Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Porto icon-chevron-right Júlio Machado Vaz: “Seria bom que as pessoas se apercebessem do quão valioso é o abraço"
Escritor, Sexólogo, Júlio Machado Vaz
©Mário Santos Júlio Machado Vaz

Júlio Machado Vaz: “Seria bom que as pessoas se apercebessem do quão valioso é o abraço"

Como cuidar da sua saúde mental neste período de confinamento? O psiquiatra e sexólogo Júlio Machado Vaz responde numa entrevista à distância.

Por Mariana Duarte
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Como cuidar da sua saúde mental neste período de confinamento? Para lhe dar algumas pistas, falámos com Júlio Machado Vaz, psiquiatra, sexólogo e autor de vários livros a ler nesta quarentena. Ninguém disse que ia ser fácil, mas não desespere.

Que factor está a ser mais problemático para a saúde mental neste momento: a falta de contacto presencial ou as alterações na rotina?
Não se pode destrinçar as duas coisas. Mas, primeiro ponto fundamental, nós não devemos confundir isolamento físico, que é aquilo que nos está a ser pedido, com isolamento social. Todos aqueles que estão em isolamento físico devem tentar manter o maior número de relacionamentos sociais possível. E a tecnologia é, neste momento, um meio privilegiado para nos mantermos em contacto uns com os outros. É evidente que há, desde logo, dois pontos de ordem: primeiro, entre os mais velhos é mais frequente a incapacidade de utilizar a tecnologia, portanto é muito mais simples a geração dos meus filhos estar no FaceTime e no WhatsApp. Eu não sei mexer em muitas dessas coisas, mas sei telefonar e mandar um email. Cada um faz como pode. Segundo aspecto: as desigualdades no estatuto social e económico aqui também contam. Seria hipócrita estar a dizer para várias camadas da sociedade portuguesa andarem a usar isto e aquilo quando vivem em situações de pobreza ou no limiar da pobreza. Estão em clara desvantagem, como estão sempre. Mas isto é importante: enquanto o isolamento físico é quase absoluto, para grande parte da sociedade portuguesa o isolamento social não é. E isso deve ser alimentado, porque sabemos que o suporte social é importante para a nossa saúde física e, obviamente, psicológica.

Mas e quem está mais fragilizado em termos económicos? E no que diz respeito aos mais velhos?
Essas pessoas precisam de suporte a nível das instituições.

E, inclusive, ter apoio por parte dos vizinhos.
Era o que eu ia dizer. Quando vemos cada vez mais iniciativas de gente mais nova a disponibilizar-se para ir fazer compras, etc., isso é algo que me orgulha. A solidariedade é, neste momento, um dos medicamentos mais potentes para qualquer tipo de situação como esta.

Considera errado, ou prematuro, afirmar que os idosos estão a ser mais afectados por isto, em termos de saúde mental? Ou depende sempre de pessoa para pessoa?
Vamos pegar no fim daquilo que disse, porque ninguém é todo igual. Se pensarmos um pouco, são muito mais parecidas entre elas as crianças do que os idosos, porque os idosos têm uma vida para trás que não foi igual. Nós temos, muitas vezes, e não só em relação aos idosos, aquela visão discriminatória do “isto é um grupo homogéneo e pode ser tratado, a todos os níveis, da mesma maneira”. Não é verdade. Há idosos a dizerem-me: “perante a vida que eu faço, isto praticamente não beliscou o meu quotidiano”. Há pessoas que estão habituadas a viver sozinhas há anos e anos.

E que sabem lidar com esse isolamento.
Sim. Na sequência do Dia do Pai, eu, que todas as noites ponho uma música no meu mural [do Facebook], expliquei que foi um dia agridoce porque não estive com os meus filhos, mas que eles ligaram os dois ao mesmo tempo, lá com a tal coisa que eu não sei fazer, com eles na imagem, e eu fiquei enternecido. Caiu-me, imediatamente, uma enumeração de comentários de gente a dizer que estava na mesma situação. Por exemplo, uma senhora escreveu que a filha veio de carro, parou no outro lado da rua e disseram adeus uma à outra. Quem não tem cão caça com gato. Já seria bom – infelizmente, nesse aspecto não sou um optimista – que as pessoas se apercebessem do quão valiosos são, para a nossa saúde mental, o abraço, o aperto de mão, a tertúlia, o almoço em família ou com os amigos. Nós vivemos a uma velocidade que, muitas vezes, nos faz sacrificar isso. Nós damos as coisas e as pessoas como dados adquiridos.

As relações – familiares, amorosas, sexuais, de amizade – serão diferentes quando isto acabar?
Tenho a certeza de que, durante algum tempo, sim. Atendendo à dimensão disto, gostava de acreditar que a longo prazo [também], mas aí tenho muitas mais dúvidas. A memória das pessoas é curta. Mas, por exemplo, gente com quem eu não falava há uma data de tempo manda-me agora mensagens a perguntar se eu estou bem. A esse nível, pelo menos, era bom que nós aprendêssemos com uma situação destas.

E que as pessoas deixassem de ser tão egoístas.
Claro. E estamos, sobretudo, a falar de relações de amizade. Nas relações amorosas, é indiscutível que estamos numa situação extremamente complicada. Não só em termos do casal, mas com os próprios filhos – estamos em clausura, 24 horas sobre 24 horas. Vou dar-lhe exemplos práticos: aquelas pessoas que, ao fim de 15 anos, continuam a gostar de ir jantar sozinhas e não têm que sair em grupo, que continuam a chegar ao último dia de férias com pena de elas terem acabado... esse tipo de relações, evidentemente, aguentará muito melhor esta situação do que relações que já tinham fissuras. Nesses casos, a probabilidade de alargar essas fissuras é maior.

E há alguma maneira de amenizar isso?
Depende muito do estado da relação. Não é obrigatório que isso aconteça, atenção. Em algumas relações, pode ser uma oportunidade para, olhos nos olhos, as pessoas fazerem um ponto da situação, não poderem evitar falar sobre as questões e, em alguns casos, eventualmente resolvê-las.

Seja para o bem ou para o mal.
Eu estava a falar para o bem. Para o mal se calhar já é tarde demais. Mas aí, nota de rodapé: eu vejo casais que, sem nenhuma epidemia, limitam-se a habitar debaixo do mesmo tecto. Esses vão continuar a fazê-lo, evidentemente mais irritados. Divorciados eles já estão, em termos afectivos.

Qual é a sua aposta: mais divórcios ou um baby boom?
[Risos] Também há gente a discutir isso no meu mural. Eu ficaria muito surpreendido se não acontecessem duas coisas: se não houvesse o agravar de conflitos e não houvesse um reacender de relações eróticas. Agora, minha cara, o baby boom depende de cada um. Ainda há métodos contraceptivos. E, neste momento, tomar a decisão de engravidar também não é fácil.

Não é, até porque vem aí uma crise económica gigantesca.
Pois. O que é que aconteceu em 2008? As pessoas meteram travões às quatro rodas. Agora vai ser a mesma coisa. E garanto-lhe que, neste momento, já há pessoas em sofrimento económico e com horizontes bastante negros. Já há artigos a falar dos milhões que vão ficar no desemprego.

Obviamente. E isso gera mais uma camada de ansiedade.
Compreensivelmente. Basta dizer-lhe isto: não tendo esta dimensão, quando foi aquela coisa do SARS [Síndrome Respiratória Aguda Grave] em 2002, a psiquiatria elaborou vários trabalhos em que, sem margem para dúvidas, se percebia que tinham aumentado as depressões. Mas outra coisa de que as pessoas falam pouco é que, depois de períodos de isolamento, há quem desenvolva verdadeiros quadros de stress pós-traumático.

Se calhar até vamos ver mais complicações, pelo menos mais concretas, quando isto terminar ou acalmar.
Em termos físicos, seja num ano, ano e meio, vão conseguir ter uma vacina, portanto isto vai acabar. Não somos nós que vamos acabar. Mas as questões psicológicas têm o péssimo hábito de se arrastarem.

Sobretudo para quem já tem depressão e ansiedade crónicas.
Imagine alguém – e são muitos alguéns – que já entra nisto deprimido ou com crises de pânico. Isto só potencia a patologia subjacente.

O que é que essas pessoas podem fazer? E que, no fundo, nos pode a ajudar a todos e todas?
Já falei na manutenção dos laços sociais. As rotinas e a exigência connosco são importantes. Fazer exercício, resistir à tendência de nos desleixarmos nos horários das refeições, vestirmo-nos. As pessoas dirão: “isso são pequenas coisas”. Mas é um amontoado de pequenas coisas que nos mantêm em movimento.

Voltando às relações. Os casais que trabalham fora e agora estão ambos a trabalhar em casa. Como fazer para não descarregarem a tensão um em cima do outro?
O que eu tenho recebido mais nem são queixas. É a dificuldade – que é diferente –, das mulheres, mas também de alguns homens, que estão em teletrabalho com as crianças em casa. É que não é só tomar conta das crianças, é ajudá-las, muitas vezes, nos trabalhos escolares.

E as tarefas domésticas, que já se sabe vão sobrecarregar mais as mulheres.
Há quem diga, com um ar muito orgulhoso, que “as mulheres são multitask”, e isso é uma armadilha terrível. Como são multitask têm como prémio ficar exaustas mais cedo. Ainda não recebi nada de duas pessoas em teletrabalho, mas já recebi uma pipa de coisas a dizer: “Estou a sentir-me mal porque acho que não estou a fazer o trabalho com a qualidade que posso, porque não estou a cuidar dos miúdos como posso”. Nesse sentido, as pessoas sentem-se a rebentar pelas costuras.

Não podem ser tão exigentes com elas próprias.
É isso que respondo. Mais a mais, dizendo-lhes que isto é só o princípio. E dizendo também: se você ficar exausta ou exausto – normalmente é exausta –, depois não consegue fazer nenhuma das coisas. É preciso parar, contar até dez, contar até 100. Dizer assim: “Eu estou a tentar cuidar dos outros e para isso é preciso cuidar minimamente de mim”. Como é que eu me sinto? O que é que pode ser conversado e partilhado entre nós? O que pode ser explicado aos mais novos? Vivemos a uma velocidade que nós, verdadeiramente, não agimos – nós reagimos. De vez em quando é preciso parar. “Parar é morrer”, fomos educados assim. Eu não direi exactamente o contrário, mas não parar também pode ser morrer de uma certa forma. Se nós não pararmos para pensar, arriscamos que partes de nós, em termos afectivos e relacionais, possam começar a desaparecer.

No caso de relações amorosas que começaram há pouco tempo, aí entra outro factor de ansiedade: agora que não podemos estar juntos, será que isto se vai aguentar?
É verdade, mas aí eu acho que vai haver longas horas de Skype, sexo telefónico, sexting, essas coisas todas. E não se esqueça de uma coisa: a distância também propicia à idealização. O outro com quem não conseguimos estar fica coberto, não de lantejoulas, mas de virtudes que eventualmente pode não ter.

E para quem está sozinho? Quais as estratégias de diversão, além da masturbação?
Quem está sozinho, já estava sozinho antes e prefere estar sozinho... pode acontecer que comece a pensar nisso, mas não é muito provável. Quem não prefere, resta-lhe alimentar os seus conhecimentos e tentar até alargá-los através da tecnologia. Não estou a falar do Tinder...

O Tinder pode continuar a funcionar, mas sem o contacto físico.
Perfeitamente. Mas vamos com calma: primeiro, tentar encontrar gente com interesse. No meio das pessoas que vamos conhecendo, pode aparecer alguém, que por uma frase ou por um smile qualquer que pôs, dê vontade de conhecer melhor. E agora tem-se todo o tempo do mundo para isso.

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