Noite da Liberdade

Teatro
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Noite da Liberdade
©Rui Carlos Mateus

O pano abre para a taberna de Josef Lehninger. É um dia atarefado para o taberneiro. Durante a tarde tem a casa alugada a um grupo nazi comemorando o Dia Alemão. Para a noite estão marcados uns democratas festejando a Noite Italiana. Uma voz fora de cena podia agora dizer, em tom apaziguador: era uma vez a democracia, em 1930, em Murnau, lá para a Baviera, e apesar de contraditórias ideologias dividirem a sociedade tudo corre pelo melhor. Podia ter dito, mas ainda bem que não diz, pois uns minutos depois anda tudo à traulitada.

Traulitada principalmente, entre os democratas, que o texto de Ödön von Horváth (1901-1938), como aliás qualquer pessoa sensata, critica pela incapacidade em se unirem e por sucessivamente menosprezarem a ameaça constituída por Hitler e o Partido Nacional-Socialista, muitas vezes para defenderem interesses mesquinhamente individuais. Sabemos no que deu e, de certo modo, o trabalho do dramaturgo é o de explicar como guerras internas de alecrim e manjerona levaram à derrota da República de Weimar. Como é trabalho assumido pelo encenador, Rodrigo Francisco, recordar nesta sua criação como os Orbán e os Erdogan e os Grillo e os Trump têm capitalizado a incompetência das castas de políticos tradicionais e, aos poucos, sem resposta apropriada e com apoio popular, vão ocupando espaço político e social, com eles, ironicamente, arrastando os trabalhadores, o antigo alimento ideológico e eleitoral da esquerda.

No palco a dinâmica que a encenação impõe ao elenco (Adriano Carvalho, André Pardal, Carlos Fartura, Duarte Guimarães, Guilherme Filipe, João Farraia, João Tempera, Maria Frade, Maria João Falcão, Marques D’Arede, Miguel Sopas, Pedro Walter, Tânia Guerreiro, Io Appolloni, Joana Castanheira, João Lisboa, Gabriela Lobato, Ruben Alex, Sileita Varela e Sofia Gonçalves e das amigas Dorinda Castro, Lucie Graux e Margot Viala) faz a acção correr a toda a brida. Com bandeiras da União Europeia convivendo com suásticas, camisolas dos Xutos & Pontapés a vestir antifascistas, trajes académicos a cobrir de negro fascistas; uns a tentarem manipular, outros a serem manipulados; uns quantos a quererem infiltrar as fileiras inimigas, e ainda alguns exaltados a conspirarem, na prática contra si próprios. E todos a falarem em nome do povo. O que não deixa dúvida de que estamos, como no tempo de Horváth, mesmo, mas mesmo a ter de pensar onde está e para onde vai a democracia.

Por Rui Monteiro

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