Notícias

Thiago Lacerda: “Enquanto houver um ser humano de pé, o Shakespeare é actual”

A estrela da Globo está de volta a Lisboa com um monólogo shakespeariano. A estreia acontece a 29 de Novembro, no Estúdio Time Out.

Raquel Dias da Silva
Escrito por
Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
Thiago Lacerda
© Marcelo Elias | Thiago Lacerda
Publicidade

Estávamos em 2004 quando Thiago Lacerda, o galã de olhos verdes da televisão brasileira, subiu pela primeira vez aos palcos portugueses com uma adaptação de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago. 21 anos depois, volta a Portugal com o monólogo Quem Está Aí?, que adapta três peças de Shakespeare: Hamlet, Medida por Medida e Macbeth. A estreia está marcada para 29 de Novembro, no Estúdio Time Out, onde fica em cena até 3 de Dezembro. “Foi muito difícil realizar esta volta, mas cá estamos e é uma alegria imensa”, diz-nos o actor carioca, que confessa amar a maneira como sempre foi recebido no país e “a sensação de estar em casa, entre amigos”. “Tem sido sempre surpreendente a maneira como as pessoas se conectam com a provocação humana do texto.”

Foi há 13 anos, em 2012, que Thiago Lacerda iniciou uma parceria com Ron Daniels, brasileiro radicado em Nova Iorque e director honorário da britânica Royal Shakespeare Company de Stratford-upon-Avon. Desde então já produziram juntos quatro espectáculos, este é o quinto. “É uma reflexão sobre a natureza humana, e é sempre pertinente essa provocação a respeito de nós mesmos”, afirma Lacerda, que se diz um apaixonado por Shakespeare. “Nós temos em repertório as três peças [Hamlet, Medida por Medida e Macbeth] e decidimos criar uma narrativa a partir dos principais monólogos dos personagens, que procuram responder à grande questão da humanidade. Quem somos nós? Quem está aí? É uma pergunta que permeia a obra… A dureza que é entrar em contacto com quem nós somos e a realidade do que nos cerca.”

Em palco, não há artifícios: é o corpo e a palavra. O cenário está limitado a uma mesa e uma cadeira. Por trás do actor, projecta-se uma gravação do monólogo, que nasceu durante a pandemia, “por uma necessidade de permanecer em contacto com o público” e que agora se apresenta “como uma memória daquele tempo”. “Como é que o actor, usando a técnica de dizer o texto, convoca a nossa imaginação e reflexão? A gente não tem truques cénicos, não tem sequer iluminação. Esse recurso tecnológico é apenas uma tentativa de oferecer para as pessoas outra maneira de ver, o que foi e o que é. Tem a experiência do ao vivo, do olhar, da carne presente, mas tem também um eco, que é uma metáfora pessoal a respeito do eco da palavra shakespeariana ao longo dos séculos”, explica.

Com uma naturalidade desarmante, Thiago Lacerda promete transfigurar-se em Hamlet, o príncipe da Dinamarca com desejos de vingança; Ângelo, o juiz puritano que se revela corrupto; e Macbeth, o rei assassino que, pronto para enfrentar a sua própria morte, admite todo o horror que sente a respeito de si mesmo. “Quem de facto somos nós, verdadeiramente? Eu acho que Shakespeare revela esse animal em conflito constante, e estas três personagens, cada um à sua maneira, falam dessa natureza viva, potente, humana e também precária. Esse lobo que reside dentro de nós, ele é contido pela civilização, mas por vezes aflora. Somos bicho”, avisa o actor, que é um fã dos clássicos e acredita que histórias como as que nos traz podem servir-nos de aviso. “São sempre pertinentes, sempre actuais, e provocam sempre qualquer coisa na plateia.”

A preparação foi toda feita à distância, com o director em Inglaterra e o actor no Brasil. “Mas tudo certo, é um desafio gostoso”, garante Lacerda, que estará sozinho em palco durante cerca de 45 minutos. “Eu já tenho um jogo de cintura com estes passeios emocionais, é difícil de explicar, é preciso ver. Fisicamente exige, eu transpiro muito, porque o estado de concentração para acessar as imagens é muito grande. Procuro concentrar-me na ideia de que o que a gente faz é um sacerdócio, que existe a partir da simplicidade da tradição antiga da contação de histórias.” Por outro lado, sente-se extremamente grato pela conexão com Ron Daniels, que é a razão para, no fundo, aqui estar. “Há um entendimento comum a respeito do que a gente faz e eu gosto muito da maneira como ele enxerga o teatro.”

A vinda a Portugal, depois da estreia em Angola, era “inevitável”. “Sempre me senti atraído por Portugal e, desde a primeira vez, acho que o país nunca saiu de mim. Já são 25 anos de idas e vindas e é sempre lindo. Lisboa é uma das minhas cidades favoritas do mundo”, assegura o actor, que não esconde a vontade de voltar em 2026, quem sabe com um novo monólogo. “Nós já traduzimos Um Sonho de Uma Noite de Verão. Está na gaveta, mas se eu pudesse escolher uma peça para montar seria essa. E é uma peça linda. Trata da dicotomia que nos constitui: a luz e a escuridão, o bem e o mal, o que é percebido e o que não é percebido. Eu adoro essa ideia. O Shakespeare era um cara incrível, e enquanto houver um ser humano de pé, o Shakespeare é actual. O Ron brinca e diz que ele escreveu uma única peça e que vira o ponto de vista 38 vezes sobre um mesmo tema. É a tragédia da alcova, da nossa intimidade, do que acontece quando a luz apaga.”

“Shakespeare era um cara incrível”

Aproximar o público de Shakespeare, mas sobretudo da literatura clássica. É essa a grande ambição de Thiago Lacerda, que gostava de levar esta e outras peças a mais países de língua portuguesa. “Desde o meu primeiro encontro com o Ron Daniels, esse grande mestre, que a nossa proposta é uma só: trazer a narração das fábulas da forma mais directa possível ao entendimento da plateia, para que não fique a ideia que a gente não está à altura de Shakespeare. No Brasil, não sei como é aqui, existe uma erudição que envolve a obra e que distancia os artistas e o público das histórias, mas o Shakespeare era um autor popular. Então, o público participar da trajectória dramática, compreendendo o conflito dos personagens, é essencial.”

Depois desta passagem por Lisboa, segue-se a estreia no Porto, com duas sessões – uma das quais já esgotada – na Sala M.Ou.Co. Mas, se não tiver oportunidade de o ver ao vivo, Thiago relembra que também está no streaming, na HBO Max, com a minissérie Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, na qual interpreta o colunista social Ibrahim Sued. “É uma história incrível e urgente, que muda a forma do Brasil encarar os crimes contra a mulher. E eu lembro da minha juventude, de não me fazer nenhum sentido aquele lugar mágico, a Praia dos Ossos, ser palco de um crime como esse. É importante que se fale sobre isto para que a gente não permita que siga acontecendo da forma como a gente sabe que acontece. Ainda hoje todo esse horror é possível. Parece ficção e não é. Faz parte do nosso dia-a-dia de um jeito muito humilhante e é preciso ter coragem de botar o dedo nas feridas. O Shakespeare também faz isso.”

Estúdio Time Out (Cais do Sodré). 29 Nov-3 Dez, Sáb-Qua 21.00. 23€

🗞️ Mais notícias: fique a par das novidades com a Time Out

📲 Siga-nos nas redes sociais: Whatsapp, Instagram, Facebook e LinkedIn

Também poderá gostar
Também poderá gostar
Publicidade