Cais Oeste

Teatro, Drama
Cais Oeste
©DR

Estar sentado numa plateia é normalmente confortável. Porém, estar duas horas e tal a ser esbofeteado, esmurrado, empurrado...

E durante esse tempo, além de agredido pelo texto, ver como ele contraria o conjunto de convenções geralmente tido como teatro, principalmente a ideia de que se está ali para ser entretido, pode ser inesperado, mesmo chocante. Mas também é um incómodo fascinante.

Cais Oeste é um deboche de agressividade a transbordar para fora do palco e a tentar, sabotando as expectativas, afectar a consciência de quem está para ser entretido. Bernard-Marie Koltès (1948-1989) queria provavelmente isso. Queria mais. Não direi educar ou consciencializar, que a sua fé na natureza humana era pouca, para não dizer nenhuma, mas ao menos mostrar, dar a ver o egoísmo e a perfídia a que leva a necessidade primal de sobrevivência. Embora complexo, o caminho é bastante simples. E, no caso, apesar dos muitos escolhos e bastos destroços espalhados por um texto feito de difíceis solilóquios e violenta corporalidade, bastante literal na sua intenção de usar o choque como virtude – o que é reforçado pela encenação limpa, escorreita na sua subtileza simbólica, de Carlos Avilez, a partir da dramaturgia de Miguel Graça.

A primeira cena é particularmente esclarecedora. Quando Koch (Pedro Lacerda) e Monique (Ana Nave) – ele, o ricaço com tendências suicidárias após desfalque, ela, a secretária-mãe-amanteprotectora – chegam àquele destroço industrial-portuário criado pelo cenário de Fernando Alvarez; quando percebem os corpos movimentando-se na escuridão como assombrações; quando conhecem aquela família ampliada de imigrantes separados do progresso e do bem- -estar por um rio que os outros acabam de atravessar como quem procura sarilhos… Nessa altura, está-se mesmo a ver, dali em diante é sempre a descer na escala evolutiva e civilizacional. Como vociferava o punk: não há saída, não há futuro. Apenas um momento de confronto, de desejo, mas sem esperança real.

Charles (Renato Pino), Fak (Miguel Amorim), Abad (Djucu Dabó), Cécile (Teresa Côrte-Real) e Rodolphe (Luiz Rizo) estão prontos para a chacina e para o saque, só Claire (Madalena Almeida) é capaz de alguma, enfim, compaixão, mas não suficiente para um final feliz nesta exibição de crueldade fundada na miséria e na discriminação e na diferença Nesta variedade de catarse dos fracos, de indignação incendiária dos de baixo perante um inimigo minado pelas contradições da consciência, provisoriamente frágil, provisoriamente à mercê.

Por Rui Monteiro

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