Topografia

Teatro
Topografia
©Leonor Buesco

Há por aqui três zonas a descobrir. Uma, feita de pessoas que partilham o mesmo espaço geográfico mas não se relacionam. Uma outra, que se enche de humanos que partilham o mesmo espaço e vão comunicando, mas sem grande relação. E ainda aquele território composto por quem partilha objectivos, mesmo que a partir de diferentes coordenadas. “Criámos três narrativas que se vão cruzando. Foram construídas em quadros e intercalam-se. Funcionam como uma espécie de alegorias”, descreve Guilherme Gomes sobre Topografia, o espectáculo que reflecte sobre o conceito de comunidade e que se estreia hoje.

O jovem colectivo Teatro da Cidade volta à carga, depois de uma badalada apresentação de Os Justos no palco da Cornucópia, em 2016. “Foi uma supresa ter provocado tanto pensamento, tanto diálogo com o público, que era o que queríamos.” O objectivo mantém-se. A casa de acolhimento é agora a dos Primeiros Sintomas, a um passo do Mercado da Ribeira, cenário de uma reflexão em torno de dois conceitos estruturantes. “Ao longo do processo lemos alguns textos de sociologia e cruzámo- -nos com um autor, o António Cícero, que falava sobre diferença entre sociedade e comunidade, e sobre os valores que existem na comunidade e que se perdem quando falamos de sociedade”, recorda o actor, que se junta a Bernardo Souto, João Reixa, Nídia Roque e Rita Cabaço. No final do ano passado, começava a desenhar-se o texto, uma vez abandonada a ideia inicial de encontrar um guião já escrito para os cinco do grupo, que conjugam esta participação com ocupações paralelas, em outros palcos, com outras companhias.

Para estes cidadãos, a definição de sociedade em contraponto à de comunidade começou lentamente a tornar-se menos evidente. E se o processo de criação não deixa de ter o seu espírito comunitário, com tudo o que de positivo encerra –“Pensamos muito nisso enquanto ensaiamos. É quase uma coisa imersiva nesse sentido” – nem tudo são trunfos. “Não é uma peça que pretenda contar uma história. A comunidade é um conceito associado à tolerância e solidariedade mas parece- -nos em falência. Olhamos para o mundo, e figuras como Trump e Le Pen assustam-nos. Preocupa-nos que as pessoas se isolem em preconceitos. Uma das vantagens da sociedade é precisamente a liberdade que permite. Na comunidade estás sujeito a muitos preconceitos e perseguições.”

Não é por acaso que introduzem no espectáculo a figura do estrangeiro, com a virtude de se apresentar como um elemento com a capacidade de observar a comunidade de fora e de testar os seus níveis de tolerância.

Por Maria Ramos Silva

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