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Chama-se ‘O Cão Invisível’ e é uma homenagem ao Farofa, que era presença assídua nas redes sociais do designer e influenciador.

Wandson Lisboa é um sucesso nas redes sociais. A sua conta de Instagram foi considerada pelo The Huffington Post uma das dez mais criativas do mundo. É formado em design, mas assume-se “um artista de variedades”, acumulando trabalhos como actor, comunicador e até em direcção de arte. Agora estreia-se na literatura. Editado pela Iguana, O Cão Invisível é um álbum ilustrado para todas as idades e evoca Farofa, o cão que era “um amigo dos bons” e que o autor perdeu há dois anos. É sobre o luto, mas também o amor que ainda sente que nos fala no seu primeiro livro.
“A ilustração para mim é uma extensão sentimental do que quero expressar e talvez até me consiga expressar melhor com desenhos do que com palavras”, diz-nos Wandson, antes de revelar que, numa visita recente ao Brasil, de onde é natural, encontrou uns diários gráficos “de criança e até adolescente, com bandas desenhadas” que fazia sempre que lhe acontecia qualquer coisa digna de nota. Na verdade, o hábito nunca se perdeu – só que, em vez de os guardar num caderninho, partilha-os com o mundo. Assim o fez também em 2024, quando adoptou o Farofa.

Era o último cão de uma ninhada de quatro irmãos. Brincalhão, mas também muito calmo e independente. Wandson gostava de o passear junto à Casa da Música, no Porto, onde vive, e ilustrava-o frequentemente. Até que um dia, o Farofa foi atropelado e o maranhense perdeu o chão. “Foi uma dor dilacerante”, confessa. “Foi um cão que mudou muito a minha vida, a forma como vejo as coisas.” E é do luto, mas sobretudo do amor transformador que nos fala no seu primeiro livro, O Cão Invisível, onde todos os dias um homem percorre o seu bairro com uma trela vazia.
“Foi um trabalho muito árduo, porque eu queria que cada pessoa tivesse a sua interpretação, e que não fosse piegas. Mas aquele cão tirou-me da depressão. Eu tinha crises de ansiedade absurdas. Sempre que alguém me convida para sair de casa, é uma luta. Não parece porque, quando saio, eu amo estar na rua, mas o processo em si é muito desgastante. E com aquele cão eu me sentia muito poderoso”, partilha o autor, que procurou falar do poder curativo de ser verdadeiramente visto.
O convite partiu da editora, que “deu duas ideias, sempre envolvendo nuvens”. O resultado são 64 páginas sobre um cão especial capaz de curar a tristeza – e um outro, igualmente especial, que relembra os leitores que, depois da tempestade, vem sempre a bonança. Claro que não foi fácil lidar com a perda e a incompreensão, mas ajudou ter-se permitido, eventualmente, fazer um novo amigo de quatro patas: o Paçoca, nomeado em homenagem a um dos seus doces brasileiros preferidos. “Um caos”, admite, entre risos, antes de nos voltar a falar sobre o seu processo criativo.
O título, por exemplo, demorou a ser escolhido. Se o livro fosse publicado em português do Brasil, o título talvez fosse diferente: Wandson sugere Um Homem Com Guia. “No Brasil, a trela é guia, e simbolicamente eu sei que ele me guiava”, explica. “No início, a história não era bem esta. Fiz muitos estudos. Tenho muitos estudos de personagens, de cores, mas quando dei por mim percebi que o protagonista era eu. Não podia pôr outra pessoa qualquer a falar de perder um cão, de encontrar outro, da solidão que senti, da empatia também. Tinha de ser eu.”
O desenho é digital, com “um boost de cores” do amigo Rafael Amadeu, e Wandson inspirou-se em pessoas reais para as diferentes personagens que vão surgindo. “Desde a senhora fofoqueira, que é minha vizinha, ao senhor Mendes, que sabe tudo sobre toda a gente e é um querido”, desvenda. “A praça onde tudo acontece, por exemplo, também existe: é a Rotunda da Boavista. E a farmácia é uma homenagem gigantesca aos meus vizinhos da Rua 5 de Outubro, que me ajudaram muito, até quando eu precisava de um medicamento e às vezes não tinha dinheiro. Quando eu perdi o Farofa, essas pessoas estiveram lá todas para mim.”
O Cão Invisível não foi escrito a pensar nos mais pequenos, mas o autor acredita que, também pela simplicidade da história, pode ser um óptimo ponto de partida para falar de temáticas como a morte e o luto, em particular de um animal de estimação. “Já houve pais a lerem para as suas crianças e a partilharem comigo”, conta. “Há crianças que fazem perguntas muito engraçadas. Por exemplo, por que é que a criança vê o cão antes de todo o mundo? Eu respondo que aquela criança também sou eu. Desde criança que a vida não foi muito fácil para mim. Não fui criado pelos meus pais biológicos, mas recebi muito amor de outra família, e o livro também fala sobre haver várias formas de amor.”
A primeira apresentação aconteceu no início de Maio, com Ana Markl, e diz que chorou muito. A próxima é no próximo sábado, 30 de Maio, numa sessão de autógrafos, às 17.30, na praça da Penguin Random House. “Espero que apareçam”, diz Wandson, que entretanto já tem ideias para mais livros. “Uma até dava um espectáculo, só falta alguém comprar”, brinca. “O outro talvez saia para o ano que vem. A história está a ser escrita, e sinto-me muito valorizado pela editora. Me respeitam muito com o processo criativo. Mas é isso. A melhor forma de colocar as nossas frustrações para fora é desenhando, e acho que vai ficar muito bonito mesmo.”
O Cão Invisível, de Wandson Lisboa. Iguana, 64 pp, 14,95€
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