Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Porto icon-chevron-right Sara Barros Leitão cria a Cassandra e um clube do livro feminista

Atenção, continuamos a tentar dar-lhe a informação mais actualizada. Mas os tempos são instáveis, por isso confirme sempre antes de sair de casa.

Sara Barros Leitão
Fotografia de Filipe Ferreira Actriz e encenadora Sara Barros Leitão

Sara Barros Leitão cria a Cassandra e um clube do livro feminista

A actriz e encenadora portuense criou a sua própria estrutura artística, cujo primeiro projecto é um clube do livro com sessões online e gratuitas. O objectivo é dar a conhecer e dar a debater obras que se afastem do cânone masculino, branco e europeu.

Por Mariana Duarte
Publicidade

“As tragédias começam sempre com uma cidade assolada por uma peste, então achei que 2020 era uma boa altura para criar uma estrutura artística.” Em ano de pandemia, a actriz e encenadora Sara Barros Leitão decidiu avançar com uma ideia que já tinha há algum tempo: fundar uma estrutura onde pudesse desenvolver os seus projectos e as suas criações, estipulando os seus próprios valores e orientações éticas. “Melhorar as condições laborais das pessoas que trabalham comigo era algo que me interessava”, exemplifica.

Assim nasceu a Cassandra, “nome de mulher”, nome de uma personagem da mitologia grega, nome de uma figura que, de várias formas, representa o feminismo que a actriz e criadora portuense quer trazer para o centro deste projecto. “Apolo quis dormir com Cassandra e, em troca, dava-lhe o dom da profecia. Ela aceitou, mas no momento em que iam consumar o acto sexual, ela recusou e disse que afinal não queria. Ou seja, temos aqui a questão do consentimento”, diz Sara Barros Leitão. Para castigar Cassandra, Apolo colocou-lhe outro feitiço: ela ia sempre conseguir ver o futuro, mas ninguém ia acreditar nela. Ao longo da mitologia grega, foi vista como histérica, como louca. “Isto não é muito diferente do que se passa hoje com o lugar de fala da mulher. As mulheres são pouco ouvidas, não são levadas a sério e são desacreditadas."

A primeira iniciativa desta nova estrutura é um clube do livro feminista chamado Heróides, nome roubado ao livro homónimo de Ovídio, em que o autor escreve várias epístolas assinadas pelas heroínas da mitologia grega e romana. Tal como Sara pretende fazer com a mitologia e os grandes clássicos – questioná-los e deslocá-los das narrativas dominantes e androcêntricas –, este clube tem como objectivo dar a conhecer e dar a debater obras que se afastem do cânone masculino, branco e europeu. “No início do ano passado, uma amiga contou-me que decidiu fazer um excel com todos os livros que andava a ler e pôr o género e a nacionalidade dos autores. Isso ajudou-a na procura de outras autoras, de outras zonas do mundo. Quando ela me disse isto, eu fiz uma radiografia mental do que andava a ler e percebi que o meu discurso era muito contraditório com aquilo que eu lia”, conta Sara Barros Leitão, que investiu neste clube o dinheiro que recebeu do Prémio Revelação Ageas Teatro D.Maria II.

Para contrariar esta visão parcial do mundo, e fazê-lo em conjunto, a actriz convidou 12 pessoas a escolherem 12 livros que serão lidos no clube até ao final do ano, a um ritmo mensal, com acesso gratuito e com interpretação em Língua Gestual Portuguesa. As sessões das Heróides decorrem online, no Zoom, não só por causa da pandemia, mas também porque isso permite tornar o projecto mais democrático e transversal – logo, mais inclusivo; logo, mais feminista. “Assim, as pessoas que não moram nos grandes centros urbanos podem participar”, nota Sara. “Tenho pessoas inscritas que são emigrantes na Suíça e no Luxemburgo, que são do Brasil, do Fundão, de São João de Pesqueira... Isso é muito especial”.

As inscrições para o primeiro encontro, que acontece no dia 30 de Janeiro em torno do livro Corpos na Trouxa - Histórias-artísticas-de-vida de Mulheres palestinianas no Exílio, de Shahd Wadi, já estão fechadas. Esgotaram num instante, o que levou Sara Barros Leitão a desdobrar a sessão entre o Zoom e o Webinar, de modo a acomodar 530 participantes. Os links são privados e intransmissíveis, já que a ideia é criar um espaço seguro e confortável, onde “as pessoas se sintam à vontade para falar” e onde não são permitidos “discursos de ódio, linguagem ou atitudes racistas, xenófobas, sexistas. Também por isso, as sessões não serão gravadas. A próxima é a 27 de Fevereiro, com o livro As Ondas, de Virginia Woolf, e com a actriz e encenadora Sara Carinhas como convidada (as inscrições abrem no dia 1).

“Escolhi 12 pessoas com experiências e vidas muito distintas entre si”, refere Sara Barros Leitão. “Basicamente, pensei: ‘quem é que eu gostaria que me sugerisse um livro?”. Entre as convidadas do clube estão Ana Catarina Correia, investigadora e activista pelos direitos das pessoas com deficiência, que, em Março, irá trazer o livro Mulheres Invisíveis, de Caroline Criado Perez. Em Maio, a militante LGBTI Verónica Lopes apresenta Trans Iberic Love, de Raquel Freire. Em Agosto, a activista e advogada cigana Alcina Jacinto Faneca escolhe Todos Devemos Ser Feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie, e, no último mês de 2021, é a vez de Paula Cardoso, jornalista e fundadora do site Afrolink, com Carta à Minha Filha, de Maya Angelou. O clube incentiva a que os livros sejam comprados em pequenas livrarias, e isso já está a surtir efeito. “Tenho tido vários livreiros a escreverem-me e soube que o livro da Shahd Wadi está perto de esgotar.”

Além das Heróides, outro dos projectos da Cassandra para este ano é o espectáculo Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa, com estreia agendada para Novembro no Centro Cultural de Belém (seguirá depois em digressão, com paragem no Porto em 2022). Sara Barros Leitão volta a atirar-se a um monólogo desenvolvido a partir de um processo de pesquisa, desta vez feito em parceria com a socióloga Mafalda Araújo sobre o trabalho doméstico. “Esta investigação parte dos documentos do primeiro sindicato de trabalho doméstico em Portugal e de todos os movimentos das mulheres empregadas domésticas, que desde 1920 começam a organizar-se”, contextualiza a criadora, que irá trazer para cima da mesa uma série de questões implicadas directamente no trabalho doméstico e reprodutivo: a mão-de-obra imigrante e precária, a violência de género, as desigualdades sociais. “Estudos recentes dizem que a mulher trabalha, em média, mais uma hora e quarenta por dia do que um homem em trabalho doméstico e reprodutivo não-pago.” É por estas e por outras que continuamos a precisar de projectos como a Cassandra. Bem-vinda. 

Mais para ler:

Flâneur
© Flâneur

As livrarias do Porto que entregam livros em casa

Compras Livrarias

O Porto é um paraíso para os amantes de livros. Nesta altura, em que passamos mais tempo enclausurados, os livros são uma boa companhia. Com um bom livro, é mais fácil escapar à realidade que agora que nos prende entre quatro paredes. O prazer de ler – de desaparecer e de mergulhar num mundo melhor – é uma solidão bem acompanhada. Fique em casa, mas não fique sem livros. Apoie as livrarias independentes do Porto. Siga esta lista para saber onde pode continuar a encomendar as suas leituras.

Recomendado: As melhores livrarias no Porto

 

Actriz e encenadora Sara Barros Leitão
© Maria Inês Peixoto

Sara Barros Leitão escreve um monólogo para a quarentena

Teatro

Decidimos passar a palavra a quem nos inspira. A quem se tenta manter à tona numa altura em que a precariedade laboral se torna ainda mais aflitiva. Convidámos a actriz e encenadora Sara Barros Leitão para escrever o início de uma hipotética peça sobre este período de pandemia e confinamento. O resultado encontra-se nesta página. Como ela cumpriu o limite de caracteres, o final deste “micro-monólogo” ficou a meio. E a hipotética resposta ficará no ar. Obrigada, Sara.

P.S.: Sara Barros Leitão cede os direitos de autor deste monólogo durante o período de confinamento, para que qualquer actriz ou actor o possa fazer na sua varanda ou à janela.

 

Recomendado

    Também poderá gostar

      Também poderá gostar

        Publicidade