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As memórias dos presos políticos de Caxias ganham agora nova vida em banda desenhada. Falámos com as autoras, Susana Moreira Marques e Joana Afonso.

Houve um tempo em que não era seguro falar nem seguir livremente o caminho que cada um escolhesse para si. É desse tempo – e dos traços desse tempo que, por toda a parte, ainda encontramos nas nossas ruas e até nas nossas casas – de que nos fala Um Quadrado de Céu. Ou como escrever um livro sobre Caxias, de Susana Moreira Marques e Joana Afonso. Editada pel’Os Livros de Oeiras, o selo editorial do município, a recém-publicada novela gráfica resgata memórias de pessoas que lutaram contra a ditadura e foram presas por causa disso, mas também nos convida a interrogar o modo como o passado serve o presente e se estamos a fazer o que é preciso para proteger a nossa, sempre frágil, liberdade.
“O convite partiu do Município de Oeiras, que tem estado a desenvolver um projecto de memória oral com os antigos presos políticos de Caxias”, revela a escritora e jornalista Susana Moreira Marques, que tem estado a gravar entrevistas e a recolher testemunhos no âmbito de uma iniciativa mais ampla, que prevê também a criação de um mural evocativo assinado por Graça Morais. “A ideia de aproveitar o material para outros formatos foi do Gaspar Matos [director do Departamento de Artes, Cultura, Turismo e Património Histórico de Oeiras], que pensou que a banda desenhada poderia ser uma forma de chegar a mais pessoas, sobretudo a um público mais jovem. E eu decidi aceitar porque a temática é importante de trabalhar e, portanto, irrecusável.”

Autora de quatro livros de narrativa de não-ficção e de um para a infância, Susana estreia-se assim na banda desenhada, acompanhada pela premiada Joana Afonso, que é doutorada em Desenho e também tem bastante experiência com colaborações. “Aliás, são mais os álbuns realizados desta forma do que a solo”, diz-nos a artista, que se procurou focar na “melhor transmissão da mensagem”, para que a leitura da narrativa fosse “o mais fluída possível, proporcionando ao leitor uma experiência imersiva”. Mas, quando recebeu o convite, ainda hesitou, confessa: “Se por um lado estava desejosa de aceitar, e até honrada; por outro, temi não estar à altura de tamanha responsabilidade.”
O processo criativo teve duas grandes fases. A primeira foi, por um lado, a pesquisa na Torre do Tombo e na prisão de Caxias, que funcionou como um dos principais centros de detenção da ditadura do Estado Novo; e, por outro, a recolha de testemunhos de antigos presos políticos e resistentes anti-fascistas, como Álvaro Pato, José Pedro Soares, Conceição Matos, Domingos Abrantes, Mário de Carvalho e Fernanda Gonçalves, sem os quais teria sido impossível dar corpo ao enredo desta história. “As descrições eram extremamente visuais. Por instantes éramos transportadas tanto para o sofrimento como para a esperança e força que habitava nos corações daqueles heróis”, partilha Joana. “Custa imaginar como seria se tivesse sido eu a viver aqueles horrores.”
O tipógrafo José Pedro Soares, que esteve preso em Caxias de Julho de 1971 a 27 de Abril de 1974, foi a pessoa que mais tempo esteve em tortura do sono. “21 dias e noites seguidos... Ao todo, 33”, conta-nos a personagem de banda desenhada, que é bem real, e que esteve responsável por células clandestinas do PCP no Baixo Ribatejo, para consciencializar trabalhadores, para que nas empresas houvesse melhores condições. Muitos outros ajudaram a causa. Domingos Abrantes, preso em Caxias de Outubro de 1959 a Fevereiro de 1960, esteve 19 meses a planear a sua própria fuga. Aconteceu em Dezembro de 1961, a bordo do carro de Salazar, com mais sete camaradas. A viatura do ditador, trazida por um militante comunista infiltrado na prisão, era blindada, mas só o confirmaram quando foi atingida por 19 tiros de espingarda, que rechaçaram. A operação, realizada à luz do dia, abalou o regime.
“Nasci depois do 25 de Abril [em 1976], numa das primeiras gerações a viver em liberdade, e com o sentimento de que me foi dada a possibilidade de fazer coisas que outrora seriam impensáveis, sobretudo enquanto mulher. Ao escrever sobre isto sinto que estou a contribuir alguma coisa, mas também é assustador, porque há uma grande vontade de fazer justiça. Uma coisa é sabermos que isto aconteceu, outra é sentarmo-nos à frente destas pessoas, ouvi-las contar o que lhes aconteceu. De repente, é pessoal, real de uma maneira que não é real o que aprendemos nos livros, e é um grande privilégio termos estas pessoas vivas com esta generosidade de contar repetidamente”, partilha Susana, que – numa segunda fase – se propôs, em conjunto com Joana, a transformar em novela gráfica essas histórias, e as ideias que foram tendo em relação a qual deveria ser o tom e o foco da narrativa.
“Era uma coisa que eu, de facto, nunca imaginei fazer, e não era a minha linguagem de todo, portanto isso foi um grande desafio para mim e eu própria não sabia o que esperar do processo”, confessa a escritora, que crê não ter saído ilesa deste trabalho. “Foi muito, muito difícil, mas ao mesmo tempo muito interessante perceber como poderia fazer e como poderia ligar isso ao meu trabalho, até porque este é um assunto muito vasto e poderia dar muitos livros diferentes. Por isso, o que fizemos foi pensar numa proposta concreta que gostaríamos de trabalhar, e uma das coisas que percebi logo que era muito importante para mim foi ser documental, de certa forma de não-ficção, o que implicou, lá está, falarmos directamente com as pessoas, em vez de nos apoiarmos em material que já tinha sido recolhido.”
Em destaque, Susana nomeia a visita que fizeram a Caxias com Domingos Abrantes e Conceição Matos, e que também surge no livro, protagonizado por uma anónima em conflito interior. Se por um lado quer escrever sobre “a nossa própria história”, por outro confessa o receio de não querer realmente pensar de que modo a história também é sua sem que a tenha realmente vivido. “Penso que a chave do livro é este olhar de quem está no presente, porque nos encontramos num período em que estamos a viver muitos aniversários redondos, dos 50 anos do 25 de Abril aos 50 anos da descolonização, e sabemos cada vez mais sobre o nosso passado, mas ao mesmo tempo o discurso sobre o que foi a ditadura está a mudar, e coisas que nos pareciam adquiridas e totalmente consensuais já não são.”
Da ascensão da extrema-direita ao genocídio em Gaza e à censura nos EUA, não faltam referências aos dias de hoje. Para Susana, era fundamental que a narrativa se ancorasse quer na memória quer na realidade. “O livro também se constrói à volta dessa questão, ‘serei capaz de retratar o passado tendo nascido num mundo já tão diferente?’, e da ideia de que, apesar de aprendermos sobre isto na escola, na maior parte do tempo é como se a História não existisse. Por exemplo, logo na epígrafe, aparece uma citação do Auden, um excerto de um poema inspirado numa pintura de Brueghel onde há várias figuras ocupadas em tarefas e ninguém repara em Ícaro a cair do céu. É assim, distraídos, que vivemos agora.”
O passado nunca passou, porque enforma o presente, e a única maneira de não o repetirmos é não só não o esquecermos, como combatê-lo activamente. Se não resistirmos à indiferença, se não anteciparmos o risco, nada nos garante que não voltaremos a viver em ditadura. Quem nos chama a atenção é a própria Susana, que admite já não duvidar da possibilidade de voltarmos a tempos tão cinzentos quanto os do Estado Novo. “Há cinco anos, certas coisas que se estão a passar agora pareciam-nos completamente impossíveis”, lamenta. “Se não contamos, se não escrevemos, se não registamos, as histórias perdem-se, entram no desaparecimento.”
Contar estas histórias é, então, como diz John Berger e cita Susana, “salvar uma vida”, ou um mundo inteiro. É também para isso que existe a chancela Os Livros de Oeiras, uma “extensão natural da política cultural municipal”, como assegura Gaspar Matos, que destaca o facto de a curadoria ser orientada à volta da memória, identidade e pensamento. A qualidade literária e estética, essa, também é fundamental, mas sobretudo a capacidade de dialogar com públicos alargados e de apoiar autores portugueses e dos PALOP. “Não se procura quantidade, mas pertinência”, assevera. “Caxias, enquanto lugar de repressão durante o Estado Novo, integra uma memória difícil, mas essencial.”
Gaspar Matos não tem dúvidas de que, tendo sido escrito com rigor, sensibilidade e uma linguagem contemporânea, Um Quadrado de Céu pode ser um instrumento particularmente eficaz de mediação cultural. Joana subscreve – “Eu tenho boas expectativas” – e Susana lança um repto: “Nunca nada acaba, ou seja, nós é que damos continuidade às coisas. O 25 de Abril não foi aquele dia, o 25 de Abril foi todos os dias depois, todos estes 50 anos e, portanto, nós somos a continuação da História e o futuro será o que fizermos dele. Se olharmos para o passado, pensamos ‘como é que é possível?’ Mas é este tempo, é este momento, o presente também é histórico.”
Um Quadrado de Céu. Ou como escrever um livro sobre Caxias, de Susana Moreira Marques (argumento) e Joana Afonso (desenho). Os Livros de Oeiras. 72 pp. 17€
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