A Estupidez

Teatro
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A Estupidez
©Jorge Gonçalves

A Estupidez sai sempre cara, mas esta em particular merece que pague bilhete

Há quebra-cabeças que se resolvem num ápice. Outros há em que as peças parecem trocadas, não encaixam onde deviam, como se pertencessem a outro jogo. Até ao momento em que do caos nasce uma certa luz, a construção completa-se e sobrevém o orgulho de completar um mistério depois de juntar muitos pedacinhos. Tal e qual como em A Estupidez, o prémio está no fim.

O mundo está a espera de uma catástrofe. Melhor, algumas pessoas bem informadas, conhecedoras da História, capazes de articular uma dúzia de frases coerentes e pensar globalmente a longo prazo, acreditam que entre a ameaça climática, a pressão migratória, a crise de refugiados, a presidência Trump, o Brexit, as “democracias musculadas” da Rússia e da Turquia e da Hungria, o terrorismo, a crise económica, a manipulação algorítmica da informação, a robotização do trabalho, o racismo e a xenofobia populares, e ainda a confusão política na Europa, a coisa é Lei de Murphy chapada e não pode correr bem. Não é preciso muito para percebermos que estamos perante uma mudança, eventualmente uma revolução que, para o melhor e para o pior, vai mudando o modo de vida da maioria. O problema é compreender para onde vai, quer dizer, para onde nos leva e qual é o nosso lugar numa cultura que põe o individualismo e o dinheiro acima de todas as coisas. E Rafael Spregelburd (n. 1970) é uma dessas pessoas. Uma das que não deixa a árvore que tem à frente esconder a floresta. E por isso vive nesse limbo entre consciência, frustração e impotência. Limbo, para bom entendedor, plasmado nas entrelinhas da sua peça.

É um corrupio, por vezes uma vertigem, ver e ouvir estas 24 personagens (interpretadas por Andreia Bento, António Simão, David Esteves, Guilherme Gomes e Rita Cabaço, a mudarem de papel com bastante competência e à velocidade de um raio) entrarem e saírem de uns quantos quartos de hotel, algures em Las Vegas, e falarem, frenética e conspirativamente, sobre quadros falsos, relações bizarras e segredos por revelar, fortunas oferecidas e recusadas e mais uma quantidade de tópicos aparentemente soltos. Ou melhor, como escreveu Maria Ramos Silva, nesta revista, a semana passada, pense que “esta sucessão de histórias não passa de uma longa acumulação de disparates”. E agora pense se esta conjugação entre o ritmo do quotidiano e a velocidade dos acontecimentos não é, realmente, aquilo a que chamamos vida moderna. Nem o texto nem a encenação dão resposta. Verificam, e assinalam, através da organização de cena vivamente caleidoscópica de João Pedro Mamede, o estado das coisas.

Por Rui Monteiro

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