Tristeza e Alegria na Vida das Girafas

Teatro
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Tristeza e Alegria na Vida das Girafas
©Filipe Ferreira

É uma coisa simples, um desejo de criança. Ela só quer autorização do primeiro-ministro para assaltar um banco, resolver o problema de desemprego do pai, e, enfim, ter direito a uma assinatura vitalícia do Discovery Channel, para poder continuar a aprender e a compreender o desconhecido da mesma maneira que aprende palavras novas todos os dias. Vai à luta, com o seu urso asneirento à ilharga, mas encontra um problema: o primeiro-ministro é Passos Coelho.

Para melhor compreender a peça de (e encenada por) Tiago Rodrigues (n. 1977) é preciso esclarecer que se estreou em 2011, andava a crise económica a toda a brida e o ainda presidente do PSD era chefe de um governo que só deu chatices, a bem dizer, a toda a gente que precisa do trabalho para viver. Posto isto, passados estes anos, mudado o governo do autoritarismo conservador para a habilidosa gerigonça, embora no essencial os problemas sejam os mesmos, a “pacificação” de António Costa retira algum impacto político imediato à obra (depois do que já se viu, sabe-se lá se o chefe do governo não arranjava uma solução para a personagem primorosamente interpretada por Carla Galvão?). Mas não o suficiente para deixar de ser um estimulante exercício sobre a palavra, a sua importância e a sua percepção; e ainda uma forma astuta e eficaz de intervir na realidade política e social, evitando a propaganda sem deixar de realçar a necessidade de acção política.

Para aqui chegar, o autor criou um dispositivo dramático e narrativo por vezes desnecessariamente complexo ou um bocadinho confuso, no entanto geralmente estimulante na sua subtil provocação, mesmo contando com o exagero de alguns solilóquios, aliás muito bem sustentados pelas representações de Miguel Borges e Pedro Gil nos seus diversos papéis. Neste dispositivo (debaixo da luz desenhada por André Calado e da banda sonora criada por Alexandre Talhinhas), uma miúda de oito anos apresenta um trabalho escolar como quem tenta “explicar o mundo” depois de uma aventura por uma Lisboa, aos seus olhos imaginária e fantástica. É nessa viagem, temperada pelo mau feitio, quase sempre lúcido, e por uma tendência incontrolável para o palavrão e a redundância de um urso de peluche chamado Judy Garland (Tónan Quito), mas que preferia chamar-se Spartacus Tchékhov; é nessa viagem, escrevi, que encontramos um país – como dizer? – descoroçoado e em grande parte vivendo uma espécie de indignação resignada. Ou seja: Portugal.

Por Rui Monteiro

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