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Ao 78.º mural, Amadora pondera dar um twist à arte urbana no concelho

Conversas na Rua levou oito novos murais à Amadora em Setembro. Mas para que o modelo de festival não se esgote, a organização está a estudar ponte com a banda desenhada.

Rute Barbedo
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Rute Barbedo
Jornalista
Pintura em desenvolvimento, por Jorge Charrua. Rua Elias Garcia, 149 (Venteira)
Rita Chantre | Pintura em desenvolvimento, por Jorge Charrua. Rua Elias Garcia, 149 (Venteira)
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Passada a rotunda das Portas de Benfica, vindos de Lisboa, uma placa anuncia a entrada na esfera da videovigilância. Bem-vindos à Amadora, a cidade que “está sempre a levar por tabela relativamente à insegurança”, nas palavras do próprio presidente da Câmara, Vítor Ferreira, numa entrevista de 2024 à Time Out.

Na cidade dos estigmas, há, claro, fragilidades reais. Fracturas socioeconómicas, bairros, edifícios e infra-estruturas por cumprir e reabilitar. “Nesse aspecto, o festival [Conversas na Rua] mudou muito a paisagem e ajudou a acabar com o estigma em algumas zonas”, acredita Ana Dias, artista ligada à banda desenhada – a grande marca cultural do município, que organiza o Amadora BD desde 1990 e que este ano acontece de 15 a 25 de Outubro –, convidada a participar na primeira edição do festival de arte urbana da cidade, em 2015. 

Começou-se com menos de meia dúzia de murais, depois de as pessoas “já se terem familiarizado com a arte urbana”, a partir de umas obras aqui e ali, na Rua Elias Garcia, junto ao IC19 ou à CRIL, e muitos anos depois de Odeith, o artista-embaixador da Amadora, ter conseguido firmar (também do ponto de vista legal) o seu hall of fame da Damaia, nos anos 1990, ainda com as linhas de uma subcultura e contra-cultura. 

Salgueiro Maia pintado por Odeith (Avenida Dr. Fernando Piteira Santos)
DRSalgueiro Maia pintado por Odeith (Avenida Dr. Fernando Piteira Santos)

Passados 11 anos do primeiro Conversas na Rua (a mais recente edição terminou oficialmente a 14 de Setembro, mas dias depois ainda havia quem andasse frente a empenas e muros), “muitos moradores pedem para pintar os prédios”, conta Catarina Valente, fundadora e directora do festival. Há também quem sinalize lugares da cidade a precisar de algum tipo de intervenção. Aconteceu junto ao Museu da Amadora (antigo Museu Municipal de Arqueologia), no Parque Aventura, lugar tornado ponto de consumos, “constantemente vandalizado”, ao mesmo tempo que era frequentado por crianças. “Os moradores estavam preocupados e pediram que fizéssemos alguma coisa. Nós acedemos e a vivência do espaço mudou. Não vou dizer que isto acontece sempre. Há sítios que são pintados, faz-se um trabalho com a comunidade, tenta-se mais do que uma vez e mesmo assim não conseguimos. Mas há outros em que funciona”, relata a responsável. 

“Os moradores estavam preocupados e pediram que fizéssemos alguma coisa. Nós acedemos e a vivência do espaço mudou. Não vou dizer que isto acontece sempre, mas há casos em que funciona"

Em paralelo, criam-se peças de arte participativa (integradas no projecto europeu Rethink, financiado pelo programa Europa Criativa), como a da Praceta António Duarte, no Casal da Boba, em que a comunidade foi convidada a pensar no que gostaria que fosse aquele espaço. “Era uma praça de betão e tijolo, sem nada que a identificasse. Trabalhamos com os Los Pepes Studio e eles com a comunidade. Agora, vista de cima, tem um padrão, e esse padrão são jogos”, descreve Catarina Valente. Durante o processo, como também acontece durante o festival, os moradores traziam cadeiras para ver a obra a fazer-se e preparavam o almoço para os artistas. 

Praceta António Duarte, Casal da Boba. Projecto artístico de Los Pepes Studio
DRPraceta António Duarte, Casal da Boba. Projecto artístico de Los Pepes Studio

“Uma forma barata de criar impacto”

Desde 2015, o orçamento do Conversas na Rua (saído do departamento de Cultura da autarquia, ao contrário de outras em que a arte urbana é acompanhada pelos pelouros do Urbanismo ou da Habitação) praticamente duplicou, rondando agora os 30 mil euros anuais. Um valor que tem de chegar para pagar artistas, máquinas, materiais, logística e trâmites burocráticos. Em paralelo, aumentou também a visibilidade. “Hoje há filas de artistas a querer participar no festival” e “estrangeiros a publicar fotos das obras nas redes sociais”, descreve a artista Ana Dias, dando conta da projecção do evento. 

Pinturas de Samina e Daniel Eime na Avenida do Brasil, Falagueira
Rita ChantrePinturas de Samina e Daniel Eime na Avenida do Brasil, Falagueira

A arte urbana, como nota o investigador da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, Pedro Soares Neves, tem o lado da criação, da agregação e da reabilitação do espaço público, mas também “é uma forma barata de criar impacto, o que tem muito valor em ciclos de quatro anos”. Num outro patamar, é fonte de um contra-senso: “Como é que intervenções murais muitas vezes com mensagens de interesse colectivo vão contribuir para a especulação imobiliária e a gentrificação?”

Organizada em grupos que descobriram nas latas uma forma de se fazerem ouvir, a Amadora seguiu, no início dos anos 2010, a onda de apoio institucional (de grandes empresas a autarquias) à arte urbana, num processo que misturou profissionalização e reconhecimento, mas também “domesticação”.

Primeira pintura mural da artista Mariana Duarte Santos, junto à Taberna da Tia Rita, Falagueira
Rita ChantrePrimeira pintura mural da artista Mariana Duarte Santos, junto à Taberna da Tia Rita, Falagueira

Em 2008, Lisboa criou a Galeria de Arte Urbana (GAU), organismo autárquico de apoio ao sector. Dois anos depois, o projecto Crono chamou a atenção com as pinturas gigantes da dupla brasileira Os Gémeos, Blu e Sam3 num edifício abandonado da Avenida Fontes Pereira de Melo. Por essa altura, Soares Neves (responsável pelo Crono) foi convidado pela Estradas de Portugal a curar um projecto na CRIL. “Era uma extensão enorme junto à estrada”, recorda. “Entraram nomes já conhecidos, como o Odeith, e outros que estavam a começar, como, na altura, o Bordallo II, que pintou junto à rotunda de Alfornelos.” 

O futuro com a BD

Se dava vontade de mexer num território como a Amadora? “Sim, porque a cidade tinha um grande activo, que era a banda desenhada. Havia ali relações quase óbvias para explorar”, constata Pedro Soares Neves. Foi-se tentando criar essa ponte (Catarina Valente passou a acumular, aliás, a direcção do festival Amadora BD em 2020, e convidou criadores como Nuno Saraiva a pintar no concelho), mas de forma ténue. “É um casamento com muito potencial, mas está por realizar. Ao mesmo tempo, apesar das afinidades, a BD continua a ser uma trincheira da contra-cultura, enquanto a arte urbana almejou subir para outros patamares”, analisa o investigador, referindo-se aos modelos de produção e circulação da arte contemporânea.

"Não podemos imitar cidades como Bruxelas ou Bordéus. Não queremos ser uma cópia”

Catarina Valente explica que existiram algumas experiências, mas aliar a BD à arte urbana “não é fácil”. “Pela questão dos direitos de autor, porque há artistas de BD que não querem fazer pintura em grande escala, por várias razões.” Mas essa é uma ligação com que devemos contar no futuro. “Estou a tentar fazer um plano a longo prazo de como esse caminho pode ser. Não podemos imitar cidades como Bruxelas ou Bordéus. Não queremos ser uma cópia”, avança a responsável. 

Primeira pintura mural da artista Sofia Cleto, junto ao Lidl da Venda Nova
Rita ChantrePrimeira pintura mural da artista Sofia Cleto, junto ao Lidl da Venda Nova

Nos curtos 23,79 quilómetros quadrados da cidade, onde cabem perto de 185 mil pessoas, a ideia de criar um festival de arte urbana surgiu sob a ideia de percurso: os vários murais constituiriam chamadas de interesse para um novo circuito cultural e turístico. E é também assim, em percurso, que a fundadora delineia cada edição. “Ando pela cidade e faço um mapeamento dos edifícios e locais que poderão ser bons para pintar. Depois contactamos os moradores, sinalizamos edifícios ou muros públicos e avançamos para a escolha dos artistas." 

Jacqueline de Montaigne, na Estrada da Falagueira
Rita ChantreJacqueline de Montaigne, na Estrada da Falagueira

Há anos em que existe um tema central, noutros a escolha é livre, como aconteceu numa empena da Falagueira, pintada pela segunda vez por Jacqueline de Montaigne, a pedido do proprietário do prédio. “Esta série em que estou a trabalhar está muito focada na realidade de um ecossistema interconectado. As pessoas passam menos de 70% do tempo em contacto com a natureza e isso tem muito impacto na saúde mental. Eu sempre tive problemas de depressão, portanto estou também a falar disso”, explica à Time Out.

Pintura de Tamara Alves, em Alfragide
Rita ChantrePintura de Tamara Alves, em Alfragide

Entre 2016 e 2018, Odeith decidiu pintar uma série de figuras marcantes da cultura portuguesa na Venda Nova, de Amália Rodrigues a Fernando Pessoa, passando por Carlos Paredes. Também em 2018, Pantonio fixou máscaras e criaturas volantes na fachada da Escola Superior de Teatro e Cinema. No ano passado, Tamara Alves pintou uma mulher segurando uma planta em vaso num centro de dia de Alfragide. Em 2023, Patrícia Mariano ensaiou o alongamento de uma bailarina no pátio dos Recreios da Amadora e, este mês de Setembro, a estudante Sofia Cleto estreou-se nos murais com uma dança colectiva junto ao Lidl da Venda Nova. 

A convivência com o não-autorizado

Hoje, há pelo menos 78 obras autorizadas na cidade. O caminho não significou, porém, o fim da pichagem ou do tag. “Não temos um departamento ou uma brigada dedicada à limpeza de graffiti. Limpamos se houver um pedido dos moradores, caso contrário, deixamos estar, porque achamos que o espaço deve ter a sua identidade própria. Acho que também é por isso que os nossos murais não são vandalizados”, considera Catarina Valente, defendendo que o mural programado e a pintura espontânea “são mundos que têm de coexistir”.

Já Lisboa, numa posição bem diferente há vários anos, investe todos os meses na remoção de graffiti e tags. A 15 de Setembro, o presidente Carlos Moedas fez questão de precisar quanto: dois milhões de euros por ano. E comentou, nas redes sociais: “Mais de 400 graffitis removidos todos os meses. Estas pessoas têm de ser punidas.”

Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa
DRCarlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa

Para Soares Neves, “estas pessoas” deveriam ser mais vistas e a questão, em si, mais discutida. “As instituições têm dificuldade em lidar com isso [presença de tags, bombings, pichagens, etc.] porque depois são julgadas publicamente. Agora, é inevitável o modelo actual dos festivais de arte urbana esgotar-se. Foi bom os artistas profissionalizarem-se, serem pagos, poderem pintar com tempo. Mas as estruturas vão ficando cada vez mais pesadas e tornam os modelos menos utópicos”, analisa. 

Na visão do investigador, que também já andou de latas na mão, a génese de pintar paredes estava no “confronto bicho-homem com o contexto”, no “brincar na rua”. Quando a brincadeira perdeu risco e desafio, nos primeiros festivais (o Wool, na Covilhã, será o mais antigo, criado em 2011), ainda existia “um grande activo, que era a novidade”. “Mas agora não se está a conseguir encontrar o caminho”, analisa Soares Neves, criticando a repetição e a vitória da estética sobre o “arrojo” e o “faz tu mesmo” originais do graffiti. “Essa magia perde-se, a energia inicial perdeu-se, e foi para turismo, para o preço das casas…” Se se pode dar a volta? Sim, com “mais liberdade no espaço público”, defende.

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