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A Escola de Calceteiros de Lisboa fez 40 anos e continua a formar pessoas na arte de partir, afinar e desenhar com pedra. Mas quem quer fazê-lo?

É duro para as costas, joelhos e mãos. Trabalha-se em qualquer circunstância climatérica, à excepção da chuva, que empapa os terrenos arenosos onde o calcário deve assentar. Ao mesmo tempo, a profissão de calceteiro é pouco reconhecida e mal remunerada. Na autarquia lisboeta, o ordenado base dos assistentes operacionais (que vão cumprir o papel de calceteiros) foi recentemente ajustado para 934,99 euros, um pouco acima do salário mínimo nacional. Face a isto, há um problema crónico de falta de profissionais e, como consequência, muito a fazer em Lisboa. Se isto explica os buracos na calçada? Não todos.
"Mesmo para fazer a calçada regular [sem padrões] é preciso formação", começa por enquadrar Nuno Serra, o único formador da Escola de Calceteiros de Lisboa, fundada em 1986. Não havendo investimento no ensino, abre-se a porta para criar "calçada de má qualidade, que se vai degradar num mês". Pelo contrário, "se a calçada for bem feita, não é a chuva nem o uso que a vão destruir rapidamente", assegura o responsável, deixando a ressalva de que, ainda assim, nada resiste a camiões com toneladas e em constante trânsito, como acontece, por exemplo, na Rua das Portas de Santo Antão.
Há regras básicas para assentar a pedra nas suas diferentes técnicas: primeiro, a terra deve ser "muito bem compactada"; depois, uma das das faces de cada peça deve ser cortada de forma a ficar pontiaguda e fixar-se no solo; por fim, as pedras devem ser colocadas bem juntas, "sem folgas entre elas". Se um destes pontos não se cumpre, é o início do fim. "Aí vai-se criar uma má imagem da calçada, que não corresponde à realidade", sublinha o formador, que defende que a calçada pode ser incómoda ou perigosa sobretudo quando não é bem feita. Também na vertente artística, a falta de formação pode provocar resultados perturbadores nos passeios de Lisboa.
No anúncio publicado em Fevereiro pela Câmara Municipal de Lisboa (CML), com 20 vagas para calceteiros, o requisito é ter “escolaridade obrigatória”. Nas provas práticas, ainda assim, “as pessoas têm de mostrar competências técnicas”, afirma Nuno Serra. Actualmente, a brigada da autarquia é composta por menos de 20 profissionais (nos anos de 1940, período de ouro da calçada portuguesa, eram mais de 400). Os restantes trabalham directamente nas 24 juntas de freguesia, contratados tanto para cooperar na manutenção da calçada como para montar barracas num arraial. "Nós fazemos de tudo", garante-nos um trabalhador da Junta de Freguesia de São Vicente, na escola dos Olivais. Mas já lá iremos.
Além destes dois planos, a autarquia recorre com frequência a empresas externas, em regime de outsourcing. "É bom? É mau? Depende. Na Praça do Império fez-se um excelente trabalho, porque houve um bom acompanhamento", exemplifica Nuno Serra. O importante, defende, é que haja monitorização, até porque, apesar de existir um guia de boas práticas e um conjunto de regras com vista a proteger a calçada de intervenções incorrectas ou grosseiras, elas continuam a ocorrer no espaço público.
A Escola de Calceteiros recebe entre 12 e 15 formandos por ano. Muitos são encaminhados pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), até porque no fim dos cursos de longa duração é conferida uma equivalência de escolaridade. Outros são trabalhadores das juntas de freguesia (nos últimos oito anos, cerca de 70 funcionários receberam formação) e outros, ainda, são curiosos que querem pôr em prática a técnica da calcetaria. Todos os cursos, sublinhe-se, são gratuitos.
Na formação de Maio, encontrámos de tudo, até Catalina Saubaber, artista que veio expressamente do Uruguai para conhecer a calçada portuguesa. "Trabalho com pedra, mas precisava de mais ferramentas e quero muito recuperar técnicas antigas. Então percebi que existia a calçada portuguesa e quis aprender a picar, usar o corpo, entender o trabalho dos calceteiros. Agora, pergunto-me por que é que a calçada não é vista como uma obra de arte. Se num museu há todo um sistema de protecção, como é aqui se pode furar o chão para pôr um cartaz de publicidade? Acho que as pessoas deviam valorizar mais", expõe.
A candidatura da “arte e saber-fazer da calçada portuguesa” ao Inventário do Património Cultural Imaterial da Humanidade foi entregue em Março de 2025 à Comissão Nacional da UNESCO, sob a defesa de "preservar e promover esta arte, que corre o risco de extinção", como defende a Associação da Calçada Portuguesa (ACP), que liderou o processo. O perigo, afirmam, relaciona-se não só com a diminuição do número de mestres calceteiros a nível nacional, mas também com o declínio das indústrias extractivas e de transformação de pedra e com a forte concorrência de outro tipo de pavimentos.
Em Lisboa, são várias as obras de reabilitação do espaço público que envolvem a substituição de calçada portuguesa pelo chamado "pavimento antiderrapante", uma mistura de cimento com brita fina. Na base está a preocupação com a mobilidade segura dos peões, sobretudo os mais idosos. Mas Nuno Serra, formador da Escola de Calceteiros, lembra que a calçada em "xadrez", composta por calcário e granito (este último, não polido) é igualmente uma solução antiderrapante (um exemplo está à saída da estação de metro Baixa-Chiado, na Rua da Vitória).
João (nome fictício), outro formando da Escola de Calceteiros, está de volta de uma caixa de madeira de 60 centímetros quadrados e 15 de altura, cheia de areão, a explorar a técnica do puxado ao quadrado. "Toda a minha vida trabalhei com computadores. Agora quis saber quanto custa estar aqui a fazer isto, até porque temos tendência para desvalorizar o trabalho manual", enquadra o lisboeta aposentado. Numa caixa ao lado, o funcionário da Junta de Freguesia de São Vicente, Olímpio Miguel, explica quanto custa: "Para as costas é muito duro, desgastante, e há também muita gente a queixar-se dos joelhos. Não é trabalho para toda a gente."
Olímpio aprendeu a fazer calçada há três anos – "observei os outros, foi muito rápido", conta – e esta é a segunda formação na área que frequenta. Em São Vicente, todos os dias "há buracos para tapar", desde as pedras que saltam com a força das raízes até às que sofrem com a pressão automóvel diária, como no passeio da Rua da Voz do Operário, onde os pais param o carro para levar os filhos à escola, exemplifica o funcionário.
É preciso "valorizar quem faz calçada", resume Nuno Serra, enquanto dá orientações aos formandos. "Até podemos ter 100 calceteiros, que não seriam suficientes, mas se os tivermos motivados e bem remunerados, é totalmente diferente. De que me servem 100 se não fazem um bom serviço? Isto é um trabalho difícil e é preciso gosto", continua. Os calceteiros, no entanto, "são equiparados a assistentes operacionais e existe uma tabela para essas categorias, que é o que é", como declarou ao Público no ano passado o presidente da ACP, António Prôa. O dirigente acredita, por isso, que deveria ser criada "uma carreira profissional especial de calceteiro", de forma a permitir reconhecer (e recompensar financeiramente) a especificidade da profissão, deixando para trás a perspectiva de que se trata de um ofício genérico.
Em Janeiro deste ano, o Governo anunciou a criação de um grupo de trabalho dedicado à calçada portuguesa, com o objectivo de estudar a situação actual e de propor medidas de valorização da técnica e da profissão num prazo de seis meses. Contando desde a publicação da medida em Diário da República, o prazo termina a 26 de Julho.
Sabe-se, ainda, que a Unidade de Intervenção Territorial do Centro Histórico da Câmara Municipal de Lisboa está a desenvolver um projecto com vista à preservação de moldes da calçada artística, como noticiou a RTP. Dos quase 6000 moldes existentes, foram inventariadas cerca de 3000 peças. Todas elas estão guardadas num armazém municipal, em Alvalade.
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