mais experimental e abstrato. O que a motivou a soar desta forma?
A música da Saya Gray foi uma grande inspiração. É interessante porque, quando comecei a fazer música, lembro-me de passar as várias secções das canções de formas muito brutas. Com o passar do tempo, atenoei isto e fui fazendo música como era suposto. No entanto, percebi que, a nível pessoal, não era assim que a minha cabeça funcionava. Eu sou hiperactiva. Faz mais sentido fazer músicas com estruturas mais livres e por vezes mais caóticas. Se a canção for só verso-refrão vou sentir-me entediada.
Usou algum processo diferente neste disco?
Sim, decidi organizar este álbum por emoções. Cada projecto de canção servia para reflectir o que estava a sentir. Por exemplo, no single do álbum, "CHOOSE YOUR PLAYA", a primeira parte da música é uma ego-trip, enquanto depois é o desmoronar de todo este sentimento. Acho que isso é um reflexo do que estava a sentir. A confiança e a adrenalina de viver em Londres, mas depois ser confrontada com o facto de que não há lugar para mim lá. Sentir que eu preciso mais da cidade do que ela de mim. Houve uma grande análise da minha personalidade e de quem sou e sinto que isso foi muito mais fiel.
Esta relação com Londres é um dos principais pilares deste disco. Já vive na cidade desde 2017, quando tinha 17 anos, como é que a capital britânica a tem tratado?
Vou passando por diferentes fases. Não me posso queixar muito, tenho tido sorte. Está a correr tudo bem. No entanto, nos últimos três anos tenho pensado, até de uma perspectiva musical, em que outros sítios do mundo é que eu gostava de viver. Por exemplo, um dos sítios onde até gostava de passar mais tempo era em Lisboa. Adoro passear por aqui e poder, simplesmente, sentar-me numa esplanada e ver o pôr-do-sol. Mas isso assusta-me, porque é um cenário que nunca aconteceria em Londres, que é a cidade onde eu devia estar. Isso fez-me pensar que talvez não seja a minha casa para sempre. No final do ano também sou capaz de ir até ao Brasil.
Sente-se dividida?
Um bocado. Londres é muito fixe e estimulante, mas também está um bocadinho difícil de viver neste momento, seja política ou financeiramente. Se calhar, há um sítio mais feliz para estar.
No disco essa sensação é transmitida, por exemplo, na "I WANNA LIVE NEXT TO THE SEA". Faz-lhe falta a praia em Londres?
[Risos.] Sim, muito. Mas, ao mesmo tempo, também é importante, para mim, estar perto de coisas que me estimulem criativamente e estar com músicos com quem me apeteça fazer música neste momento. Londres ainda tem muita música com a qual eu quero estar envolvida em antes de me mudar.
Neste disco, existe muito esta confusão de onde é que é casa. Se é em Portugal ou em Londres. Uma da forma que encontrou para representar essa emoção foi através da utilização de expressões portuguesas, seja nos títulos das canções ou no meio das letras. Como foi trabalhar com duas línguas ao mesmo tempo?
Isto aconteceu porque, recentemente, comecei a sentir-me mais conectada com o português. Se nunca te apaixonaste em português, não vais conseguir escrever uma música sobre essa emoção. Por isso é que todas as expressões de ansiedade que utilizo são em inglês. Para mim, é natural expressar toda essa energia frenética em inglês. Por isso, é giro depois músicas como a "CALMA!" surgirem em português. De uma forma subconsciente, é assim que falo comigo quando preciso de abrandar. Na "NINGUÉM" sou eu a falar comigo mesma porque preciso de guardar um segredo. O português acaba por ser uma personagem. Mas existem distorções na voz que reflectem pessoas diferentes ou motivos rítmicos. Foi um processo muito interessante e, no futuro, uma vez que estou muito mais conectada a Portugal, não me surpreenderia se saísse algo ainda mais focado nesta língua e de uma forma mais natural.
Visto que é um álbum que fala sobre coisas tão íntimas como o nosso lar, acha que o português também foi ganhando espaço por causa das saudade, que é um sentimento tão nacional?
Isso é algo muito presente na nossa cultura. Se calhar foi por causa disso. Ou então pode ter sido por estar tão dividida entre estes dois países, e por isso é que acabei por experimentar cantar das duas formas. Este disco foi essencialmente uma experimentação, até na vida real. Por exemplo, eu nem sou muito de sair à noite e, neste período, para me tentar conhecer melhor, foi algo que experimentei fazer. A "NINGUÉM" foi sobre estas aventuras, que depois até percebi que não me identificava muito.
Uma das faixas que mais me chamou a atenção, por incidir numa temática que, aparentemente, não está ligada tanto com esta questão do sentimento de "casa" e "pertença" foi a "LITTLE BOY". Neste tema aborda questões como o género, a identidade e a androginia, algo que nunca tinha explorado na sua discografia. Como é que esta faixa se encaixa neste disco, e porque é que decidiu agora explorar este tema?
É interessante porque esta foi a primeira faixa que escrevi deste disco. Foi quando curtei o cabelo. Pela primeira vez, em muito tempo, toquei na parte de trás do meu cabelo e tive um flashback. Lembrei-me quando estava no campo de futebol quando era pequena e sentia a cabeça suada. É interessante porque percebi que este sentimento de casa também é de conforto connosco mesmos. Pareceu-me muito óbvio que, no final do álbum, a casa tinha de estar em mim e eu tinha de fazer as mudanças necessárias para refletir e perceber o que realmente era.
Foi um momento catártico?
Cortar o cabelo foi uma coisa que simbolizou muito eu voltar a quem eu era. Quando era mais nova estava sempre a pedir à minha mãe para ter o cabelo curto, no entanto, é algo que não é considerado convencionalmente feminino. Mas comecei a perceber que estava a sentir-me mal porque não me estava a ouvir. Nunca liguei a este tipo de rótulos, para mim está tudo muito desconstruído. A "LITTLE BOY" está posicionada numa parte do disco onde me estou a sentir cada vez mais confortável e cada vez mais em casa, onde sinto que posso ser, genuinamente, quem eu quiser. Existe um grande êxtase em perceber que tudo corre melhor e sentimos-nos bem quando somos fiéis a nós mesmos.
Essa descrição da narrativa é interessante: à medida que as músicas vão avançando, vai percebendo melhor onde é que pertence e onde está essa sensação de "casa" que tanto descreve. Neste disco, a aterragem faz-se com "DON'T PRESS REPLAY", onde canta sobre "estar perdida, mas encontrar o seu caminho". Era importante terminar com este sentimento?
O álbum foi escrito à medida que tentava encontrar uma resposta para todas as minhas questões. Quando estava a chegar ao fim, percebi que não encontrava resposta para porcaria nenhuma [risos]. Lembro-me, precisamente, do momento em que estava a escrever naquele caderno que comprei e percebi "se calhar, não há resposta". Era a percepção de que estava a precisar. A certa altura, estou a cantar: "This is not end I paid to see/ I thought by now my answers would be here/ The bad news is this might be all there is/ Congrats 'cause this same thought will set you free".
Como foi a sensação de encontrar esta "solução" que tanto demorou?
Foi muito interessante perceber esta dualidade de que tudo tem um lado bom e mau. Perceber que podia não chegar a nenhuma resposta ajudou a libertar-me desta ansiedade. Parei de viver para conseguir perceber o que estava a acontecer comigo. Mas o que estava a precisar era continuar a ter mais experiências e a sair da minha bolha. Queria que a última música fosse muito caótica e libertadora, só assim podia representar aquilo que estava a sentir.
A grande conclusão que chega é que não precisa de uma casa para se sentir bem, basta estar confortável consigo mesma. Ainda assim – e apesar de em entrevistas anteriores ter afirmado que não pretende sair de Londres –, já ponderou algum dia voltar a chamar Portugal de casa?
Nessa altura, estava um bocado dentro de uma bolha. Sinto que Lisboa pode ser o checkpoint final.
Apesar de ser do Porto?
Sim [risos], mas, em Lisboa, sinto mais liberdade. Acho que a cidade vai mudar muito nos próximos anos e ter um foco cada vez maior na exportação. Nós fazemos muitas versões daquilo que existe lá fora, mas acho que cada vez mais estamos a ser mais autênticos naquilo que é a música portuguesa. Um dia, gostava muito de voltar a Portugal. Não sei quando, mas acho que isso é a parte fixe. Pensar em sair de Londres é assustador. Muita da minha vida foi construída com o objectivo de ir para lá, mas regressar é um cenário que vejo com bons olhos.
Lux Frágil (Terreiro do Paço). 20 Nov (Qui) 21.00. 12€
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