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Tame Impala em Lisboa: desta vez, fomos todos convidados para a festa de Kevin Parker

Durante anos, a festa de Kevin Parker parecia acontecer apenas dentro da sua cabeça. Na Meo Arena, Tame Impala provou que hoje há lugar para todos – e que o projecto deixou definitivamente de ser um segredo bem guardado.

Hugo Geada
Escrito por
Hugo Geada
Jornalista
Tame Impala
DR/Arquivo | Tame Impala
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Em 2009, um jovem australiano chamado Kevin Parker, que viria a imortalizar o seu nome com Tame Impala, projecto musical em que se desdobra nos mais variados ofícios, escreveu a canção “Solitude is Bliss”, que incluia os versos: “There's a party in my head/ And no one is invited”. Estas linhas eram perfeitas para descrever a música desta banda e a personalidade do seu líder, um introvertido que estava mais interessado em passar tempo sozinho, rodeado de instrumentos e tecnologias musicais, para criar a sua arte. Mas também poderia ser aplicado aos seus fãs, que criaram um culto em torno deste messias do novo rock psicadélico.

Volvidos 17 anos, não estamos perante o mesmo Kevin Parker. Nem sequer perante o mesmo grupo de fãs (apesar de ainda existirem alguns resistentes). Com Deadbeat, lançado em Outubro de 2025, álbum em que o grupo explora sons mais ligados à música electrónica, e apresentado este domingo, 5 de Abril, em Lisboa, na Meo Arena – um dia depois de um concerto no Pavilhão Rosa Mota no Porto –, todos os fãs, novos e velhos, tiveram direito a uma guest para a festa de arromba que o australiano organizou. Curiosamente – ou precisamente por isso –, “Solitude is Bliss” não fez parte do alinhamento.

Depois de uma primeira parte realizada pelos londrinos RIP Magic, a Meo Arena foi-se enchendo com uma fauna particular, desde alternos que provavelmente acompanham a banda desde os tempos de Innerspeaker (2010) ou Lonerism (2012) – e que, se calhar, até são fãs de projectos paralelos como os Mink Mussel Creek ou Melody's Echo Chamber –, por betos de copo de vinho na mão, que se calhar só chegaram ao grupo com este trabalho mais recente ou através das faixas mais orelhudas de Currents (2015), que ouviram no TikTok, e pelo grupo que se encontra no meio destas duas tribos urbanas: os betos-alternos.

A entrada do concerto fez-se logo com uma carta de amor aos fãs mais antigos, com “Apocalypse Dreams”, de Lonerism, que trouxe um pouco do neo-psicadelismo sonhador do grupo para abrir as hostes, tendo sido recebido com uma enorme ovação e muitos telemóveis no ar. Esta versão, adaptada com um arranjo mais electrónico e com inúmeros feixes de luz impróprios para epilépticos, serviria como um aperitivo para o que esperar do resto da noite.

Após “The Moment”, com as drum machines a conviverem com guitarras moduladas, e “Borderline”, com uma das melhores linhas de baixo da noite, proporcionadas por Cam Avery, para aquecer a pista e deixar muito boa gente em êxtase, tivemos o momento da verdade. O primeiro momento Deadbeat, “Loser” (não, não é uma versão de Beck), a ser recebida em apoteose pelo público, com as primeiras linhas da música a serem acompanhadas aos gritos pelos fãs. “Já não estamos em Kansas, Toto”. Tame Impala já não era um segredo dos geeks da música há muito (MUITO) tempo, mas desta vez há uma sensação que estamos perante um autêntico fenómeno. Se em Currents ameaçaram, agora a banda rebentou com o nicho em que existia e entrou no mainstream, como se pôde perceber também pela forma como “Dracula” foi recebida. Tame Impala é das massas, é de todos, não tendo perdido qualidade nem a atenção minuciosa ao detalhe que nos fez apaixonar pelas músicas.

Esta postura é sentida pela forma como Kevin Parker se apresenta em palco, mais confiante, extrovertido e com a confiança de uma estrela global. A certa altura recorda-nos que esta é a primeira vez que estão a dar um concerto em nome próprio em Lisboa e como isso os deixa feliz, uma vez que considera Portugal um dos seus “sítios favoritos”. Elogia ainda o “espírito português” depois de os fãs terem ajudado a socorrer uma pessoa que se sentiu mal.

Somos brindados com grandes canções, como “Elephant” ou “Feels Like We Only Go Backwards” – e que bom foi ver a velha e gasta Rickenbacker 335 de Kevin –, que nos fazem recordar verões psicadélicos em Paredes de Coura, com incursões mais recentes e electrónicas como “Breathe Deeper” ou “Afterthough”, que nos transportaram para um club. Até que chegamos a um dos momentos mais especiais do espectáculo.

Kevin abandona o palco e, através de gravações transmitidas nos ecrãs gigantes, observamos o australiano a deslocar-se pelos corredores – a fazer uma pausa para urinar – e a surgir num palco no centro da Meo Arena onde, ora sentado ou deitado, produzia em directo algumas das faixas com mais influências de house e techno de Deadbeat: “No Reply”, “Ethereal Connection”, “Not My World”. Para quem não nos queria convidar para a festa dentro da sua cabeça, esta foi uma das formas mais pessoais que o artista encontrou para partilhar com o público como foi o processo criativo que levou à construção de um dos mais importantes e influentes espólios musicais do século XXI – sozinho e fechado no seu quarto, rodeado de drum machines e sintetizadores. Apenas iluminado por um feixe de luz no topo do pavilhão e uns candeeiros que ajudavam a criar ambiente, este foi um dos principais momentos da noite.

Depois de regressar ao palco ainda ouvimos muitos bangers, como a inevitável “Let It Happen”, que continua a bater como em 2015; “Alter Ego”, uma das melhores canções da discografia da banda; e “Yes I’m Changing”, “Eventually” e “New Person, Same Old Mistakes”, munidas com jogos de luzes impressionantes e por vários disparos de confetis.

O encore fez-se com uma versão despida de “My Old Ways”, com Parker a cantar sentado no palco; “The Less I Know The Better”, com uma das melhores linhas de baixo do nosso tempo; e encerrou com as intensas batidas de “End Of Summer”, que não estariam muito deslocadas de um festival como o Neopop.

“A minha vida é muito louca e quando todos vocês cantam as minhas músicas, sinto-me muito grato”, confessou Kevin. Não foi só o artista que se sentiu assim. A grande maioria da audiência também estava grata por ter participado nesta celebração da nova fase da vida do australiano.

Obrigado pelo convite, Kevin. Volta sempre.

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