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A Gulbenkian abre, este sábado, três exposições. Zineb Sedira evoca os movimentos de libertação e contestação dos anos 60 e 70, o CAM expõe 160 das suas obras e há ainda um novo projecto a aproximar o público do processo criativo.

Sentem-se efeitos de Setembro e da rentrée cultural no Centro de Arte Moderna Gulbenkian. A poucos dias de dar por terminada a última grande exposição da temporada anterior – a que juntou as obras de Paula Rego e de Adriana Varejão debaixo do mesmo texto e em conversa directa –, há três novas exposições para visitar já a partir deste sábado. Um ano depois da reabertura, a dança curatorial do renovado CAM continua a apontar em várias direcções – artistas internacionais desafiados a expor a solo, uma colecção própria que se reinventa na forma de se apresentar ao público e uma vontade de envolver os públicos, descolando-os do papel de meros visitantes.
É neste último eixo que o projecto Institution(ing)s se materializa, fundado na cooperação entre oito organizações de sete países europeus. Vai ocupar o Espaço Engawa até 2028 e, sob a coordenação da Universidade Católica Portuguesa, acolher grupos de leitura, workshops, residências, campanhas de sustentabilidade, entre muitas outras iniciativas. No centro estará sempre a arte, que aqui surge numa versão bem mais laboratorial e não no formato clássico de uma exposição. Até 12 de Janeiro, a galeria está ocupada por Francisco Trêpa (finalista do Prémio Novos Artistas Fundação EDP) pelo seu "Baile dos Bugalhos", mostra dinâmica, com peças ainda em execução, que transporta para o CAM o espaço de trabalho do próprio artista.
A 18 de Agosto, Trêpa ocupou as reservas do centro para produzir uma última peça para a exposição. Acabaria por trazer aquilo a que chama uma extensão do estúdio para a galeria. Não há forno para cozer as esculturas em cerâmica, mas há uma bancada grande o suficiente para dar os últimos retoques a algumas delas. Trouxe também uma estante e umas quantas criações de outras empreitadas. Entre elas está uma peça que fez aos 15 anos, mas também uma encomenda recente.
"Este é o espaço onde vou terminar peças, incluindo alguns desenhos. Porque os bugalhos fazem uma tinta, a tinta ferrogálica – que era usada pelo Leonardo da Vinci e outros artistas –, muito duradoura. Há peças que projectei para o jardim, mas que não podem estar no jardim e vão estar aqui em imagens. E esses desenhos serão postos por estas paredes. Sei que haverá contacto com o público e que isso será certamente um desafio. Eu preciso muito de foco para trabalhar naturalmente, por isso é que isto é uma extensão do meu estúdio. Há coisas que serão feitas lá e que serão depois terminadas aqui", explica o artista.
Na ampla galeria, que tem vista privilegiada para o jardim do lado sul, bailam os bugalhos de Francisco Trêpa. Trabalhos esculturais em cerâmica e lã embebida em parafina que partem de um fenómeno natural e inter-espécies – o carvalho cria estas esferas densas em reacção aos ovos das vespas – para criar um rol de personagens próprias, com traços de insecto. Ao longo da exposição, as esculturas recriam momentos – observados e imaginados – desta interacção parasitária. "Foi algo que me fascinou. O bugalho é algo do nosso mundo, mas parece que veio de outro mundo. É como se um animal tivesse um filho com uma planta", refere o autor. As peças inacabadas estão ao longo do percurso. Por vidrar ou por cozer, o trabalho vai sendo feito ao longo dos próximos meses.
Estamos no Espaço Projecto do CAM, mas a exposição "Standing Here Wondering Which Way to Go", de Zineb Sedira, situa-nos noutro tempo e noutro espaço. Em 1969, em clima de efervescência política e social, acontece o primeiro Festival Cultural Pan-Africano, na capital da Argélia, cuja libertação da colonização francesa havia acontecido no início da década. A partir do arquivo da Cinemateca de Argel, considerada a primeira daquele continente, e de todas as produções de cinema militante levadas a cabo na época, a artista franco-argelina construiu uma caixa de fragmentos. Há livros, fotografias, discos, cartazes e filmes que ajudam a contar a história de vários movimentos de libertação e das descolonizações iminentes. Ao mesmo tempo, é um olhar de Sedira para as suas próprias memórias.
"Quando fui convidada para fazer este projecto, em 2019, já estava interessada na forma como a arte e a cultura são usadas como ferramentas, ou como armas, para travar guerras, sejam elas quais forem. No meu caso, eram as guerras anti-colonialistas, porque venho desse contexto, em que os meus pais lutaram contra os franceses no tempo da colonização. E foi assim que vim dar a este filme do William Klein, chamado Festival panafricain d'Alger, que na verdade foi encomendado pelo Estado argelino em 1969", começa por contextualizar a artista.
A história ficou escrita e dá conta de um evento que durou 12 dias e que concentrou representantes de dezenas de movimentos de libertação africanos, mas também representantes de lutas políticas e sociais de países como o Chile, os Estados Unidos – caso dos Black Panthers –, o Vietname e até Portugal. Durante cerca de duas semanas, Argel tornou-se no centro do mundo revolucionário. "O festival andou muito em torno de algo que é também o meu ponto de interesse aqui – a forma como a cultura é tão importante no regresso às raízes e na procura de uma identidade própria, especialmente em países que foram colonizados durante décadas, porque a colonização faz isso mesmo: apaga a identidade de uma população", acrescenta.
For a Brief Moment the World Was on Fire... foi o nome escolhido para o mural que reúne fotomontagens e objectos, pistas sobre as lutas e contestações que aconteciam na época, um pouco por todo o globo. Do panorama geral passamos para um universo particular, logo ali do outro lado da sala. Em Way of Life, a artista simula a própria sala-de-estar, em Brixton, Londres – cidade onde já vive há quase tanto tempo quanto viveu em Paris. "Sou alguém que colecciona muitos objectos dos anos 60. É assim que me visto e a minha sala também foi sempre decorada à moda dos sixties. Então decidi incluir os meus objectos pessoais, os meus vinis. Também porque para mim é muito importante combinar o pessoal e o político, falar sobre a minha história da colonização, através dos meus pais e da minha infância em França, e poder misturar a minha história e a dos meus pais à grande história da Argélia", remata.
Convidada para representar França na Bienal de Veneza, em 2022, Zineb Sedira vai continuar o périplo internacional. Depois do CAM, onde fica até 19 de Janeiro, a exposição segue para a Tabakalera, em San Sebastián. Também em 2026, em Maio, vai apresentar-se nas Duveen Galleries da Tate Britain.
Na galeria dedicada a expor em permanência obras da Colecção do CAM – não são 1001, mas sim cerca de 12 mil –, inaugura aquela que é a 65.ª mostra colectiva deste acervo desde que o edifício foi inaugurado, em 1983. São cerca de 120 obras, assinadas por quase uma centena de artistas, organizadas em 14 núcleos. "Xerazade, a Colecção Interminável do CAM" é uma exposição para os próximos dois anos. A curadoria é de Leonor Nazaré.
"As obras da colecção do CAM não têm nada a ver, obviamente, com as histórias das Mil e Uma Noites. A Xerazade interessou-nos como fórmula, como dispositivo ficcional, que nos serviu para criar uma sequência, em que uma narrativa abre para outra e depois para outra e depois para outra", assinala a curadora. É, por isso, indiferente começar no início ou no fim – ou até mesmo no meio – do percurso expositivo, que desta vez é também acompanhado por textos de sala dirigidos ao público infantil. O design, da autoria de Rita Algergaria, permite criar uma exposição mutável e dinâmica, além de ter permitido reduzir em 70% o tempo de instalação e em 80% o consumo de material.
Assente sobretudo em coincidências formais, o agrupamento em núcleos temáticos mistura pintura e escultura, mas também fotografia e vídeo. Entre nomes consagrados da arte portuguesa, como Amadeu de Souza-Cardoso, Almada Negreiros, Maria Helena Vieira da Silva, Cruzeiro Seixas, Paula Rego ou Júlio Pomar, encontramos outras gerações, representadas por Sara Bichão, Pedro Valdez Cardoso, Eva Gaspar, Musa paradisiaca e outros. Quinze das obras estão a ser expostas pela primeira vez desde a sua aquisição.
Destaque ainda para o objecto livro, representado por dois exemplares da Colecção do Museu Gulbenkian (incluindo o valioso manuscrito de Souza-Cardoso de La Légende de Saint Julien l'Hospitalier, de Gustave Flaubert – e por quatro livros de artista da Biblioteca de Arte Gulbenkian. "Há três grandes princípios orientadores da construção da exposição e o primeiro é esta questão da sedução pela palavra e pela linguagem. A técnica dela [Xerazade] é seduzir pela palavra, daí a presença muito forte do livro", adiciona a curadora.
A exposição transborda as paredes da galeria e leva obras da colecção a outros pontos do Centro de Arte Moderna. No jardim, encontramos duas esculturas, de António Duarte e João Cutileiro. Nas escadas de acesso à galeria, está uma obra de Helena Almeida. E quem for ao restaurante vai encontrar uma peça de Ana Vidigal. A arte fora de portas continua a ser uma tónica, numa estrutura que continua a dar sinais de querer aproximá-la do público. Também por isso, a entrada passa a ser gratuita para todos os visitantes até aos 18 anos. Aos sábados, a borla para os menores de 30 continua, mas só entre as 18.00 e as 21.00.
Rua Marquês da Fronteira, 2 (São Sebastião). Qua-Seg 10.00-18.00 (Sáb 10.00-21.00). 8€
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