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O projecto Geradora nasce de uma parceria com o Instituto Superior de Agronomia e vai ocupar sete mil metros quadrados. A inauguração deverá acontecer até à Primavera de 2026.

Geradora: um nome para decorar nos próximos meses. Em plena Tapada da Ajuda e fruto de uma parceria entre o Grupo Esporão (responsável pela Herdade do Esporão, no Alentejo, famosa pelos vinhos e azeites) e o ISA (Instituto Superior de Agronomia), está prestes a abrir as portas um espaço que vai juntar um restaurante, uma loja e um museu, tudo ligado por uma agenda cultural que tem já 70 eventos previstos para o próximo ano. A inauguração deverá acontecer nos primeiros meses de 2026, até à Primavera. “O edifício era uma geradora de electricidade a carvão, portanto o nome vem daí”, explica João Roquette, presidente do conselho de administração do grupo Esporão.
Comecemos por situar a Geradora: afinal, a Tapada da Ajuda tem mais de 120 hectares e cinco entradas. O edifício encontra-se no perímetro da Tapada, na entrada mais próxima do Palácio da Ajuda. “Quando foi construída tinha o propósito de produzir energia para o Palácio e para o polo académico do ISA. Foi tendo vários usos e o mais recente foi albergar aulas da parte mecânica. As máquinas estavam todas lá, havia armazéns e várias aulas. Quando avançámos para dar nova vida ao espaço, decidimos manter o nome no sentido de gerarmos ali ideias novas, criatividade e investigação”, continua.
A notícia foi partilhada num almoço no dia 2 de Outubro na Herdade do Esporão, que serve também como selo de qualidade para este novo projecto que ocupa cerca de sete mil metros quadrados na Tapada da Ajuda, com o edifício a preencher à volta de dois mil. Lá dentro, o espaço de restauração é central e está apoiado por uma loja de vinhos e um museu. “Terá o acervo do ISA sobre a agricultura em Portugal, que é uma coisa fenomenal”, garante João Roquette, acrescentando que “o próprio edifício é uma recuperação, com armários e cadeiras antigos”.
Os diferentes espaços estarão identificados, mas sem paredes. “Tem pés direitos muito altos, com uma arquitectura industrial do início do século, mas o que se pretende é que as pessoas possam circular livremente.”
Do piso térreo, duas escadas conduzem até ao andar inferior (onde inicialmente se guardava o carvão), onde estará uma mesa de provas e uma garrafeira. “Teremos também uma galeria com uma exposição que fará a transição entre o mundo dos vinhos e possivelmente um mundo ligado à história de arte.”
Tudo começou quando o grupo Esporão percebeu que o escritório de Lisboa era demasiado pequeno para as mais de 30 pessoas que já lá trabalhavam. Além disso, havia a vontade de partilhar o que por ali se desenvolvia. “O nosso trabalho é um bocadinho provar, dar a provar, ouvir as pessoas, aproveitar a troca de ideias”, diz João Roquette. Queriam um espaço no centro da cidade, mas encontrar uma área grande não foi evidente à partida. Até que, depois de uma reunião na Câmara Municipal de Lisboa para apresentarem o projecto – e onde lhes foi proposto criarem uma vinha junto do aeroporto, algo que o Grupo Esporão recusou de imediato –, lhes sugeriram um contacto com o ISA. No Instituto, o projecto criou logo interesse, mas foi preciso abrir um concurso público, já que o edifício faz parte do património público.
“Acho que o que esta direção [do ISA] está a tentar fazer é, por um lado, trazer mais energia e mais interacção com o exterior da academia, mas que esteja alinhada com a missão da própria academia, e, ao mesmo tempo, recuperar o património — não há um metro quadrado de construção adicional àquilo que lá estava – que está degradado”, diz João Roquette.
“Demorou um ano, mas ganhámos o concurso e isso dá-nos o direito de lá estar durante 30 anos mediante um investimento de recuperação daquele espaço e também de um protocolo de investigação que assinámos com o ISA. Ficou claro desde o início que tínhamos a missão de acrescentar algo à missão académica e aos projectos de investigação. E isso para nós é muito interessante”, revela João Roquette. Mais concretamente, haverá projectos relacionados com as alterações climáticas, com a função do lúpulo na cerveja ou com o azeite na utilização em laboratório.
“Este é um projecto pré-Covid”, explica José Roquette, o patriarca da família Roquette e do Grupo Esporão. O entusiasmo com que fala dele revela a satisfação de poder finalmente partilhar o que estava a ser preparado quase em segredo no meio da Tapada da Ajuda e a pressa de ver a ideia a dar frutos. “Espero que dê algum sinal ao país de que há realmente gente no sector da economia privada que se preocupa com a transmissão de conhecimentos objectivos, que se preocupa em procurar talentos.”
Apesar de ser uma aposta ambiciosa – “porque estas coisas não se fazem com alguns milhares de euros” –, o objectivo é claro: “Pretendemos ter qualquer coisa a funcionar que vá criar uma relação diferente entre academias e empreendedores e que isso possa servir para dar algum exemplo. Porque, normalmente, nesta nossa terra, falamos muito, mas fazemos pouco, não é?”
Com 89 anos feitos há apenas umas semanas – e depois de ter acumulado negócios nas áreas do vinho e do azeite, conquistado prémios e passado pelo Sporting Clube de Portugal como presidente –, a Geradora é um projecto muito especial para José Roquette. “Nesta altura da minha vida, é uma aposta que eu gostava muito de poder ver se foi ganha ou se não foi ganha. Isto é, se realmente teve o impacto com que foi sonhada ao princípio.”
O restaurante da Geradora terá acesso a matéria-prima que está logo ali: há uma vinha, um olival e uma adega onde já se produz vinho e aguardente. Da carta também farão, certamente, parte opções como figos da Índia. “Temos muitos no caminho pedonal que estamos a construir do estacionamento até ao edifício [são cerca de 150 metros] e que passa pelo meio de um eucaliptal.”
O espaço está a ser pensado para ser um bistrô, com um ambiente descontraído, aberto de segunda-feira a domingo, com serviço à la carte e sugestões que hão-de variar consoante a estação e a matéria-prima disponível. Haverá 48 lugares, com a capacidade a aumentar no espaço de esplanada nos meses mais quentes.
A programação cultural já tem cerca de 70 eventos agendados. Estará sobretudo centrada na música, mas terá também recitais de poesia, exposições, feiras de vinhos e workshops direccionados para famílias. Exceptuando os eventos específicos com parceiros, como uma feira de agricultura, por exemplo, toda a oferta será gratuita e estará dividida entre os espaços exterior e interior. “Queremos que a programação cultural traga as pessoas. Podem passar ali umas horas, a respirar, no meio de sobreiros, sem o ruído dos carros. Podem vir ver um concerto e ficar para jantar ou beber um copo, e as crianças têm espaço para estar à vontade.”
Para o Grupo Esporão, a Geradora e a parceria criada com o ISA não são apenas formas de a marca ter mais peso na capital, mas sim a vontade de transmitir conhecimentos e construir uma relação duradoura. “Queremos transmitir conhecimentos, estreitar a relação e torná-la evidente. Em Lisboa temos uma parte importantíssima do marketing, sobretudo do marketing de exportação e tudo aquilo que tem a ver com tecnologias de informação. Portanto, isso podem ser aulas práticas, por exemplo”, diz José Roquette.
No Esporão há funcionários que foram formados no ISA e o objetivo é que sejam cada vez mais – não só na herdade em Reguengos de Monsaraz, como nas várias vertentes da Geradora. “Encontrar talentos e dar oportunidade é fundamental. Os talentos não se vendem no supermercado”, diz José Roquette, que refere por diversas vezes um desejo: “Gostaria de ter mais algum tempo para ver se isto resultou, não só do ponto de vista de termos novas instalações e mais um serviço de gastronomia. Para mim, foi muito importante encontrar uma relação [com o ISA] que tivesse a capacidade de começar a transmitir mais cedo às gerações futuras a importância daquilo para que estão a preparar-se”.
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