Este artigo foi originalmente publicado na revista Time Out Lisboa, edição 673 — Primavera 2025
A música soa por todo o lado, mas é no piso inferior que junta a maioria das pessoas. À medida que a noite avança, o terraço vai-se tornando ponto de encontro, sítio para conversar e beber um copo. Lá dentro, na sala que dá acesso ao exterior, uns dançam acompanhados, junto à mesa de mistura do DJ, outros a sós, de olhos fechados, balançando de um lado para o outro. Mas fora desta sala, há quem encontre um outro tipo de dança, de ritmo e de vontade. No corredor que vai dar à pista há dois quartos, mais pequenos e a meia-luz. As estéticas são diferentes, mas partilham o facto de não terem grandes regras. Qualquer um é convidado a entrar e a conhecer-se melhor, mais intimamente, na cama, na poltrona ou no banco. Ora a um, ora a dois ou a cinco. O número não importa, nem tão-pouco o género ou a orientação sexual. O espaço é aberto a todos que queiram explorar-se a si mesmos e aos outros – e que não se importam com aqueles que preferem encostar-se à ombreira da porta a assistir e a bater levemente o pé ao som da música.
Estamos num edifício na zona do Chiado, onde se encontram cerca de 200 pessoas numa “Sensual Soirée”, festa em torno da sexualidade positiva, organizada pela Shame Less Society. A organização nasceu há cinco anos, em Berlim, e chegou a Lisboa em 2023. “Percebemos que a razão pela qual procuramos estes espaços são as pessoas que fazem a comunidade. E também a ligação e a capacidade de sermos vulneráveis uns com os outros”, começa por dizer, à Time Out, a alemã Elnora Grant, uma das fundadoras.
O sexo quer-se positivo
A ideia foi criar um espaço onde a comunidade poliamorosa, e não só, pudesse sentir-se livre e confortável o suficiente para aprender mais sobre este estilo de vida, que, ao contrário do que acontecia em Berlim, por cá ainda provocava muitas questões. “Então o que é que precisamos de fazer para juntar as pessoas, de forma a que se conectem, que se sintam livres e vulneráveis? Precisamos de desconstruir a vergonha, através de festas sex-positive em que elas queiram participar. E ao longo do caminho, vamos educá-las e dar-lhes os recursos necessários para experimentar e forçar uma ligação.”
A Shame Less Society assenta assim em cinco pilares: desconstrução da vergonha, honestidade e autenticidade, construção de carácter, comunidade e conexão, e, por fim, educação sexual. A última é talvez uma das características mais relevantes e a que mais distingue a Shame Less Society de outras organizações que promovem orgias. “As introduções e demonstrações servem para educar as pessoas, para lhes dar as ferramentas para falar sobre estas coisas com os parceiros. Às vezes, os parceiros estão super interessados em coisas como prazer anal masculino, por exemplo, mas não têm as ferramentas para poder falar sobre isso”, nota Elnora. E, desta forma, “garante-se que estes tópicos não são embaraçosos”, com a ajuda de workshops.
A festa no Chiado começou às cinco da tarde, mas é a partir das seis que entram mais pessoas. Lá fora, ao cimo da rua, passamos por famílias, casais e grupos de turistas, de sacos no braço e câmaras em punho. É um sábado de Abril, o sol ainda aquece a pele. Mas para lá destas portas vive-se uma tarde diferente. Depois de mostrado o bilhete, no hall de entrada, um homem e uma mulher recebem-nos, sorridentes, e carimbam-nos o pulso para oficializar a presença. Falta só deixar os pertences no bengaleiro. Há quem traga um sobretudo ou um casaco comprido que, assim que é despido, revela uma indumentária mais adequada à ocasião. Rendas pretas, lingerie vermelha, tule transparente, calças de cabedal, correntes, quimonos japoneses, palas no olhos ou cartolas na cabeça. Vemos anjos brancos, princesas, adeptos do BDSM (Bondage, Disciplina, Sadismo, Masoquismo) e criaturas míticas. Um a um, quase todos vão subindo as escadas para chegar à sala onde está a começar o primeiro workshop da noite, pensado para quem vem pela primeira vez.
Libertar as ansiedades
Sentados no chão, de frente para uma cama encostada à parede, os participantes ouvem atentamente Antonia Osi. A anfitriã fala de como é normal nos sentirmos nervosos, de como alguns exercícios de respiração podem ajudar e pede para todos se porem confortáveis, deitados, descalços ou de pernas cruzadas à chinês. A seguir, pergunta o que é consentimento e explica como o podemos transmitir através da linguagem corporal. A última parte do workshop é a que requer mais interacção entre todos – devemos levantar-nos e percorrer a sala, ao passo que trocamos olhares e sorrisos entre nós. Devemos também apresentar-nos a alguém, dizer um “olá” ou o nosso nome, apertar uma mão, dar um abraço. Conhecer aquela pessoa ao longo dos próximos dois, três minutos. A acção repete-se mais duas vezes, sempre com pessoas diferentes. No fim, Antonia informa-nos que, se precisarmos ou se nos sentirmos desconfortáveis com alguma coisa, podemos falar com ela, já que é a responsável pela equipa de sensibilização, que está presente na festa a noite inteira.
Antonia é russa e mudou-se para Portugal há três anos para fazer um doutoramento ligado às emoções e ao bem-estar. A psicóloga social dedica-se à arte-terapia e a exercícios de facilitação de processos corporais (ou embodiment facilitation). Há um ano e meio juntou-se à equipa da Shame Less Society. Está encarregue da supervisão da equipa de sensibilização e está envolvida no processo de candidaturas dos membros e voluntários. Após o preenchimento de um formulário, quem quer participar tem de fazer uma entrevista. “Nós entrevistamos toda a gente que entra na comunidade e, se alguma pessoa nos informar de alguma condição especial, fico atenta a isso. Leio os perfis de todas as pessoas que vão à festa e considero qualquer questão médica ou outra coisa a que deva ter atenção”, explica.
Para alguns, saber que o processo de entrevistas existe ou que há uma equipa de sensibilização presente desempenha um papel determinante na hora de ir ou não à festa. É uma validação de que vão entrar num espaço seguro e inclusivo, onde não há julgamentos nem assédio, já que as entrevistas também servem para perceber se as pessoas estão alinhadas com os valores da organização. É o caso de André Mendes, de 33 anos, que decidiu vir por recomendação de uma amiga – “Especialmente como pessoa queer, sinto-me mais seguro sabendo que há aqui uma equipa de sensibilização.”
Só depois de concluir este processo é que as pessoas sabem se estão elegíveis a tornar-se membros ou voluntários e a comprar um bilhete (que inclui a localização da festa). Os preços para membros variam entre os 69€ e os 189€, dependendo com quanta antecedência se compra o bilhete e se vai sozinho ou em casal. Já na festa, a comida, pensada por Filipe Camacho (que faz consultoria e eventos privados), e as bebidas têm um valor adicional. Para voluntários – que tanto podem fazer parte da equipa de sensibilização como da equipa de organização e cuidados do espaço – o bilhete custa 10€. Qualquer pessoa pode candidatar-se para ser voluntário da equipa de sensibilização, mas há uma preferência por quem seja profissional das áreas de Psicologia ou Psiquiatria.
Especialistas para tudo
“Quando entrevisto pessoas para a minha equipa, pergunto que competências possuem, porque é bom que haja diversidade. Temos vários psiquiatras que conseguem identificar episódios psiquiátricos e sei que posso contar com eles se algo desse género acontecer. Eu tenho uma educação psicológica básica e geral, então consigo identificar diferentes estados”, afirma Antonia. Outros estão mais ligados à terapia e à farmacologia, como é o caso de Jack Allocca, de 40 anos, que tem origem australiana e italiana e que é investigador na área da farmacologia, doutorado em neurociência e, em tempos, foi trabalhador do sexo.
“No contexto da Shame Less Society, fui convocado para dar apoio a pessoas que estejam a lidar mal com o consumo de substâncias ou que tenham questões relacionadas com a neurociência e a sua experiência num ambiente extremo. (...) Há pessoas que, para libertar a ansiedade de estar num ambiente sexual, podem ser tentadas a consumir substâncias de uma forma que normalmente não fariam, o que às vezes pode esbater os limites daquilo que é consentimento ou mesmo piorar a sua atitude no geral”, explica Jack, que faz parte da equipa desde a primeira festa, organizada na Ericeira, em 2023. Contudo, o abuso de drogas não costuma ser um problema, acabando por haver mais episódios relacionados com o álcool – “O cenário português não é muito louco, não estamos a falar de Berlim, Detroit ou Los Angeles, então as pessoas orientam-se mais para o álcool.”
Depois do primeiro workshop para iniciantes terminar, seguem-se outros, que se prolongam até à meia-noite. Às 20.00, um de shibari, técnica de bondage, ou de amarração com cordas sexual japonesa; às 21.00, outro sobre o clitóris, que envolve exercícios de respiração e de experiência somática; e mais tarde, às 23.00, um novamente focado em BDSM, em que podemos aprender a explorar acessórios, como chicotes e cintos, através de jogos e demonstrações guiadas. As sessões são dadas por alguns dos voluntários, enquanto os restantes circulam no piso inferior do edifício, para se certificarem do bem-estar físico e psicológico de toda a gente. Para isso, andam identificados com um choker colorido e uma bolsa de cintura a condizer, onde guardam preservativos, luvas, toalhitas, papel e medicamentos, como ibuprofeno, para quem possa precisar.
“Estás constantemente alerta e a tentar perceber se as pessoas estão bem. Estás constantemente a olhar de um lado para o outro e a tentar perceber se há situações de stress em que precisas de intervir. Mas, ao mesmo tempo, tens de parecer que não és polícia. E isso é bastante cansativo – estar constantemente alerta do que se está a passar à tua volta num ambiente que só por si já é muito estimulante”, diz uma interna de psiquiatria, que prefere manter-se anónima e que começou a voluntariar-se na Shame Less Society em Janeiro. Há que saber manter o equilíbrio e uma das formas de o atingir é estando presente, tal como todos outros.
“Estou num modo observador imersivo. Não estou a observar de fora, estou envolvida na dinâmica, ainda que por uma questão de fazer um trabalho eficiente, não estou necessariamente a participar nas dinâmicas, mas estou em contacto com várias pessoas”, descreve outra voluntária, psicóloga, que também prefere não dar a cara. Além de ir parando e perguntando a quem esteja mais isolado como é que se sente ou se está desconfortável, está especialmente atenta aos novos membros, bem como a quem está a ter relações sexuais.
“Existe uma conduta, não invasiva, para perceber se a pessoa se está a sentir bem ou não, e se está a haver consentimento ou não. Nessa parte, estou mais a ler sinais para ver se a pessoa está confortável. (...) Depois, logo abordo de forma não invasiva, pergunto ‘Está tudo bem?’, ‘Precisas de ajuda?’... E, dependendo daquilo que for, posso, por exemplo, levar a pessoa para um sítio onde se possa deitar e ficar”, continua. Por outro lado, a psicóloga também procura ajudar quem esteja mais inibido, ansioso ou assustado. “Estou a interagir com as pessoas, estou a empoderá-las para que tragam ao de cima um eu mais autêntico e para que se conectem, livre de vergonhas. Também trabalho a parte do medo, da rejeição, que é no fundo o que inibe as pessoas.”
Em qualquer posição
E não é isso que aqui se quer. Este é o sítio onde se pretende que a vergonha dê lugar à curiosidade, onde o corpo e o prazer são para ser explorados, de mil e uma formas. É, aliás, o que vemos acontecer nos dois quartos do piso inferior. No primeiro, apelidado de Cozy Room, a cama é tomada por quatro pessoas que, ora todas juntas, ora em pares, se tornam objecto de interesse para três ou quatro espectadores à entrada. Provido de quadros nas paredes, uma poltrona e alguns pufes quadrados, o espaço é pequeno, acolhedor e convida a entrar. Há quem aceite o convite, como o casal que está sentado no banco junto à janela, e que não presta grande atenção ao grupo que se enlaça na cama. Estão antes entretidos um com o outro. Já o quarto adjacente dá guarida àqueles que queiram experimentar o BDSM. Em vez de iluminar uma cama, a luz, avermelhada, dá-nos conta de uma estrutura de madeira cruzada presa à parede, com algemas de pele, e de um género de cavalo de salto de ginástica. Há quem prefira usá-los e quem prefira ficar só no chão.
Depois das dez da noite estes espaços começam a ser cada vez mais procurados. Ao subir as escadas, ouve-se alguém a perguntar ‘Já viste o cão?’ e levantam-se sobrancelhas. Aparentemente, há um cão na festa. Incrédulos, alguns dão meia volta e descem em direcção à sala de BDSM. À entrada, juntam-se várias pessoas a olhar para baixo. De mãos e joelhos pousados no chão, vestido com um fato de látex preto, que tem apenas um pequeno fecho no rabo, está um rapaz, talvez nos seus 30, a receber festas de duas outras pessoas. Mais tarde, partilha com a Time Out que é a sua primeira vez numa festa do género e que, para si, a liberdade sexual significa, num primeiro instante, desempenhar um papel submisso. Para outros, liberdade sexual significa outras coisas.
Nico Green, que nasceu nos EUA e vive em Lisboa há seis anos, encontrou na Shame Less Society algo difícil de descrever, próximo de “um sonho” que o deixa explorar livremente o poliamor. “Eu sou sexual e isso é ok. Sou um homem e o sexo é uma parte importante da minha vida. E este é um lugar onde eu posso simplesmente perguntar a alguém ‘Posso juntar-me?’, ‘Queres sentar-te ali?’ ou ‘Vocês estão juntos?’”, exemplifica. Já outra participante de 41 anos, que prefere não partilhar o nome, está numa festa da Shame Less Society pela segunda vez com o parceiro e nota como “todos exploram a sua sensualidade de forma muito libertadora”.
A primeira vez
E tal como André Mendes, que chegou aqui esta noite sem saber o que esperar, também a enfermeira Joana Henrique, de 30 anos, nunca tinha experienciado algo do género. De forma a sentir-se mais segura, e porque nem sempre é fácil dizer que não, decidiu vir como voluntária. O choker no pescoço e a bolsa colorida à cintura que a identifica como parte da equipa torna-se uma espécie de escudo, uma maneira de dizer que não ainda antes de ter de o fazer. Em casa, tem à sua espera dois filhos pequenos e o namorado, com quem tem uma relação monogâmica, mas quis na mesma viver este ambiente para perceber como se sentia e o que lhe apeteceria experimentar. Cedo, chegou a resposta – “não é para mim”, diz Joana, de saída, uns minutos depois da meia-noite. Apesar disso, gostou de estar aqui e reconhece as razões pelas quais os participantes também gostam. Segundo a enfermeira, é realmente um lugar livre e inclusivo, onde o consentimento nunca é posto de lado.
A psicóloga voluntária que não quer divulgar a identidade reforça a mesma ideia. Conheceu a Shame Less Society através de outras pessoas que faziam parte da comunidade e a primeira vez que foi a uma festa, sentiu de imediato uma diferença para outros sítios que chegou a frequentar, como clubes de swing e de striptease ou saunas. “Foi a primeira vez que eu não me senti assediada numa discoteca. Foi a vez que estava mais despida e ninguém me tocou, nem me beijou sem perguntar, ninguém sequer se sentou ao meu lado sem perguntar. Era este o nível de consentimento. Toda a gente se apresentava a mim com um aperto de mão, com um nome fictício ou verdadeiro, e começávamos uma conversa genuína e autêntica”, recorda.
A festa chega ao fim às duas da manhã, hora a que começa a after-party, que dura até às 08.00 e para a qual é sempre necessário comprar um bilhete à parte. Ao contrário da enfermeira Joana, pronta a apanhar o Uber e ir para casa ter com a família, muitos ficam para trás, nos quartos, na pista de dança e no terraço. O verdadeiro bacanal está só a começar.
Site: shame-less-society.com | Instagram: shame.less.society
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