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Crítica

150 Gramas

4/5 estrelas

Em Vila Franca de Xira, há um restaurante que marca a cozinha local há oito anos. Alfredo Lacerda foi lá jantar e aplaudiu de pé.

Alfredo Lacerda
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A Time Out diz

Há dias, em jeito de balanço, fiz uma revisita através da Internet por alguns dos restaurantes sobre os quais escrevi, nos últimos cinco anos. Foi desolador perceber que muitos, entretanto, fecharam.

Não estou a falar de restaurantes de que não gostei. Estou a falar de restaurantes bons. Restaurantes que acrescentavam à cidade. Restaurantes cujos donos, cujos chefs, sacrificaram as suas vidas pela arte de cozinhar e servir.

As razões para o fecho terão sido diversas, mas o que parece evidente é que cinco anos são muitos anos para um restaurante. Um restaurante que sobrevive mais de cinco anos, com um nível alto de consistência e qualidade, é um caso raro. 

Cinco anos em frente a um fogão equivalem a dez anos cá fora. Cinco anos a gerir cozinheiros e empregados de sala é como conduzir uma Kawasaki Ninja num trilho de lama. 

Ora, o 150 Gramas existe há oito anos e há oito anos que é um bastião da restauração contemporânea de Vila Franca de Xira, com reviews que competem com as do Belcanto (Google, esqueçam as outras). É de aplaudir e diz-nos que alguém sabe o que está a fazer e fá-lo com dedicação.

Lembrar que Vila Franca de Xira pode ficar perto ou longe da capital, consoante a A1 esteja desimpedida ou acidentada. 

No caso, fim do dia, estava um corrupio de carros a largar da capital, uma corrida de Fórmula 1 em direcção aos subúrbios, buzinadelas e manobras perigosas, uma azáfama para ir apanhar o miúdo na creche e comprar as cebolas para a sopa e fazer a sopa e o diabo a sete. 

Assim que meti as rodas na 2.ª Circular, pelas 19.00, a Antena 1 anunciou filas de dez quilómetros a partir de Alverca por causa de um acidente ocorrido às 16.00 (!). Nessa altura, Vila Franca de Xira deixou de ser o sítio encantador à beira de Lisboa para se tornar num inferno ribatejano. Demorei uma hora e vinte minutos a chegar ao destino. 

Sem acidentes, teriam sido apenas 20 minutos, sempre por auto-estrada, sendo que se estaciona perto e não se paga parquímetro. Ou seja, vale a pena ir a Vila Franca de Xira, mas certifiquem-se, antes, de que não há acidentes na A1. 

O meu conselho é que vão ao almoço e dêem um passeio à beira rio, com passagem pela Fábrica das Palavras, edifício premiado do arquitecto Miguel Arruda, onde se pode beber café e visitar a biblioteca, com o Tejo ali aos pés. 

Uma vez no 150 Gramas recebem-nos com sorrisos e parece toda a gente focada na nossa felicidade, incluindo um dos donos, Ricardo Leal (o outro é o chef Pedro Teles), que vigia e vai às dobras, quando falha a explicação de um prato. 

O menu é de fácil entendimento. Tem coisas modernas, algumas já vistas, outras originais, mas todas afinadas. 

Para começar, há croquetes de ossobuco, bruschetta de anchova, chamuças de pato, e couratos braseados e carpaccio de carne de Rubia Galega. Vem tudo em louça bonitinha, tachinhos, tacinhas, pratinhos – a condizer com o espaço, que combina azulejos e plantas tropicais, cabeças de touro e tijoleira, Ribatejo e Bali. 

Haverá alguns elementos posh, a gritar modernidade, mas o que importa é que logo a abrir ensoparam-se uma fatias de baguete magnificamente torrada em azeite Bare, delicioso. Na carta, diz-se que é da autoria do chef, o que não será exacto, ainda que possa ter sido feito a pensar nele.

Mas um restaurante que investe assim no azeite já ganhou pontos. O azeite pode não ser a gordura de sempre, em Portugal. Muita gente lembra que se usava mais a banha, que o azeite servia para alumiar. Mas sempre fomos um país de oliveiras. E se o azeite não é do passado, é do presente e deve ser do futuro – que a oliveira é uma sobrevivente e o azeite a gordura mais saudável e bonita. 

Daqui se conclui que o 150 Gramas dá atenção ao produto. Isso viu-se a abrir mas também a fechar a refeição, quando se atacou a carne. O único descritivo do prato, no menu, era “rubia galega (mal passada)”, o que desde logo tem a sua beleza. Na mesa, correspondeu, fatiada em peças de dominó, com um aro em redor, no centro a carne encruada, sem ser em sangue. 

 (Vila Franca de Xira). 963 615 144. Ter-Sáb 12.30-15.00, 19.30-23.00. 20-30€

Detalhes

Endereço
Avenida Combatentes da Grande Guerra n.º23
Vila Franca de Xira
2600-131
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