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Bordalo II
Melissa Vieira

Bordalo II: "Isto é uma questão global da qual somos cúmplices"

Artur Bordalo, aka Bordalo II, pega no desperdício e cria arte. Falámos com ele sobre sustentabilidade nos dias de hoje

Por Francisca Dias Real
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Não lhe chama lixo, porque normalmente lixo já não serve para nada. Prefere chamar-lhe desperdício, a matéria-prima que aplica na sua arte. As peças de Bordalo II – como Plastic Seal, fotografada para a capa da quinta edição da Time In Portugal – evocam uma crítica à sociedade consumista e à forma como o ser humano explora, de forma abusiva, os recursos da natureza. Falámos com o artista sobre isto e mais umas quantas questões que a pandemia impôs.


Não és capa de revista, mas é uma peça tua que mostras pela primeira vez (Leia aqui esta edição digital). Conta igual. Em que contexto é que esta Plastic Seal (na foto) surgiu?

Fiz esta peça a propósito de outros projectos, mas como gostei particularmente dela guardei-a para ser exposta numa das minhas próximas exposições. Não queria que fosse para uma casa particular sem antes a mostrar ao público. Achei piada quando me convidaram para a capa, é uma forma de mostrar algo que eu estava a esconder.

Desses projectos, o que é que tinhas planeado que a pandemia não te deixou fazer?

Muitas coisas. Era suposto ter agora uma exposição em São Paulo, mas foi adiada. Hoje, quando dizemos que as coisas são adiadas, parece que ainda estamos em negação – nada é certo. Acho que isto nos ajuda a questionar sobre o tempo, vivemos muito por objectivos: quando é que são as férias grandes? Quando é o Natal? E muitas vezes deixamos passar o tempo, ficamos sempre à espera do que vem aí. Não damos o devido valor ao presente.

Disseste no Instagram que, finalmente, tiveste tempo para fazer uma peça para a tua casa. Usas o desperdício caseiro?

Como é uma peça mais pequena aproveitei algumas embalagens que iam para a reciclagem, tipo detergentes e champôs. E estar mais em contacto com o lixo doméstico deu-me outras ideias.

Podemos ser todos artistas em casa, então… 

Claro. A criatividade ajuda a passar o tempo. E aproveitando o facto de ter tido tempo para fazer uma peça para mim, também quis fazer para os outros: voltámos ao estúdio depois de uma quarentena longa, com os devidos cuidados, e decidimos fazer uma peça que está a ser leiloada a partir desta esta semana, pela Cabral Moncada, e cujo valor angariado reverte para a Humans Before Borders, que trabalha no terreno com médicos em campos de refugiados. Não imaginamos o que é viver uma pandemia onde não se tem sequer uma casa. Temos de ter tempo para pensar no outro.

Ainda nesse post, dizes que agora até temos mais tempo para tudo o que não era uma prioridade para nós…

É um tempo controlado, porque não é para ir para a praia ou passear. Mas é tempo, um bem escasso, portanto deve ser aproveitado para fazermos tudo o que andamos a adiar. 

Há mais tempo para reflectir sobre o que está a acontecer? Ou há uma romantização da quarentena como um período para nos repensarmos, mesmo sabendo que nos cortaram as redes de conforto?

É muito complicado. A nível ambiental, o que se está a passar é fantástico – as indústrias mais poluentes estão paradas e há resultados positivos, mas sabemos que esses resultados se não fossem impostos não aconteceriam, porque as grandes indústrias empurram o problema com a barriga. Mas preocupa-me também o outro lado que é, em tempos de crise, a prioridade ao acesso a comida e saúde. Nestas alturas, normalmente há menos preocupação com a natureza.

Prioridades...

Claro, também me preocupa a economia, que parou de repente e que, quando finalmente pudermos retomar, seja feita uma aceleração dos processos que prejudique ainda mais o ambiente. É uma fome de produção justificada, porque é a economia que traz poder de compra às pessoas.


Há quem diga que este caos foi causado pela ingestão de um animal. Se formos ver o teu trabalho está ligado aos animais e à acção humana. Reforça a mensagem que tens tentado passar?

Está tudo ligado à forma desrespeitosa como os humanos tratam a natureza. Quando falamos de culturas que não respeitam a natureza e cometem alarvidades com animais, esquecemo-nos dos nossos próprios comportamentos. Não sou fundamentalista em relação ao consumo de carne ou de produtos de origem animal, até porque muitos de nós cresceram numa sociedade onde até na escola nos incentivavam a consumir determinadas coisas, mas tem de haver um equilíbrio. Voltando a esta questão da pandemia, faz-me confusão como é que as pessoas não pensam no simples facto de este ser o único planeta que temos. A solução não é apontar o dedo às grandes potências, é olharmos para nós e para o que compramos e consumimos, para os ténis que temos calçados, para as calças – estas economias só funcionam assim porque continuamos a alimentá-las. Isto é uma questão global da qual todos somos cúmplices.

Esta situação pode ser um catalisador para a sustentabilidade? Ou pelo menos para a mudança de comportamentos?

Espero que seja. O bicho homem esquece-se muito facilmente – espero que isto não caia no lado banal e que as boas práticas continuem.

Também são tempos difíceis para os artistas. Mas que papel tem a arte nesta altura?

É importante pessoas que têm alguma visibilidade tomarem acção. Apesar de a arte ser muito afectada, tem o seu peso na hora de chegar às pessoas, que estão em casa aborrecidas. A arte não é só a pintura ou escultura, aquilo que o Bruno Nogueira está a fazer, por exemplo, é arte, é performance e entretém-nos a todos. Acho que é um bom exemplo de que a arte importa, mesmo agora.

E além dos lives do Bruno, o que é que te entretém nesta quarentena? 

Tenho feito muita pesquisa e agarrei em coisas que tinha no caderno e que achei que nunca iam ganhar vida. Sejamos artistas ou não, a criatividade ajuda-nos a resolver este puzzle.

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