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Ricardo Ribeiro: “A alma não cabe no corpo. Por isso é que a arte existe”

Depois de um disco mais dedicado ao fado, Ricardo Ribeiro regressa com ‘A Alma Só Está Bem Onde Não Cabe’, um trabalho em que explora novas linguagens e assina grande parte das canções e que será apresentado nos coliseus, em 2027.

Hugo Geada
Escrito por
Hugo Geada
Jornalista
Ricardo Ribeiro
DR | Ricardo Ribeiro
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O fado é mais camaleão do que uma estátua em fórma de gárgula. É algo que não ficou preso no tempo. Evolui e muda, adaptando-se aos tempos. Quem nos ensina esta lição é o fadista Ricardo Ribeiro no seu novo disco, A Alma Só Está Bem Onde Não Cabe, editado esta sexta-feira, 13 de Março.

Em conversa com a Time Out, o artista, que agarrou o papel de autor das letras e das músicas de forma a exteriorizar tudo o que tinha para dizer, descreve o disco como o resultado de um processo muito interior. Depois de um trabalho anterior mais dedicado ao fado tradicional, sentiu necessidade de dar forma a algo diferente. “Por vezes vêm-me coisas que não sei explicar bem de onde surgem. Só sei que precisam de ser postas cá fora”, conta.

Embora o fado continue no centro do seu trabalho, neste disco – que será apresentado ao vivo a 23 de Janeiro no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e a 29 de Janeiro no Coliseu do Porto Ageas – o cantor atravessa outras sonoridades e influências. Ele explica.

Quando é que surgiu a vontade de começar a gravar este trabalho novo?
O disco anterior foi praticamente todo dedicado ao fado. Mas, como sou um indivíduo que vive uma vida interior, por vezes vêm-me coisas que não sei explicar bem de onde é que elas surgem. Só sei que precisam de ser postas cá fora. Tanto que, neste disco, a grande maioria das músicas e as palavras são minhas. Portanto, atrevi-me e resolvi fazer este disco com esta formação. É difícil explicar, é um trabalho que nasceu de uma coisa que não tem um sítio. Nem tudo tem uma explicação causal. É um processo muito íntimo e que está mais relacionado com um movimento interior que é preciso trazer para o exterior.

Nota-se que neste disco tinha muita coisa para desabafar, mas fê-lo com recurso a sons e linguagens que, normalmente, não ouvimos no seu trabalho. Porquê fazê-lo assim neste disco?
O disco chama-se A Alma Só Está Bem Onde Não Cabe porque, muitas vezes, quando observamos esse movimento do que é a alma – se é que sou alguém para falar do que é a alma –, percebemos que ela só está bem onde não cabe porque tem de caber também no outro. Por isso é que criamos a arte. Por isso é que a arte existe. É porque a alma não cabe no corpo. Por isso é que precisamos de arte. Daí o disco ser feito assim, ter todas estas componentes e palavras e música minhas. Também existem palavras de outros poetas, claro, como Manuel Alegre ou Manuel Alcântara, que é um poeta andaluz de que gosto muito, e música de uma amiga minha, a Mayte Martín. Portanto, existem muitas abrangências, sobretudo ligadas a esta questão da alma e da nossa necessidade de amar alguém – muitas vezes maior do que ser amado.

Este é um álbum que muitas vezes vai além do fado, jogando e mostrando que ele pode conviver com várias influências e línguas. É importante desafiar o fado desta forma, até numa questão de o manter vivo?
Tradição significa traditio, aquele que transporta algo. Nenhuma tradição vive como se fosse uma feira das vaidades, ou como se fosse algo fixo e que só pode ser feita de uma única maneira. Não é disso que se trata. O importante no fado é manter as características para que, quando se ouça um fado, se saiba distinguir do jazz, do rock ou da pop. No meu caso, o importante é perceber que eu me canto a mim. E ao cantar-me a mim, que sou um português meridional, um português do Sul, muito peninsular e com uma visão mediterrânica, deixo-me contagiar por uma série de influências andaluzinas. Não querendo eu hastear uma bandeira, quero sobretudo que a minha música seja uma representação daquilo que eu sou e faço.

Quando estava a preparar esta entrevista cheguei a ler um artigo que o descrevia como um "guardião da tradição com os olhos postos no futuro". Acha que é uma descrição fiel daquilo que tem feito?
Talvez a parte do guardião se aplique. Repara, um tipo só pode ser guardião da tradição se tiver o seu conhecimento. Ao ter o conhecimento da tradição podes ser um guardião. Talvez, por ser de facto um conhecedor da tradição e porque a sei fazer e praticar, por isso é que me deram essa designação. Por outro lado, “com os olhos postos no futuro”, é evidentemente porque sou um tipo de agora e que tenho muitas outras coisas dentro de mim, sem esquecer que estou também atento a uma série de factores que vêm de fora. Mas sobretudo esse guardião é por ser uma natureza essencial e não uma natureza adquirida.

Por falarmos do olhar para o futuro, uma das pessoas que colabora neste disco é a Ana Moura, uma das intérpretes que mais tem reescrito a fórmula do fado. O que é que ela acrescenta a este seu trabalho?
A Ana é uma pessoa por quem tenho muita admiração e carinho. E, portanto, surgiu um tema, "Maré", que nos permitiu cantar juntos. Não sei se a Ana estará a fazer novos moldes. Acho que a Ana também se está a cantar a si mesma e está a construir o seu caminho, não só um caminho ligado ao fado. Muitas vezes passamos a vida a crucificar para depois passarmos a eternidade a ressuscitar. Crucificamos as pessoas porque quando só fazem uma coisa e estamos habituados àquilo, só queremos que a pessoa faça aquilo, e a Ana é uma pessoa que faz esse despregar dessa cruz e que vai cantar-se a si mesma e à sua essência. Ela é muito corajosa com tudo aquilo que tem dentro e que deita cá para fora. A contribuição dela na "Maré" é fabulosa e é uma óptima forma de usar a sua capacidade interpretativa.

O fado está em boas mãos nesta nova geração?
Então não está? Claro que sim. O fado é um estilo que está constantemente a mudar, a evoluir e a acompanhar os tempos. O que manteve – e isto é algo pelo qual eu luto sempre – foram determinadas características. Não são regras. É uma linguagem própria que te permite ouvir e identificar imediatamente como fado, assim como as ligações a Lisboa e a Portugal.

Coliseu dos Recreios, R. das Portas de Santo Antão, 96 (Restauradores). 23 Jan 2027 (Sáb)

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