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Crítica
Os japoneses são um povo danado para copiar ideias e depois humilhar o criador. Foi basicamente isso que fizeram com três das comidas mais populares do país: a tempura (vegetais e pescado frito, de origem portuguesa), a sopa de noodles (a que chamaram ramen, de origem chinesa), e o tonkatsu (um pedaço de carne de porco desossado, de origem austríaca e de meio mundo).
Todos os três eram bons, mas todos os três ficaram melhores às mãos desta cambada de gente competente e trabalhadeira.
Importa-nos aqui, sobretudo, o tonkatsu (não confundir com tonkotsu, o ramen de porco). O tonkatsu é, portanto, uma versão oriental do panado de porco, comida dilecta do excursionista tuga — com ligeiras diferenças. A primeira é que, normalmente, o tonkatsu é feito com um corte do lombo. A segunda, e mais importante, é que é deep fried, ou seja, estupidamente frito.
Deep fried é uma coisa linda. Tecnicamente, significa submergir comida em gordura a temperatura muito alta, por breves minutos ou até segundos. O mal que o deep fried faz às nossas células é inversamente proporcional ao bem que faz ao nosso espírito. Qualquer coisa deep fried fica estaladiça por fora e suculenta por dentro.
É isto que se quer do tonkatsu e o tonkatsu é a estrela deste Hachi Kare-ya, casa aberta há cerca de um ano, aos Anjos.
Há depois duas maneiras clássicas de acompanhar o prato. Uma é com molho tonkatsu, por regra uma mistura de coisas processadas, entre elas Worcestershire Sauce, ketchup, soja, mostarda e saké. A outra é com molho de caril japonês, por regra um caril “roux”, atomatado (ketchup ou polpa de tomate), onde também entra pó de caril, farinha, batata, cenoura, cebola e manteiga. Uma espécie de Índia meets USA meets France.
Neste Hachi Kare-ya (cuja tradução literal significa “loja de caril 8”, sendo 8 o número da porta), segue-se a opção do molho de caril, pelo que temos, então, um pedaço de carne frita sobre uma poça de molho densa, aveludada e viscosa.
Depois, ao lado, há ainda um montinho amarelo. Que montinho é este?
Trata-se do omurice, uma mama de arroz branco, de bagos curtos e pegajosos, que levou por cima uma finíssima capa de omolete, como um solidéu, a boina do papa, mas espiralizado (se forem ao Instagram do restaurante, tem lá um vídeo a mostrar como se faz).
Este é o prato base do restaurante — sítio pequeno, luminoso e agradável, a puxar para o imaginário Anime — sendo que há duas variantes (com frango e camarão, este bem grandinho) e mais coisas boas e gulosas de petisco.
São os casos das quatro entradas provadas: as asinhas de frango (bem picantes, num molho à base de soja); da barriga de porco em molho agridoce (bem doce e bem agri); e do entrecosto guloso/especial da casa (igualmente adocicado e meloso).
Procurei tirar nabos da púcara sobre estas preparações, mas o dono, Henrique Pan, foi parco em revelações, afirmando que é “tudo feito de raiz na casa”. Não estou certo disso, mas estou certo que a comida é saborosa e há vontade de fazer bem e margem de progressão (aquela carne pode ficar mais húmida por dentro, por exemplo; e porque não usar cachaço?).
Quanto à sobremesa é de monoproduto, imperando esse doce que fez a tendência de 2022, a tarte de queijo basca — que aqui é “basuku”. Sempre gulosa, de índole caseira, numa das visitas a dita apareceu ligeiramente esbardalhada e, noutra, apareceu inteira mas pouco queimada — nada que deva fazer-nos hesitar.
Faltou ainda experimentar as massas e os arrozes, bem como um croquete japonês que, apesar de anunciado no menu do dia, esteve sempre em falta.
Em síntese. Vale a pena ir ao Hachi Kare-ya. Não se pense que é cozinha japonesa do Ocidente. A maioria da população da Terra do Sol Nascente, no dia-a-dia, come é disto (e não sashimi de pargo). Panados de porco. Com molhanga.
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