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‘Springsteen: Deliver Me From Nowhere’: a história íntima de um álbum

Baseado no livro homónimo de Warren Zanes, Scott Cooper reconstitui a criação do disco acústico e intimista ‘Nebraska’, de Bruce Springsteen, no início da década de 80. Com Jeremy Allen White no papel do músico.

Escrito por
Eurico de Barros
Springsteen: Deliver Me From Nowhere
20th Century Studios | Jeremy Allen White, ‘Springsteen: Deliver Me From Nowhere’
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Em 1980, Bruce Springsteen tinha já gravado cinco discos, o último dos quais, The River, saído nesse mesmo ano, tinha sido o primeiro a atingir a tabela dos 200 álbuns mais vendidos da revista Billboard. A editora de Springsteen, a Columbia, entusiasmada com as vendas de The River, com o sucesso dos concertos da respectiva digressão, e com a crescente popularidade do músico nos EUA e internacionalmente (neste caso, desde o terceiro disco, Born to Run, de 1975), queria que ele se pusesse a trabalhar num novo álbum o mais depressa possível. Mas Springsteen tinha outras ideias. Especificamente, um álbum a contracorrente dos que tinha feito até aí. E que sairia apenas em 1982, intitulado Nebraska

Em 2023, Warren Zanes, crítico de música, professor e autor, entre outros, de livros sobre Tom Petty e Dusty Springfield, publicou Springsteen: Deliver Me From Nowhere, em que conta a história pouco conhecida da criação de Nebraska, o atípico disco de Bruce Springsteen, que o gravou sozinho, no quarto de uma casa de campo isolada de um rancho, que havia alugado em Colts Neck, no seu estado de Nova Jérsia, usando material de gravação básico, com a presença apenas, para apoio técnico, do seu engenheiro de som, Mike Batlan. É um álbum totalmente acústico, em que Springsteen toca todos os instrumentos, e cujas dez canções, bem como a sua identidade sonora e lírica, despojada, melancólica e sombria, são fruto de várias influências.

Estas vão desde filmes como Noivos Sangrentos, de Terrence Malick, As Vinhas da Ira, de John Ford, ou Sangue Selvagem, de John Huston, aos policiais de James M. Cain e aos contos de Flannery O’Connor, passando pela música de Bob Dylan, Woody Guthrie ou Hank Williams. Mas também, e principalmente, a infância infeliz do próprio Bruce Springsteen e a sua relação problemática com um pai que bebia demais, falava pouco e prestava atenção ao filho a menos. Este tinha apenas a mãe como presença segura em casa e como referência afectiva. Uma das canções de Nebraska chama-se mesmo “My Father’s House”. 

Este disco clara e profundamente autobiográfico e catárctico foi objecto de um minucioso e aturado trabalho de pós-produção, por causa da forma como foi gravado, tendo os engenheiros encarregues da tarefa demorado vários meses a conseguir atingir exactamente o tipo de som que Bruce Springsteen queria. Nebraska foi enfim editado em Setembro de 1982, sem que o músico desse entrevistas aos media nem que houvesse a respectiva digressão com concertos. Só foram editados dois singles, para a Europa e o Japão, e nenhum nos EUA. Na capa, uma foto a preto e branco tirada pelo fotógrafo David Michael Kennedy. Springsteen aparece apenas na contracapa, fotografado pelo mesmo Kennedy. Nebraska foi recebido pela crítica com aplausos, e também alguma reticência, e teve boas vendas.

Springsteen: Deliver Me From Nowhere
Mark SeligerJeremy Allen White como Bruce Springsteen

O filme Springsteen: Deliver Me From Nowhere, realizado por Scott Cooper, que também escreveu o argumento com base no livro homónimo de Warren Zanes, recria a singular e muito íntima génese artística de Nebraska, instalando um tom cinematográfico e dramático que Cooper quis que correspondesse quer ao clima musical e poético característico do disco, quer ao do estado de espírito e à disposição anímica de Bruce Springsteen na altura da sua composição. 

Esta é uma fita tão low key como Nebraska é lo fi. Jeremy Allen White (The Bear) interpreta Bruce Springsteen e Jeremy Strong personifica o seu grande amigo e fiel manager, Jon Landau (quer o músico quer Landau estiveram envolvidos neste projecto desde o início). O papel de Mike Batlan foi entregue a Paul Michael Hauser e o do pai de Springsteen, Douglas, ao actor inglês Stephen Graham. A australiana Odessa Young é Faye, o interesse romântico do músico.

A certa altura de Springsteen: Deliver Me From Nowhere, Jon Landau entrega a Bruce Springsteen, num restaurante em que estão a comer, o argumento de um filme, Born in the U.S.A., escrito pelo argumentista e realizador Paul Schrader, que este queria rodar com o músico e com Robert De Niro nos papéis principais. A fita nunca chegou a ser feita, mas o título seria o do álbum seguinte de Springsteen, já de novo com a sua E Street Band, e de uma das suas canções. Álbum este que inclui sete temas compostos ao tempo de Nebraska, que estavam na cassete original gravada na casa de Colts Neck, mas que acabaram por ficar de fora. “Sobras de luxo”, como escreveu então um crítico de música inglês.

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