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As mulheres do Bairro do Rego foram ao estúdio fotografar-se e o resultado vai estar em exposição

Nicole Campos Sánchez montou o Estúdio do Bairro e deixou a porta aberta, para quem quisesse entrar. "O que sempre lá esteve sempre lá estará. As Mulheres do Bairro do Rego" inaugura segunda-feira, 9 de Março.

Rute Barbedo
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Rute Barbedo
Jornalista
As Mulheres do Bairro do Rego
Gabrijela Milicevic | As Mulheres do Bairro do Rego
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Luzes montadas e cadeiras em posição, talvez o mais importante elemento do Estúdio do Bairro de Nicole Campos Sánchez – que esteve durante cinco dias no Bairro de Santos ao Rego – fosse a porta aberta. "Vinha quem quisesse, quando quisesse. Houve uma senhora que entrou só para saber como era. Depois quis ir ao cabeleireiro, para ser fotografada", conta a artista e mentora do projecto à Time Out. Ao estúdio, montado à antiga mas com uma câmara digital ao centro, acorreram mais de 80 mulheres (o projecto aconteceu no âmbito das comemorações do Dia da Mulher), de diferentes gerações, umas trabalhadoras do bairro, outras residentes desde que era uma zona de barracas, outras ainda recém-instaladas. O resultado é a exposição "O que sempre lá esteve sempre lá estará. As Mulheres do Bairro do Rego", que inaugura na segunda-feira, 9 de Março, às 19.00, no espaço Avenidas (espaço da antiga Biblioteca-Museu República e Resistência). 

A ideia de montar um estúdio formal no bairro surgiu como forma de repor um ritual social e cultural que foi, no passado, "vital na vida urbana". "Já não existem assim tantos estúdios de fotografia em Lisboa. Mas, em tempos, eles funcionaram como uma forma de contar também para fora o que acontecia no bairro, na sociedade. Os meus avós, por exemplo, iam ao fotógrafo e depois algumas fotografias ficavam na montra e falava-se disso em casa, de quem estava na montra naquela semana", recorda Nicole Campos Sanchéz.

As Mulheres do Bairro do Rego
Nicole SanchézAs Mulheres do Bairro do Rego
'As mulheres do Bairro do Rego'
Nicole Sánchez'As mulheres do Bairro do Rego'
'As mulheres do Bairro do Rego'
Nicole Campos Sánchez'As mulheres do Bairro do Rego'

Ao mesmo tempo, no projecto sublinha-se o lado material da fotografia – todas as mulheres fotografadas recebem um exemplar em mãos –, recuperando-se outra forma de olhar para as imagens. "As fotografias passaram a existir dentro dos ecrãs dos nossos telemóveis ou no disco rígido do computador. Simultaneamente, também foram desaparecendo das paredes das nossas casas, dos álbuns de família, das nossas carteiras. A acessibilidade ao equipamento fotográfico generalizou a fotografia, mas retirou-lhe a sua 'aura' de solenidade", pode ler-se no site da autora. É essa 'aura', a mesma de que falava o filósofo Walter Benjamin enquanto característica irrepetível de um objecto não produzido em massa, que talvez tenha levado as mulheres do Rego a maquilharem-se ou a irem ao cabeleireiro antes de baterem à porta do estúdio de Sanchéz.

Ficar para a história

Resta ainda a importância do registo antropológico, que ganha especial força num bairro como o do Rego, uma "ilha" em Lisboa, segregada por estradas e pela linha do comboio, onde "viveu muita da criadagem das classes altas das Avenidas Novas", num espectro de grandes fragilidades socioeconómicas. "A exposição também vai ter esse enquadramento", não esquecendo a auto-construção, o antigo mercado a céu aberto ou a mítica sala de espectáculos Rock Rendez Vous, polarizadora do bairro.

Fotografias de arquivo do Bairro do Rego
Nicole Sanchéz via InstagramFotografias de arquivo do Bairro do Rego

O Rego não é a primeira zona da cidade a receber o projecto Estúdio do Bairro. A estreia foi em 2022, no Intendente e no Quartel do Cabeço da Bola, em colaboração com a cooperativa Largo Residências. Depois, seguiu-se o Bairro da Tabaqueira, em Sintra. Só não houve mais estúdios por falta de financiamento, até porque "este não é um trabalho estanque". "Se houver outras oportunidades, é para continuar", afirma a artista.

Rua Alberto de Sousa, 10A (Bairro do Rego). Até 30 Mar, Seg-Sex 10.00-18.00 (ao fim-de-semana e feriados, aberto de acordo com a programação). Entrada livre

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