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O comediante de Lourosa fala sobre o solo ‘Arraial’, a transição do futebol para o humor e a importância de se manter fiel às raízes.

Houve um dia em que Vítor Sá pendurou as chuteiras, deixou de lado os códigos de engenharia informática e decidiu que o seu futuro passava por fazer as pessoas rir. Prestes a terminar em Lisboa o seu solo, Arraial, com três datas no Tivoli (15, 16 e 27), e com uma digressão internacional por cidades como Amesterdão, Londres e Zurique na calha, o humorista que também trabalha como tesoureiro do rancho de Rio Meão explica-nos por que razão a sua comédia nunca poderá ser separada das raízes, das luzes das gambiarras e da vida pacata da aldeia.
O início da sua carreira é atípico. Antes de se dedicar ao humor trabalhou como engenheiro informático e jogou futebol até aos 22 anos. Nos podcasts em que participa já descreveu muitas vezes a altura em que deixou de ser engenheiro, mas nunca falou muito sobre o período em que deixou o desporto. Como foram os últimos dias no balneário?
O meu último clube foi o São João de Ver, apesar de ter feito quase a vida toda no Lusitânia de Lourosa. O futebol sempre foi algo que fez muito parte da minha vida e da minha família. As coisas estavam a correr bem, estávamos a lutar para a subida, tínhamos uma relação incrível e estava a jogar regularmente. No entanto, já tinha começado a fazer comédia, há cerca de um ano e meio, e estava a ficar viciado. Foi quando percebi que era algo a que me queria dedicar. Começou a custar-me ir para os treinos. Já não sentia prazer naquilo e eu não gosto de fazer coisas que me custam. Numa segunda-feira, cheguei ao treino, levei o saco, mas nem me equipei. Fui ao balneário dos treinadores – o adjunto era meu amigo de infância – e disse que ia desistir. Eles ficaram sem reacção, ninguém acreditava muito na comédia naquela altura. Mandaram-me para casa pensar, mas a minha decisão estava tomada.
Como reagiu a sua família a essa mudança drástica?
Foi a vez que vi o meu pai mais triste na vida. O futebol era uma rotina de muitos anos, os meus pais iam a quase todos os jogos. Ele ficou um bocado amuado durante uma semana, mas depois percebeu que eu estava mais feliz do que nunca e as coisas compuseram-se.
Os nossos pais, às vezes, vivem estas coisas com mais intensidade do que nós.
Muito mais, é impressionante. Lembro-me de ele, nos meus tempos de juniores, sentar-se comigo para ter uma conversa porque estava desolado por não poder ir ver um jogo contra o Esmoriz – que nem era assim tão importante. Tive que lhe dizer que estava tudo bem porque ele esteve lá para mim em todos os jogos da minha vida. Foi algo que me ficou marcado na memória. Havia muito essa expectativa porque eu e o meu irmão tínhamos algum jeito para a coisa.
Em que posição é que jogava?
Eu era defesa-central e, nos meus últimos anos, também começou a jogar a médio-defensivo, uma espécie de "trinco" com alguma técnica.
Após a informática e o futebol, seguiu-se muito tempo de stand-up, a actuar e a testar material de norte a sul do país. Porque é que decide fazer agora esta primeira tour, Arraial?
Sinto que foi a altura certa. Participo em vários projectos com públicos muito fiéis que pediam algo ao vivo. Apesar de adorar todos os conteúdos que faço, o stand-up é a minha obsessão e, no futuro, pretendo que seja o meu foco – a minha vida perfeita seria acordar, escrever e actuar à noite. Na agência, Kilt, percebemos que era o momento. As expectativas de bilheteira foram superadas e estamos a ir desde capitais de distrito até cidades mais pequenas, com casas cheias. É, literalmente, viver o sonho.
Como é que surge este conceito de arraial para um stand-up?
Queria que o meu primeiro solo fosse um reflexo daquilo que vivi ao longo da minha vida. Mostrar como foi crescer em arraiais e festas de aldeia. Foi aí que aprendi a contar histórias e piadas. Nós, humoristas, temos a tendência a achar que somos as pessoas com menos graça nos nossos círculos mais próximos. São eles que me inspiram. O meu padrinho, por exemplo, é aquele tipo de gajo que se levanta nas festas, começa a contar uma história e a deixar todas as pessoas a rir. E é engraçado, ele foi ver o espectáculo no Sá da Bandeira e comentou que sentia que estava a viver a nossa noite de Natal em família. Foi assim que eu cresci. O objectivo do espectáculo é criar essa envolvência, como se estivesse à conversa com amigos. É começar a rir e acabar a rir.
Quem acompanha os podcasts sabe que faz parte de um rancho folclórico. Isto ajudou a alimentar o imaginário do espectáculo?
Sim. Eu sou tesoureiro do Rancho Folclórico e Etnográfico de Santa Maria de Rio Meão. Vem muito desse imaginário, de ir actuar a arraiais e festas onde conhecias pessoas hilariantes e com boa disposição. Cresci num ambiente pacato, onde havia uma grande partilha de histórias entre amigos depois de andar de skate ou jogar à bola. Rio Meão é uma vila pequena, onde ainda cheira a estrume – o que é um clássico dessas zonas. Ainda faço parte deste grupo... aliás, ainda ontem tive de tratar de umas transferências bancárias por causa da organização do festival das tasquinhas. Podem parecer problemas sem importância, mas eu adoro fazer isto. São estas pequenas aventuras que alimentam os meus textos e as minhas piadas.
Faz-me lembrar um pouco algo que o David Bruno [produtor e músico gaiense] disse. Ele, se quisesse, até podia deixar de trabalhar, como vendedor, no entanto, se deixasse de ter esse contacto humano, ia perder imenso material e inspiração para a sua música.
Ele é um dos casos mais flagrantes de deixar a portugalidade contaminar a arte e identifico-me com essa ideia. Não quero deixar de fazer estas coisas, porque é daqui que vem a minha graça. Se deixar de viver esta realidade, a fonte de inspiração seca. Ainda há pouco tempo ajudei o meu pai no tasco dele, no clube do Lourosa. Ele estava com receio de me pedir ajuda porque agora "sou conhecido", mas faço questão de ir. Quero estar ali a trabalhar na caixa registadora, com a calculadora de um lado e o telemóvel com as notas abertas do outro para apontar algumas coisas que ouço, é o que me alimenta o processo criativo. É por isso que nunca vou deixar de ser tesoureiro do rancho de Rio Meão.
Voltando a pegar neste contexto da música, actualmente existe um interesse renovado pela "portugalidade" e pela cultura do Norte, como se vê no trabalho do David Bruno ou do Chico da Tina. Achas que, por isso, faz sentido?
Há uma crescente tendência entre os artistas para abordar a vida na aldeia e a portugalidade. No meu caso foi coincidência, não foi planeado para aproveitar esta "onda", queria apenas mostrar quem sou. Sendo a minha primeira tour, queria que servisse como um cartão de visita. Quem é este gajo? Sou o gajo que fala dos pais, da mulher [a Ana] e de onde venho.
Um músico que sinto que também serviu de inspiração, inclusive pela disposição do palco, parece ser o artist espanhol C. Tangana. A mesa que tens no palco é uma referência directa?
Essa disposição com as mesas foi algo que utilizámos especificamente para a gravação do solo, de forma a simular mesmo a envolvência de um arraial. Há muito do C. Tangana ali, especialmente a ideia das mesas que ele apresentou no seu próprio espectáculo. Fui ver o concerto dele a Sevilha com a Ana e foi, sem dúvida, o melhor concerto que já vimos na vida – foi brilhante a todos os níveis. Serviu-me de inspiração, mas quis adaptar essa estética à minha realidade. O grande foco do meu cenário é o Pelourinho, decorado com as gambiarras e as luzes típicas das festas populares. Sou atraído por este tipo de cenários, são muito nostálgicas e um convite para continuarmos a festa e o convívio.
Às vezes parece que os comediantes tentam adoptar a estética dos rappers, mas também acontece o inverso?
Costuma dizer-se no meio que todos os rappers gostavam de ser comediantes e todos os comendiantes gostavam de ser rappers. Quando vais ver um concerto, os músicos estão sempre a mandar umas piadas e a usar o humor como mecanismo para dar ritmo ao espectáculo. Por outro lado, sinto que os comediantes até tentam replicar a estética do hip-hop nas sessões fotográficas e no conceito visual. No meu caso, há muito pouco de rapper [risos]. O que ali tens é a broa, o chouriço, o vinho entornado e as mensagens sujas no pelourinho. O C. Tangana também faz isso à maneira dele. Ele já não é propriamente um rapper, está a tentar mostrar de onde veio, com a vertente do Flamenco e de Madrid.
De certa forma, também é uma maneira para os artistas serem mais transparentes e honestos naquilo que estão a dizer e a fazer.
Eu sempre fui muito transparente e nunca tive grandes problemas com essa questão da gestão da carreira, apesar de achar que cada o faz como bem entender. Se eu sinto que devo fazer algo de uma determinada forma porque acho que é o que tem graça naquele momento, então é isso que vou fazer. Essa é sempre a minha prioridade.
Durante muito tempo, houve um estigma sobre os comediantes do Norte, associando-os apenas ao uso excessivo de palavrões – quase uma desvalorização do estilo de humoristas como o Fernando Rocha. Sentes que isso ainda é algo que existe?
Efectivamente, existe uma diferença na linguagem, nas abordagens e na própria postura. Nós somos um país tão pequeno e, ao mesmo tempo, tão rico em sotaques. Eu não gosto de pôr as pessoas em "pacotes", mas noto essa diferença porque, curiosamente, também reparei que muito do que se diz, por exemplo, de Lisboa é mentira – aquela ideia de que as pessoas são antipáticas. No que toca ao humor, sinto que no Norte existe uma "ginga" muito própria. Por exemplo, em Gaia, os comediantes, o Carlos Contente ou o João Pedro Pereira — ou até artistas como o David Bruno –, têm uma ginga que lhes é muito característica, embora sejam pessoas e humoristas completamente diferentes entre si. Quanto aos palavrões, acho que para nós, no Norte, não lhes damos tanto valor como o resto do país. Já me aconteceu actuar em Lisboa ou no Algarve e virem alertar-me: "Não estava à espera de tantos palavrões". Para nós, isso é muito estranho. São apenas palavras. Se existem e as pessoas têm vontade de as dizer, porque é que não se pode dizer, caralho? Não sinto que seja uma muleta; é apenas a nossa forma natural de falar.
Tu, o Contente e o João Pedro Pereira são de uma geração que surgem quase de uma "escola" que são as noites de comédia do Ferro. Achas que esse sítio vos ajudou a moldar a forma como fazem stand-up?
O Ferro foi um sítio preponderante onde todos nós crescemos. Se calhar eles até mais do que eu, mas todos nós actuámos lá bastante. O que acontece é que o público não tem noção do esforço que existe por trás. O esforço que exige organizar uma noite dessas é gigante. De repente, somos humoristas, cujo trabalho deveria ser apenas escrever piadas e ir para o palco dizê-las, e temos de estar a pensar na publicação para as redes sociais, nas fotos que temos de tirar, na plataforma de venda de bilhetes ou em quem vai estar à porta a verificar as entradas. Tudo isto são os humoristas que fazem. Eu próprio já o fiz, porque no início não te chamam muito para actuar. No início, tu não és bom, por isso o caminho que muitos escolhem é: "Eu vou organizar a minha própria noite". E utilizas esse espaço para crescer e convidar outros humoristas. Todas essas noites espalhadas pelo país são um grande catalisador para o mundo da comédia estar a crescer. Sítios como o Ferro dão-nos um ritmo que é: como é que eu posso chegar à próxima piada o mais rápido possível? Como é que consigo construir isto de forma a ser conciso e ter o máximo de gargalhadas possível?
Como é que os projectos em que participa [Prata da Casa, Conteúdo do Batáguas, Cubinho] influenciam o seu solo?
Tenho a sorte de trabalhar com pessoas que admiro. Quando estou num grupo, sinto que me consigo adaptar e perceber o meu papel em cada espaço. Isto ajuda-me a ter várias perspetivas, por isso, tenho piadas no meu solo que eu sei que têm "tiques" do António [Azevedo Coutinho], do André Pinheiro ou do Ricardo [Maria]. Às vezes são ideias que debatemos entre nós. Tenho até uma piada que é originalmente do Luís Franco Bastos – que é a gozar com o próprio – em que eu digo exactamente como ele a disse e que resulta sempre em palmas. Essa troca de ideias é fundamental para o crescimento de todos nós.
No futuro breve, depois das datas em Lisboa, vai partir numa digressão internacional, em Madrid (25 Out), Barcelona (26 Out), Amesterdão (28 Out), Londres (30 Out) e Zurique (2 Nov). Acha que o espectáculo será muito diferente do que apresenta em Portugal?
Não, acho que não vai ser diferente. Em quase todas as datas eu adapto sempre um bocadinho ao sítio aonde vou. Acabo sempre por observar coisas engraçadas ou viver uma história e tento usar isso para elevar o espectáculo. Uma das minhas grandes preocupações é tornar o momento especial, fazer com que aquelas pessoas sintam que "isto só aconteceu aqui". Sinto que nas cidades europeias vai acontecer muito isso. As pessoas que vivem lá vão identificar-se com as observações que farei sobre esses sítios. O Arraial tem tanta portugalidade e coisas tão nossas que acho que é precisamente isso que as pessoas que estão fora há tantos anos procuram. Seria até estranho eu estar a mudar ou a adaptar demasiado. Se vocês querem ter um bocadinho de Portugal, é isso mesmo que eu vos venho dar. Depois destas datas, podem esperar... mais umas quantas datas [risos]. Vamos tentar ir a sítios onde ainda não actuámos. Depois disso, é começar a escrever material novo. Não me sinto farto destas piadas, mas estou mortinho por voltar a essa fase de criar texto novo.
Av. da Liberdade 182 188 (Avenida). 15 (Sex), 16 (Sáb), 27 (Dom) Mai 21.00. 13€-24€
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