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Um artista em retrospectiva: as instalações de João Penalva não cabem na Culturgest

A retrospectiva percorre 50 anos de criação artística de João Penalva, em particular as instalações que tem vindo a desenvolver nas últimas décadas. Além da Culturgest, a obra do artista português ocupa o Pavilhão Branco e a Cinemateca.

Mauro Gonçalves
Escrito por
Mauro Gonçalves
Editor Executivo, Time Out Lisboa
Personagens e Intérpretes, João Penalva, Culturgest
Raquel Montez
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Cada instalação de João Penalva é, por si só, uma exposição. Em torno de um processo, de um acontecimento, de uma figura. Numa altura em que imersivo é terminologia banalizada, a obra do artista – que começou por ser bailarino – absorve e demora-nos. "Personagens e Intérpretes" é a exposição que inaugura no dia 17 de Abril, sexta-feira, e que ocupa todas as galerias da Culturgest. Patente até 12 de Julho, a densidade da mostra pode implicar mais do que visita. Já a pensar nisso, adaptou-se a bilheteira – um único bilhete pode ser usado mais do que uma vez.

A carreira de João Penalva nas artes visuais começou por volta de 1976, altura em que termina o seu percurso como bailarino profissional. Exercícios como a cenografia, a encenação e até a coreografia seriam, mais tarde, transpostos para um espaço que não o palco. Mas não logo no início. Dedicou-se à pintura e, só já nos anos 90, começaram a aparecer as primeiras instalações. "É quando a relação com o espaço começa a ser total", nas palavras introdutórias de Bruno Marchand, curador da exposição e, desde 1 de Março deste ano, director-adjunto do MAAT.

"Personagens e Intérpretes", João Penalva, Culturgest
Raquel MontezJoão Penalva

"Através de um conjunto muito diverso de elementos, vamos desvelando a narrativa que o João preparou para cada peça. Falamos de materiais muito diversos, onde muitas vezes está o texto, mas também a imagem, a fotografia, o som", continua. As peças de que fala o curador – e que define como corpo de obra "singular no panorama nacional" – são 12, no total, e cada uma delas ocupa uma sala da Culturgest. Congregam texto escrito, som, imagens e, muitas vezes, um processo de experimentação.

De Viúva Simone a Personagem e Intérprete – o artista ocupa a Culturgest

Viúva Simone é a primeira de 12 instalações que ocupam todas as galerias da Culturgest – 14, contando com o corredor onde o artista colocou Arcade, uma sucessão de fotografias de fachadas e elementos arquitectónicos de cidades por onde passou. O intuito é que os visitantes percorram o corredor, para lá e para cá e novamente para lá. Mas voltemos ao início do percurso, que nos põe no ano de 1996, duas décadas depois de João Penalva ter deixado de dançar profissionalmente.

"Personagens e Intérpretes", João Penalva, Pavilhão Branco
Raquel Montez

A peça como a vemos resulta da falha. "Houve muitas peripécias. E a peça transformou-se e passou a ser uma coisa muito diferente do que imaginava que seria. Mas documentei tudo e a peça passou a ser a narrativa de tentar construir uma peça difícil", contextualiza o artista. Após lhe terem sido negados os direitos para dançar La Fille mal gardée, de Frederick Ashton, na qual Viúva Simone é uma das personagens. As "peripécias" estão por toda a sala – contadas a viva voz pelo próprio Penalva num vídeo, escritas ao longos das paredes – e envolvem o facto de lhe ter sido negado o pedido para dançar um excerto do bailado, por causa de direitos de autor.

"É isso a peça. Mas é muito interessante perceber o que é que acontece quando se vê a dança de um ponto de vista legal. Isso quer dizer que à pessoa que me ia ajudar a aprender o papel, que já tinha dançado este bailado centenas de vezes, não era permitido ensiná-la. A dança não lhe pertencia. A dança pertencia à memórias dos músculos dele, mas não lhe pertencia legalmente", conta João Penalva.

"Personagens e Intérpretes", João Penalva, Pavilhão Branco
Raquel Montez

Sala após sala, outras narrativas se desenrolam. LM44/EB61 (1995) é a reconstituição de um homicídio cometido numa loja de antiguidades, em Londres, em 1961, a partir do paralelismo entre dois retratos: um feito por Kurt Schwitters, o outro um retrato robot do assassino em questão. Wallenda (1997-1998) pede emprestado o nome de um conhecido funâmbulo e surge musicada pelo assobio do próprio artista, a entoar A Sagração da Primavera. Em Men Aslepp (2012) a atmosfera é imersiva, escura e sugestionada pelo som de uma tempestade com chuva com o único objectivo de contemplar fotografias de homens a dormir e, assim, induzir o sono do próprio espectador. Se há coisa que domina é esta capacidade de activar os mecanismos de palco, sentando-nos sempre na plateia, embrenhados na narrativa.

A maioria das obras em exposição vem da Colecção de Arte Contemporânea do Estado e também da Colecção Fundação de Serralves – Museu de Arte Contemporânea. A última de todas dá nome à exposição. Em Personagem e Intérprete (1999), uma apresentação automatizada de diapositivos exibe fotografias de uma mesma mulher, em diferentes fases da sua vida. Muitas têm sido as perguntas feitas ao artista sobre quem é a mulher nas imagens. João Penalva garante que nunca responderá a nenhuma. "Isso acabaria com a obra", escreveu o artista num dos textos sobre a exposição.

"Personagens e Intérpretes", João Penalva, Pavilhão Branco
Raquel Montez

"Não devem saber nada sobre ela e não devem saber nada sobre o que eu sei sobre ela, se é que, de facto, sei alguma coisa sobre ela, o que também não vos vou contar. Ela é aquilo que acreditam que ela seja. São vocês que inventam a história dela. Ela pertence-vos", remata.

Uma retrospectiva, vários palcos

Esta retrospectiva galga as paredes da Culturgest. No Pavilhão Branco, espaço sob a alçada das Galerias Municipais, está a "A Colecção Ormsson, apresentada por João Penalva", reinstalação da exposição "A Colecção Ormsson", que apresentou em 1997, no mesmíssimo espaço. Na altura, o artista vestiu a pele de curador, expondo uma selecção de objectos diversa e singular, entre obras de arte e artefactos de diferentes épocas, propriedade do coleccionador islandês Loftur Ormsson. A exposição é de entrada livre e pode ser visitada até 28 de Junho (Ter-Dom 10.00-13.00, 14.00-18.00).

"A Colecção Ormsson apresentada por João Penalva", Pavilhão Branco
Raquel Montez"A Colecção Ormsson apresentada por João Penalva"

Já a Cinemateca dedica um ciclo de dois dias ao artista, que também possui uma obra cinematográfica expressiva. No dia 8 de Junho, são exibidos os filmes The Roar of Lions (2006), The White Nightingale (2005) e 336 PEK (1998). No dia 9 de Junho, também às 19.00, a sessão é com os filmes Kitsune (2001) e O Sineiro (2005).

Quanto à exposição na Culturgest, tem já duas visitas guiadas com o próprio artista programadas. Acontecem a 9 de Maio e a 20 de Junho, sempre às 16.00.

Rua do Arco do Cedo, 50 (Campo Pequeno). Ter-Dom 11.00-18.00. Até 12 Jul. 4€ (gratuito ao domingo)

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