Misturadas com as memórias do Vá-Vá estão as da juventude, e essa não volta. Há, no entanto, um fervilhar de entusiasmo quase juvenil entre os cabelos grisalhos que neste fim de tarde de Outubro comemoram e tentam saber tudo sobre o regresso do mítico café à vida da cidade. Ajudam as ostras, os croquetes e os peixinhos da horta, circulantes ao ritmo acelerado da máquina de onde saem imperiais, tudo por conta da casa, como deve ser uma festa. A "grande inauguração", anunciada nas redes sociais, deu-se praticamente um ano depois de as portas do espaço terem fechado, na sequência de uma longa fase de pouco brilho. E, para já, o saldo é este: "Está muito mais bonito", dizem os curiosos.
Comecemos, então, pela estética. Após diferentes versões, o lettering recupera os dois acentos do nome e coloca-lhe um hífen: Vá-Vá, assim se lê. Passados o toldo e a esplanada, no interior sobressai o balcão em U em lioz maciço, os bancos e cadeiras de um aveludado azul e, claro, os famosos painéis cerâmicos de Menez, de 1958, ano em que a vida desta Loja com História começou. "Já viste? Uma sala com tantos anos e continua linda", comenta uma visitante, entre a esmagadora maioria de uma clientela de classe média-alta que veio ver a nova vida do Vá-Vá.
Sobre o resto, mais do que tudo, há expectativa e cautela. "Isto mudou e nunca poderá ser o que era há 50 anos. O Vá-Vá era uma coisa bestial", declara à Time Out António Bandeira, morador da zona e frequentador do espaço desde os anos 60, altura em que o café se celebrizou pela frequência de intelectuais, artistas, estudantes, opositores do regime e muitos outros (na mesma década, foi aqui idealizado e filmado o modernista Os Verdes Anos, de Paulo Rocha), e pela ambiência de tertúlia e discussão (as primeiras organizadas, as restantes espontâneas).
Para explicar a evolução do Vá-Vá desde esses tempos até hoje, António Bandeira desenha curvas com as mãos, tendo o auge como ponto de partida. A primeira mudança representa-se pelo declínio, depois há uma subida e, por fim, dá-se a estagnação. E agora? "Agora vamos ver", acautela-se o antigo cliente, para logo a seguir a mulher, Isabel Bandeira, acrescentar: "Espero que este lugar volte a ser um ponto de encontro, um lugar para a partilha de gerações. Aqui na zona também perdemos a Suprema, e não há muito mais. Faz muita falta um espaço onde possamos estar juntos e conviver."
O espírito do lugar
"As crises" e as mudanças de mãos por que passou o Vá-Vá foram algumas, redundando por vezes em remodelações e decorações pouco cuidadas – que fizeram desaparecer da vista os azulejos de Menez ou que puseram em destaque fotografias de pizzas nas paredes – a serviços de pouca qualidade. E de cada vez que o café fechava portas, de alguma forma, renascia a esperança de que regressasse melhor, como acontece agora. "O que eu espero é poder vir cá nos próximos 15 a 20 anos e sentir-me bem", seja para beber um copo ou para comer um bife à Vá-Vá (que regressou, com a nova gerência, ao menu), expõe Alfredo Machado, que aos 18 ou 19 anos começou a frequentar o café. "Comecei a vir cá há 65 anos, é muito tempo. E por que é que vinha? Porque também vinham o Paulo de Carvalho, o Fernando Tordo, o José Cid, os artistas todos. A gente vinha quase só para os ver. Depois, era um café que fechava às duas da manhã, com um grande ambiente, onde podíamos ficar a ter as nossas conversas", descreve.
Até ao 25 de Abril, o Vá-Vá foi um lugar para pensar em voz alta, que juntava no mesmo eco artistas, críticos do regime, mas também contabilistas, lojistas e outros trabalhadores. Era esse o ponto. O espírito perdeu-se, em grande parte, quando uma remodelação criou uma fissura no espaço: de um lado, ficava o Vá-Vá dos ricos, do outro, o dos pobres. Com os anos, vieram outros "tiros no pé", como a alta rotatividade dos funcionários ou a falta de presença de uma figura-base do lugar, como foram os seus fundadores, os irmãos Petrónio e Luís Gonzaga.
A cervejaria e a bola
A sociedade que quis agora pegar no Vá-Vá é a mesma que lidera os destinos do Ensaio, o gastro-bar do Teatro Maria Matos. À mesa da cervejaria, dias depois da inauguração (o espaço teve de fechar logo a seguir devido a problemas na canalização e reabriu quinta-feira, 13 de Novembro), Jorge Dias, um dos responsáveis, explica que a equipa tem "um especial gosto por espaços da cidade com história". Quando viram o Vá-Vá fechado, tomaram-no como uma oportunidade. A vontade foi de recuperar aspectos do café original, como o facto de ser um espaço aberto, ou pratos como o Bife à Vá-Vá (25€) ou o Bacalhau à Brás (22€). "Também quisemos dar ênfase aos painéis", explica, apontando para as cores claras das paredes e para a iluminação, a ajudar no contraste.
Já a opção por uma cervejaria tem várias justificações: primeiro, segundo Jorge Dias, "fazia falta uma na zona"; segundo, os sócios não têm experiência nem interesse em pastelaria, para que pudessem retomar o conceito que vigorava anteriormente no espaço; terceiro, agrada-lhes a ideia clássica de um sítio onde se possa comer bem e fora de horas (a cozinha está sempre aberta, das 12.00 às 00.00), conviver, ver a bola e beber umas cervejas. Embora os preços não sejam para todos os dias nem para todos os bolsos, houve a preocupação de colocar na ementa um prato do dia (por uma média de 15€) e uma variedade de petiscos, como croquetes (1,80€) ou um prego no pão (9€). "Queremos devolver o Vá-Vá ao povo, que seja um sítio onde possam vir ver jogos de futebol, conversar, que não seja um sítio de elites", diz o gerente.
Se o Bife à Vá-Vá sabe ao mesmo que antigamente os mais velhos terão ainda de o apurar. Humberto Costa, que serviu às mesas durante 22 anos no café e que apareceu de surpresa no espaço no dia da abertura, garante que vai fazê-lo. "Estou muito contente com isto. Tinha de vir cá ver! E um dia destes dias venho cá almoçar."
Ainda com pontos por afinar, o Vá-Vá é hoje "outra coisa", todos sabem que sim. Mas querem que essa "coisa", que é bem mais do que um serviço de cozinha (nunca o descurando), possa perdurar.
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