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A escola da PIDE existiu? 11 propostas de arte pública estão em votação, para não deixar esquecer

Foi na Estrada de Benfica que se admitiram e formaram dezenas de agentes da polícia política. Em 2022, restava o muro da escola, desaparecido na requalificação da praça de Sete Rios.

Rute Barbedo
Escrito por
Rute Barbedo
Jornalista
O muro que restava da Escola Técnica da PIDE/DGS
DR | O muro que restava da Escola Técnica da PIDE/DGS
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Estrada de Benfica, número 239. Aqui funcionou, desde 1948, a Escola Técnica da PIDE/DGS (Polícia Internacional e de Defesa do Estado/Direcção-Geral de Segurança), onde se ensinavam aos novos agentes técnicas de opressão e tortura. Depois da tomada do edifício, a 27 de Abril de 1974, veio a decadência, mas o último resquício da escola durou até há muito pouco tempo. O muro perto da lateral do Jardim Zoológico desapareceu com a requalificação da Praça Marechal Humberto Delgado, entre 2022 e o ano passado, e isso fez levantar uma pergunta: "O que podemos fazer para não apagar a memória?" Em resposta, o Atelier Artéria (que junta artistas de várias disciplinas, do vídeo à escultura), em colaboração com a Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica e o Centro de Investigação em Belas-Artes da Universidade de Lisboa, lançou um processo participativo para a criação de uma peça de arte pública, a ser instalada no local da antiga escola

"Quando viemos para este espaço [o atelier, que fica junto à antiga escola], ainda existia aqui uma parte do muro", conta Tiago Jordão, do Atelier Artéria. A partir do momento em que desapareceu, foi como se se tivesse apagado um pedaço da memória e cresceu a agitação na vizinhança. As posições sobre o tema variam, claro. Há quem defenda que memórias como a existência da PIDE devem ser eliminadas, por fazerem parte de um passado ao qual não se quer regressar. Outros acreditam que é precisamente por isso, para lembrar o lugar onde não fomos felizes, que não se deve deixar cair a escola no esquecimento.

A "máquina de formatar cabeças", representada numa das sessões de trabalho
DRA "máquina de formatar cabeças", representada numa das sessões de trabalho

"O primeiro desafio que tivemos foi esse: como fazer para dar a entender que a ideia não era criar um monumento ou um memorial, mas que seria importante fazer parte para não esquecer. Não é bem lembrar, é não esquecer", nota Tiago. "[A escola] foi uma coisa que esteve no backstage do regime e que facilmente se apagou, num processo silencioso. A ideia disto é não deixarmos desaparecer a memória histórica", complementa Sérgio Vicente, investigador dedicado à área da arte pública e professor na Faculdade de Belas-Artes.

Fazer parte

Por outro lado, o envolvimento da população pareceu aos mentores do projecto, desde o momento zero, essencial. Além da memória que poderia ter sobre a escola, tem também "o direito e o dever de decidir sobre arte no espaço público", defende o atelier, em uníssono. E o processo, embora mais trabalhoso, deu "a possibilidade a cada um de, ao longo do tempo, dar a sua opinião e testemunho" e de materializar ideias, como nota Sérgio Vicente. "Portanto, estamos a mostrar que este é um caminho possível para se fazerem as coisas."

Uma das propostas envolve a ideia de "muros"
DRUma das propostas envolve a ideia de "muros"

Depois de contactados, "cara a cara", vários moradores e comerciantes da zona, a primeira sessão de trabalho aconteceu em Novembro de 2024. "Conversámos com a população, ouvimos os seus testemunhos e a sua experiência, a sua visão do que foi a Escola da PIDE e do lugar que ocupava. Complementámos estes dados com a caracterização sócio-territorial do lugar: estudo do território, identidade, modos de vida, cultura material sobre a Escola Técnica da PIDE", explica-se no texto descritivo do projecto "Fazer parte para não esquecer". Seguiram-se mais três reuniões, na presença de profissionais das áreas da Antropologia, Artes, História, Urbanismo ou Arquitectura, até que, depois de materializadas 11 propostas sob a forma de maquetes, esta segunda-feira, dia 8 de Setembro, começou o período de votação, que se estende até ao final do mês. No local, há mesmo boletins de voto e uma urna, mas também é possível votar à distância (sejam moradores ou não, portugueses ou estrangeiros). As votações online podem ser feitas através do seguinte formulário: https://forms.gle/TtQMT7AUxhPPipjM8.

A roupa a secar à janela

"Eu passava à porta da Escola da PIDE, quase todos os dias, quando era pequenina. E lembro-me bem de que havia deste lado uma janela, às vezes com roupa estendida, outras com uma cafeteira no parapeito. É uma imagem simples, mas que me marcou muito, porque eu pensava: ali dentro estão pessoas tão más e ainda assim têm estes actos humanos, como qualquer um de nós", conta à Time Out Helena Barros, participante no projecto, moradora no bairro e membro da Assembleia de Freguesia de São Domingos de Benfica, pelo PCP.

Uma das maquetes em votação
DRUma das maquetes em votação

Também Amália Andrade, que vive na zona há cerca de dez anos, decidiu integrar o processo participativo por uma questão de defesa do seu direito à cidade. "[Quando a obra estiver no local], espero poder sentir que é um espaço do qual faço parte e também gostava que tivesse um significado para quem passar ali", comenta. Ao mesmo tempo, acredita que "a memória apaga-se facilmente e a reconstituição da história também", pelo que marcar este episódio de um passado com mais de 50 anos é "importante pensando no presente e no futuro, também para acautelar que não é bom repetir isto", considera a moradora.

Uma das maquetes em votação
DRUma das maquetes em votação

Das 11 maquetes finais, sobressaem ideias como uma "máquina de formatar cabeças", um exemplo de secretária do Estado Novo na qual se aprendiam técnicas de opressão e tortura, ou a desumanização. "Gostávamos que também houvesse um conteúdo textual", que ajude a enquadrar o funcionamento da escola e os tempos da PIDE, explica Tiago Jordão.

Terminado o período de votação, será necessário recolher apoio financeiro para executar a peça eleita e avançar para o terreno. "O ideal era que estivesse pronto no 25 de Abril", atira Sérgio Vicente. 

Notícia actualizada às 12.33 de 15 de Setembro, com o endereço que permite o voto à distância.

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