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‘Valor Sentimental’: uma família em crise numa casa centenária

O novo filme do norueguês Joachim Trier põe em cena uma família em tensão na sua velha casa de Oslo. Galardoado em Cannes e nos Prémios do Cinema Europeu, ‘Valor Sentimental’ está nomeado para nove Óscares.

Escrito por
Eurico de Barros
Valor Sentimental
DR | Valor Sentimental
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Grande Prémio do Festival de Cannes, Globo de Ouro de Melhor Actor Secundário (para Stellan Skarsgard), seis Prémios do Cinema Europeu (incluindo Melhor Filme e Realizador) e nove nomeações para os Óscares. Este é o (bom) lastro de galardões e indicações com que Valor Sentimental, do norueguês Joachim Trier, chega aos cinemas portugueses (ganhou muitos outros até agora, mas estes são os mais destacados). O filme consta também na lista dos Melhores de 2025, de críticos de publicações como The Hollywood Reporter, Indiewire, Variety, Slate ou The Washington Post, ou ainda da BBC, só para citar títulos e meios de língua inglesa.

Autor da chamada “Trilogia de Oslo”, composta pelos filmes Reprise (2006, este a sua longa-metragem de estreia), Oslo, 31 de Agosto (2011) e A Pior Pessoa do Mundo (2021, e que revelou a actriz Renate Reinsve), Trier consolida-se assim como o nome mais destacado, e internacionalmente considerado e premiado, de um cinema norueguês que tem vindo a dar nas vistas nos últimos anos, pela qualidade e pela variedade da sua produção. Que vai desde filmes de ambiente contemporâneo como os do autor de Valor Sentimental, ou de Dag Johan Haugerud (realizador da trilogia Sex, Love e Dreams, este último vencedor do Festival de Berlim) até títulos biográficos, fantásticos, policiais ou históricos, passados, por exemplo, durante a II Guerra Mundial (e isto sem falar nas séries de televisão). No país, fala-se de uma “idade de ouro” do cinema norueguês, que agora pede meças aos dos vizinhos dinamarqueses e suecos.

Valor Sentimental passa-se em grande parte na centenária casa da família Borg, em Oslo. As irmãs Nora (Renate Reinsve), solteira e actriz, e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), historiadora e casada, e com um filho pequeno, acabaram de enterrar a mãe, Sissel, e estão a dar uma recepção em casa para familiares e amigos próximos, quando aparece à porta o pai, Gustav (Stellan Skarsgard), um famoso realizador, que não viam há muitos anos. Passa-se que os pais se zangaram quando elas eram ainda pequenas e que, após a separação, Gustav saiu de casa e foi para a Suécia, deixando a ex-mulher e as filhas sozinhas, e não mais as contactou. Se Nora nunca lhe perdoou, Agnes foi um pouco mais benevolente para com ele, e acolhe-o com mais simpatia do que a irmã.

Gustav é muito mau com as emoções, e expressa-se muito melhor através do cinema. Acabou de escrever um novo filme, que poderá ser o seu último, dado que tem tido problemas de saúde, e quer usá-lo para se reconciliar com Nora, à qual oferece o papel principal, inspirado na figura da sua mãe, e avó desta, Karin, que fez parte da resistência ao ocupante alemão durante a II Guerra Mundial, foi presa e torturada, e suicidou-se na casa da família quando Gustav tinha apenas sete anos, afectando-o profundamente para o resto da vida. Nora, que por seu lado, tem sofrido de pânico de entrar em cena e tem uma relação com um colega casado, recusa a oferta do pai, esse “homem difícil”, como lhe chama.

Sentimental Value
DR

Gustav, que queria rodar o filme na casa da família, fica surpreendido e magoado, e vai para França, para o Festival de Deauville, onde é o realizador homenageado. Lá conhece Rachel Kemp (Elle Fanning), uma jovem vedeta de Hollywood a quem acaba por propor o filme recusado pela filha. Rachel aceita, o que leva a Netflix a financiar a produção, resolvendo o problema do dinheiro. Só que Rachel vai-se sentindo cada vez menos confortável com o papel, não só por causa da língua, mas também por perceber as complexas implicações familiares do enredo, e da sua personagem. Ao mesmo tempo, Nora está cada vez mais zangada com o pai, ao ver que este trata Rachel com mais simpatia e paciência do que a ela, e que conseguiu conquistar Agnes e o marido dela ao ganhar o afecto do neto, ao qual quer mesmo dar um papel no filme. 

A casa da família, que Joachim Trier utiliza como uma personagem muda mas sempre presente e influente, um arquivo das memórias, dos objectos, dos fantasmas e dos momentos mais felizes e mais trágicos lá vividos pelos seus membros, vai ter um papel fundamental na resolução das tensões, dos impasses e dos ressentimentos familiares, em especial entre Gustav e Nora, e na concretização do filme. Em Valor Sentimental, muito influenciado pelo cinema de Ingmar Bergman em vários aspectos, Joachim Trier, regressa ao tema da família em crise que já havia tratado em Ensurdecedor, de 2015, mas agora com maior elaboração e mais profundidade. E muito maior impacto no mundo do cinema, e entre crítica e público.

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