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Rodado em Cuba pelo soviético Mikhail Kalatozov, este hino à revolução cubana e ao comunismo não agradou nem a Havana nem a Moscovo, e foi esquecido. Nos anos 90, foi resgatado nos EUA por Martin Scorsese e Francis Ford Coppola. Estreou agora em Portugal.

No final de Fevereiro de 1963, o realizador russo Mikhail Kalatozov começou a rodar em Cuba uma grande produção intitulada Soy Cuba, um panegírico formalmente arrojado da revolução castrista que havia derrubado o regime autoritário e pró-americano de Fulgencio Baptista, e glorificador da ideologia comunista. Por essa altura, as relações entre Havana e Moscovo – que estavam no auge quando foi decidida a parceria cultural para rodar Soy Cuba –, haviam sido prejudicadas pela recente Crise dos Mísseis Cubanos. Nikita Khruschev tinha decidido retirar os seus mísseis do solo cubano sem consultar Fidel Castro. E este havia enviado a população em protesto para a rua, gritando frases como “Nikita, mariquita, lo que se da no se quita!”.
Apesar do ambiente de protesto contra a União Soviética orquestrado pelo governo que se vivia então em Cuba, a rodagem deste ambicioso filme de propaganda, co-produzido pela Mosfilm e pelo Instituto Cubano del Arte e Industrias Cinematograficos, e escrito pelo cubano Enrique Pineda Barnet e pelo poeta “oficial” soviético Yevgeni Yevtushenko, foi para a frente. Rodado num preto e branco deliberadamente muito contrastado, e com uma narração personificada pela própria Cuba, Soy Cuba decorre entre os últimos tempos do governo de Baptista e o triunfo da revolução castrista, e é composto por quatro histórias sobre exploração, miséria e revolta colectiva.
Na primeira, uma jovem que vive num bairro da lata tem que trabalhar como prostituta num cabaré de Havana, sem que o namorado saiba; na segunda, um camponês incendeia a sua exploração de cana-de-açúcar após o patrão a ter vendido aos americanos sem lhe dizer nada; na terceira, um grupo de estudantes conspira contra o regime e decide assassinar o chefe da Polícia; e na última, um camponês que recusa a violência junta-se à luta armada, após ele e a família quase terem morrido num bombardeamento feito pelas forças governamentais, e participa na queda do regime.
Inspirado pelo cinema de vanguarda soviético dos anos 20 e 30, Mikhail Kalatozov dispensou as convenções narrativas e cinematográficas do realismo socialista, e juntamente com o director de fotografia Sergei Urusevsky, transformou o filme numa exibição contínua de acrobacias técnicas, de inventividade visual e de poesia dinâmica, ao mesmo tempo que elogia, em estilo épico-arrebatador, a coragem do povo cubano, a violência revolucionária e o triunfo do comunismo. Como disse o realizador na altura, “estamos profundamente convencidos que a nossa filosofia, a nossa ideologia, a nossa crença filosófica, são as mais perfeitas de todas”.
Mas uma vez Soy Cuba concluído e estreado, em 1964, nem o poder cubano, nem o soviético, se mostraram particularmente entusiasmados (apesar de “Che” Guevara o ter então elogiado). Em Cuba, foi acusado de “estereotipar os cubanos” e de pecar por “exotismo”, e dividiu a crítica. E em Moscovo, foi visto como “insuficientemente revolucionário” e politicamente “ingénuo”. O público também não acorreu, e por ser abertamente uma obra de propaganda, não se estreou no Ocidente, sendo vítima da Guerra Fria e do embargo dos EUA a Cuba.
Até ao início dos anos 90, Soy Cuba permaneceu pouco ou nada conhecido, local e internacionalmente. Mas tudo mudou (e ironicamente) quando o filme foi exibido em dois festivais nos EUA, em 1992 e 1993, após o colapso da União Soviética e o fim do comunismo a Leste. Martin Scorsese e Francis Ford Coppola viram-no então, e ficaram tão impressionados e entusiasmados, que começaram a recomendá-lo e a divulgá-lo. Soy Cuba foi então comprado à Mosfilm pela Milestone, uma distribuidora independente dos EUA especializada em títulos esquecidos, pouco vistos e desprezados, mudos e sonoros, americanos e estrangeiros, que o restaurou e estreou no Film Forum de Nova Iorque em 1995. Em 2005, lançou-o em DVD, acompanhado por um comentário de Scorsese. Em 2021, um ano após ter postado no YouTube uma cópia do filme restaurada em 4K (a Milestone também já havia feito um restauro igual em 2018), a Mosfilm voltou a comprar os direitos de Soy Cuba.
Soy Cuba estreou-se na passada semana em Portugal pela mão da Midas Filmes, incluído no seu programa de estreias/reposições de Agosto, que incluem também A Saga de Anatahan, de Josef von Sternberg (já em exibição), e A Piscina, de Jacques Deray (repõe na quinta-feira, dia 20).
Resta dizer que em 2005, o realizador brasileiro Vicente Ferraz assinou um documentário sobre a génese e a rodagem de Soy Cuba, intitulado Soy Cuba: O Mamute Siberiano, que inclui entrevistas com algumas das pessoas que trabalharam nele.
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