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Do reggaeton ao trap, passando pela salsa e pela música tradicional da sua ilha, Bad Bunny deu a Lisboa uma noite de festa em que todos fomos porto-riquenhos.

É difícil imaginar quem é que seria capaz de colocar um estádio em Portugal a gritar mais alto por Messi e Maradona do que por Cristiano Ronaldo. Mas esta terça-feira à noite, 27 de Maio, seguiríamos Bad Bunny, um dos maiores fenómenos da música latina e da pop global, até aos confins do mundo se fosse preciso. O destino era Porto Rico, instalado no interior do Estádio da Luz, em Lisboa, onde o autor de Debí Tirar Más Fotos (que dá mote a esta digressão) protagonizou o seu primeiro de dois concertos em Portugal.
Depois de uma abertura a cargo dos conterrâneos Chuwi e de uma entrada pacata no estádio (ainda que as infra-estruturas fossem alvo de críticas uma vez que bloqueavam a visão dos espectadores), o porto-riquenho subiu ao palco para mostrar porque é que é um daqueles artistas que está no topo do mundo. Envergando um imaculado fato branco, antes de abrir a boca, e perante uma recepção ensurdecedora, Benito permaneceu em silêncio, como quem está a processar o momento, mas também a mostrar quem é que manda no espectáculo. O silêncio tornou-se um tema importante neste concerto, quase tanto como a própria música (já lá vamos).
"La Mudanza" foi a primeira faixa e serviu para marcar o ritmo daquilo a que iríamos assistir ao longo da noite. Acompanhado por uma banda vestida e equipada com instrumentos tradicionais de Porto Rico, assinalando esta música com um solo de percussão. Senhoras e senhores, isto não é só reggaeton. Há muita música dentro de Bad Bunny.
A primeira parte do espectáculo foi centrada em sons mais ligados às tradições do país natal do artista, nomeadamente, no seu disco mais recente, mas também em Un Verano Sin Ti (2022), com, por exemplo, "Callaíta", que manteve o ambiente eufórico e introduziu o fogo-de-artifício ao concerto. "Esta é a minha primeira vez aqui e estou muito emocionado. Estava ansioso por saber o que ia receber", confessou o artista, enquanto os coros do público gritavam pelo cantor.
Benito tem feito de tudo para partilhar a sua cultura e o amor pela terra natal e fez de tudo para que nos sentíssemos em casa e bem recebidos. Em "Pitorro de Coco", fez-se soar um quatro porto-riquenho, uma guitarra de 12 cordas e o instrumento principal da música tradicional do país caribenho. Deve ter sido a primeira vez que a maioria das pessoas ouviu ou viu este instrumento na vida, mas nem por isso o estranhou, recebendo e aplaudindo a música que daí resultou. Em troca, o guitarrista interpretou um trecho de "Lisboa Menina e Moça" de Carlos do Carmo.
Esta foi uma noite de intercâmbio cultural. Benito não precisa de levar-nos a Porto Rico (apesar de isso dar umas óptimas férias), ele trouxe-a até nós. Numa altura em que tanto se discutem questões sobre imigração, esta noite, pelo menos, todas as culturas parecem respeitar-se e aceitar-se. Os êxitos "Baile Inolvidable" e "Nuevayol" trouxeram referências como a salsa, bachata e flamenco para cima da mesa e, apesar do sotaque "portunhol", estes bangers continuaram a ser cantados por um público completamente rendido.
Após uma breve pausa bem-humorada marcada por um vídeo do Sapo Concho, que, num sotaque cerrado dizia que uma das coisas de que mais gosta em Portugal é que sempre que ele fala "todos percebem", mas, ao contrário, "não compreende nada". Houve também – claro – espaço para elogiar a gastronomia nacional. "Que tal o bacalhau, o pastel de Belém, o pastel de nata, o rissol, a bifana? Graças a vocês estou gordo", arriscando ainda, pelo meio, uma vénia à francesinha.
Esta transição permitiu que as atenções fossem viradas para a "casita" – uma estrutura montada no meio do relvado onde se encontram vários convidados –, abrindo espaço a um set baseado em sons de reggaeton puro e duro. "Veldá" serviu de aquecimento. Com as pernas, joelhos e rabos prontos para dançar seguiu-se a gigante "Tití Me Preguntó", um tema em que Benito mal precisava de usar o microfone, já que o público poderia ter cantado o tema de início ao fim.
"Neverita" e "Si Veo a Tu Mamá" mostraram outros registos do que são as festas em Porto Rico, voltando-se mais para uma vertente electrónica, inspirada no clubbing e na música house. Contudo, depois destes momentos de maior euforia, Bad Bunny dirigiu-se ao público e, durante longos minutos, desprovido de música, dedicou-se exclusivamente a confraternizar com as pessoas que pagaram centenas de euros para o ver. Apertou mãos, distribuiu high fives e abraçou demoradamente uma fã que chorava compulsivamente. O chamado ídolo acessível, arriscamo-nos a dizer.
Este momento solene e de confraternização foi interrompido com grande pujança por músicas como "Voy a Llevarte Pa' PR" e pelo perreo lento, sensual e apaixonado de "Me Porto Bonito", com Benito a lançar o desafio: "Quero ver toda a gente a perrear!". Entre jogos de luzes e labaredas lançadas para o ar, era a intensidade das batidas de faixas como "Yo Perreo Sola" que dominava as atenções e transformava o Estádio da Luz num cenário que poderia ter saído de um club latino underground.
O trap mais visceral teve o seu espaço reservado em "Diles" ou "Mónaco" – as barras desta última música "Lo que tú hagas a mí não me impresiona/ Es como meter un gol después de Messi y Maradona" ou "Bebiendo muita champaña, nunca estamos secos" são demasiado pesadas, ou lá como dizem os jovens – e deixou espaço para poucas dúvidas de que Bad Bunny é, evidentemente, uma estrela.
Tocada a canção exclusiva da noite, "Estamos Bien" (2018), seguiu-se um dos melhores momentos do concerto, com Benito, acompanhado pelo grupo Los Pleneros de la Cresta, a interpretar "CAFÉ CON RON" como se tratasse de um convívio de amigos de longa data, nas ruas, divertidos e bebidos a cantar e a trocar galhardetes, quase como uma desgarrada minhota. Mais uma vertente da forma de celebrar e da cultura porto-riquenha, fazendo disparar a vontade de uma viagem. "Por uma noite somos todos porto-riquenhos", diz-nos um dos membros dos Los Pleneros de la Cresta antes da rendição tradicional de "Ábreme Paso" e de pedir aos fãs para levantarem as bandeiras da América Latina.
Este momento serviu de ponte para que Bad Bunny regressasse ao palco principal e partisse para um momento dominado por músicas mais emotivas, liderado por momentos como "Ojitos Lindos" ou "La Canción", e explosivas como "El Apagón", mas o clímax festivo e emocional deu-se em "DTMF". Esta canção repleta de nostalgia foi acompanhada por várias fotos de grupos de amigos antes do concerto e um discurso de Benito que apelava a todos os presentes para viverem no momento e aproveitarem o presente. “Não pensem nas coisas que já passaram, não guardem rancor. Não pensem tanto no futuro. Desfrutem das coisas pequenas da vida”, disse, e bastou olhar para os amigos que nos rodeavam neste concerto para percebermos que é possível chorar num concerto de reggaeton. Restou apenas seguir as indicações do cantor, largar o telemóvel, aproveitar o momento e dançar.
Depois deste momento emocional e festivo, o ponto final deu-se com a potente "Eoo" e as suas batidas intensas. O artista deixou as luvas, o chapéu e os óculos sobre o palco e despediu-se dos seus fãs, que já tinham deixado tudo e mais alguma coisa na pista de dança que outrora foi o relvado onde o Benfica joga futebol.
Ainda com o sotaque espanhol a ressoar na garganta e com os pés doridos depois de darmos o nosso melhor para tentar fazer boa figura nestas danças latinas, agradecemos a Benito por ter partilhado a sua cultura, que foi tão bem recebida e respeitada, e por ter derrubado todas as barreiras para organizar uma grande festa. Porque não podem ser assim todos os dias?
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