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RIP na Calçada d’Santana. Há uma nova livraria e editora na cidade

A especialidade são publicações ácidas, eróticas, punk e queer. E há obras assinadas pelos próprios autores, de John Waters a Marina Abramović.

Raquel Dias da Silva
Escrito por
Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
Alexis Augusto da livraria e editora Rest in Peace
Rita Chantre | | Alexis Augusto da livraria e editora Rest in Peace, na Calçada d’Santana
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Eram quase quatro da manhã em Paris quando Alexis Augusto decidiu que ia mudar-se para Lisboa, onde já não vivia desde a adolescência. Começou à procura de lojas na capital portuguesa e encontrou uma “raridade” na Calçada de Sant’Ana, onde há três semanas inaugurou o primeiro espaço da Rest in Peace, RIP para as amigas. A especialidade da editora e livraria – que existe desde 2023 de forma itinerante – são publicações ácidas, eróticas, punk e queer, como Women de Nadia Lee Cohen, Public Body de Marina Abramović ou Vampires in Space de Isadora Neves Marques. Está ainda prevista agenda cultural “fora de portas, na cidade, com outras instituições”, incluindo um clube de cinema.

“Eu tinha saudades do mar e da comida, e acordei do nada, devo ter tido um sonho simbólico, e perguntei-me ‘como será que se vive em Lisboa?’, porque nunca vivi aqui enquanto adulta. Mas a primeira coisa em que pensei não foi em ver casas ou ordenados, foi ‘ok, quanto é que custa uma loja’, e cruzei-me logo com esta, que não custa nem metade de um preço lisboeta, o que foi uma sorte muito, muito grande, e é a única razão porque aqui estamos”, conta-nos Alexis, que é formada em fotografia Fine Art e também trabalha com vídeo, som e performance – mas já lá vamos. “Nessa madrugada mandei logo mensagem ao Nicolas da Galeria Paris Lisboa, o que achei uma gracinha, e depois pedi à minha mãe para vir confirmar que isto existia. E assim foi.” Como quase tudo o que diz respeito à RIP, que na verdade já tem três anos.

Rest in Peace na Calçada d’Santana
Rita ChantreRest in Peace na Calçada d’Santana

Estávamos em 2023 quando lançaram um site e iniciaram actividade com candidaturas a feiras de livros. “Um dia fomos aceites na Paris Ass Book Fair, no Palais de Tokyo, aonde vamos voltar a estar este ano, no início do próximo mês [de 5 a 7 de Junho]”, partilha. “Nesse primeiro ano, viajámos imenso – fomos a Veneza, Bruxelas, Londres – e editámos o nosso primeiro livro, Age of Doom: Selected Stories, um arquivo das histórias de Instagram da Lara Oliveira. A ideia era explorar a sua prática, porque não se trata de uma coisa pensada, polida – é sobre quem ela é no dia-a-dia, como é que interage com o mundo e o que acha curioso, ou pelo menos curioso o suficiente para documentar.” Infelizmente não têm nenhum exemplar para mostrar, porque o catálogo da RIP – “com coisas velhas e coisas novas” – não só vive entre Lisboa, Londres e Paris, como é maior do que o espaço disponível.

Rest in Peace na Calçada d’Santana
Rita ChantreRest in Peace na Calçada d’Santana

Sim, esta é uma micro-livraria. Basta posicionarmo-nos à entrada para que o nosso olhar abarque tudo o que está à vista. Os livros estão dispostos num expositor ao centro e em duas estantes pretas completamente artesanais, da produção à montagem, nas laterais. Há ainda quatro cadeiras vintage restauradas e “nenhuma organização”. “A maioria das livrarias tem secções, nós não temos isto organizado de nenhuma maneira específica. A nossa parte favorita é misturá-los, como se eles estivessem a conversar uns com os outros. Tenho a certeza que a Nadia Lee Cohen já ouviu alguma música do Lou Reed, e isso há-de ter tido algum efeito nela. Eu gosto de os apresentar assim, até porque cada um destes artistas tem milhares de referências.” Alexis também: a Rest in Peace é fruto de várias conversas, umas mais casuais que outras.

O acaso feliz dos encontros extraordinários

Nos últimos sete anos, Alexis esteve a viver entre Londres e Paris. “Na altura queria mudar-me para Berlim, mas fui visitar uma amiga a Londres. Era suposto estar lá dois dias e, passado duas semanas, houve uma manhã em que ela se virou para mim e disse ‘amor, tu agora vives aqui, não é?’, e eu ‘sim’”, recorda, por entre risos. “Não foi de propósito”, confessa Alexis, que começou por estudar Moda, na vertente de Direcção Criativa, e acabou a infiltrar-se no curso de Belas-Artes. “Passei um ano sem estar inscrita, mas ninguém percebeu, porque a turma tinha 300 e tal pessoas e eu tinha um corte de cabelo mau... Acho que eles só acharam que eu fazia parte do sítio.”

A sua vida é, admite, uma sequência de acasos felizes, que tem arriscado aproveitar sem pensar duas vezes – sabe muito bem o que quer e muitas vezes o que quer é redescobrir-se noutros espaços. Se não tivesse ficado em Londres, não teria conhecido “um moço no supermercado”, que não só lhe falou do tal curso de fotografia como lhe ofereceu um espaço num estúdio com milhares de livros espalhados por todo o lado, onde viria a conhecer uma grande amiga. “Ela trabalhava nas galerias Serpentine e eu perguntei-lhe se não tinha um trabalho para mim. No final dessa tarde, tinha emprego”, conta. “O meu caminho tem sido feito destes encontros extraordinários.”

Rest in Peace na Calçada d’Santana
Rita ChantreRest in Peace na Calçada d’Santana

A mudança para Paris, por exemplo, também não foi planeada. Estava de férias em Portugal, mas “já com as coisas arrumadas em Londres” para se mudar para Barcelona e cheia de saudades dos amigos. “No meio de um festival decidi que ia voltar para Londres, para me despedir, e a maneira mais barata de o fazer era ir para Paris e depois ir para Londres. Eu estive em Paris três dias e apaixonei-me pela cidade. Mas eu já lá tinha estado umas doze vezes antes e nunca tinha gostado. Dessa vez não sei o que aconteceu. Fui sozinha, estive a passear, fui às livrarias todas”, partilha. “Ia para Barcelona abrir a RIP e pensei, ‘posso abri-la em Paris’. Mas foi um processo mega acidental.”

A Rest in Peace nasceu como ideia anos antes, na casa da co-fundadora, Carlota Lopez. Na altura, Alexis ainda estudava na faculdade de Belas-Artes, as pessoas à sua volta passavam a vida a ler e ela começou a coleccionar livros. “Às vezes eu e a Carlota íamos só à casa uma da outra trocar recomendações, e um dia combinámos que haveríamos de abrir uma livraria”, diz. “Mas só quando cheguei a Paris é que se tornou real. Comecei a enviar e-mails a editoras e a artistas. Eu não sabia nada – não sabia sequer onde é que ia viver quando entrei no avião –, só sabia que ia correr bem, e fui aprender como é que isto tudo funcionava.”

Rest in Peace na Calçada d’Santana
Rita ChantreRest in Peace na Calçada d’Santana

Não há loja online, só este primeiro espaço físico em Lisboa e um catálogo com os livros disponíveis para compra, que incluem livros de arte, mas também de ficção e poesia. “A nossa curadoria não tem tanto a ver com o género ou formato, mas mais como a pessoa que o produz se posiciona no mundo e no seu próprio trabalho”, explica. “Somos atraídas por coisas mais tongue in cheek, mais marotas. É essa a nossa inclinação, e tudo o que vendemos é escolhido a dedo – bem, às vezes a vida escolhe por nós, porque tanto eu como a Carlota acabamos por conhecer estas pessoas, com quem depois também criamos relações. Mas não há nada aleatório aqui, tudo vem de um sítio super pessoal.”

Os preços começam nos 15€, mas podem ir até aos 1252,87€ – é esse o valor da primeira edição do Director’s Cut, de John Waters, assinada pelo próprio. O já mencionado Women de Nadia Lee Cohen, uma das artistas favoritas de Alexis, custa 75€, mas Jullie Bullard, outro livro da fotógrafa, está a 60€. “Esbarrei com ela uma vez, na Dover Street Market, em Paris, e ela estava a lançar uma versão pirata do Women, que é um livro perfeito, e foi a primeira coisa que ela fez”, revela Alexis, que faz questão de deixar claro que não há nenhum livro na livraria que tenha escolhido a pensar ‘isto vai vender bem’. “Na verdade nunca pensei isso de nenhum”, admite, a rir-se. “Quer dizer, este livro da Nadia, obviamente que vai vender bem, mas vai vender porque é incrível, não porque é fácil, não acho que seja fácil. [A curadoria] tem a ver com acreditar nestas pessoas e nos trabalhos delas.”

Calçada de Sant'Ana, 169 (Pena). Qui-Sáb 14.00-18.00 ou por marcação (info@restinpeace.fr)

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