“É triste não haver aqui nada iluminado, uma árvore, qualquer coisa a simbolizar o Natal”, assume Anabela Rebelo, presidente da Associação de Moradores do Bairro da Boavista, em Benfica. Há “dois ou três anos”, ainda houve uma árvore à entrada do bairro, a marcar a quadra, mas “durou pouco”. Fora isso, há mais de cinco anos que a rua principal, a Dona Maria I, onde se concentram o comércio e os serviços, não recebe uma decoração especial. “Chegaram a dizer-nos que era uma questão de poupança, por causa da energia. Este ano ainda nem perguntei ao presidente da Junta por que não puseram nada. Em Benfica as árvores estão todas iluminadas, aqui não”, compara.
O Bairro da Boavista também é Benfica, mas Anabela Rebelo fala dele como se fosse noutro lugar, o lugar colado a Monsanto, segregado por estradas e pela história. Nos últimos anos, a Boavista não tem ficado de fora do investimento do poder público (está, inclusive, num longo e grande processo de requalificação), mas também é verdade que “as luzes não vieram” e “aqui sempre se viveu muito o Natal, porque é um bairro muito comunitário, onde as pessoas se encontram e valorizam a família”, explica Joaquim Pinto, da mesma associação.
No início de Novembro, a Câmara de Lisboa anunciou que iria gastar os habituais quase 750 mil euros nas iluminações alusivas à época. O pinheiro de 30 metros do Terreiro do Paço seria, mais uma vez, o centro de tudo, mas estariam também assegurados “182 quilómetros de luz” pela cidade (sobretudo na Baixa, Chiado e Avenida da Liberdade), no âmbito do protocolo assinado pela autarquia e pela União de Associações de Comércio e Serviços (UACS). No total, são 46 as ruas, avenidas e praças decoradas por cerca de mil estruturas e 5900 peças decorativas.
“As luzes ajudam a esquecer as precariedades”
Como nas aldeias, onde as luzes vão pouco mais além do perímetro da igreja, é habitual que algumas zonas fiquem à parte. Mas admitindo a existência de vários centros na cidade, os corações dos bairros, há núcleos de Lisboa que, pela falta de estrelas e pais natais, se sentem descurados (se, nuns casos, o investimento em iluminação é do poder público, noutros, é de associações de comerciantes).
O Alto da Serafina, em Campolide, é, “lamentavelmente, esquecido nesta quadra pelas iluminações natalícias”, constata Vera Alves, presidente da associação de moradores. A poupança energética não é desprezada, mas, para os residentes do bairro junto ao aqueduto, há outros pontos que pesam. “As luzes ajudam o imaginário infantil (e não só) a esquecer, por alguns momentos, as precariedades que se vivem nas nossas comunidades”, explica a dirigente.
O Beato é outro caso. “Não temos iluminação em nenhum ponto da freguesia e há zonas onde faria sentido, como o Bairro da Madre de Deus ou junto ao Hub Criativo. Não procuramos ter uma árvore de Natal como a da Praça do Comércio, mas gostávamos de ter alguma coisa”, lamenta António Lobo, presidente da Associação de Moradores e Empreendedores do Beato. E é assim há anos. Nem os residentes da primeira geração da Madre de Deus, de acordo com o responsável, se lembram de alguma vez terem visto luzes de Natal por lá. “É um assunto de que todos os anos se fala”, tanto porque “é triste passar nas ruas e não haver nada”, como porque as luzes poderiam dinamizar o comércio, acredita.
Já Otília Rocha, moradora do Beato há 67 anos, a sua idade, calcula que há 12 ou 13 anos tenham sido instaladas “umas luzinhas ao pé do convento e nas Olaias”. “Todos os anos telefono a perguntar se vão pôr as luzes. Mas nestas coisas já se sabe: a Junta diz que é com a Câmara, empurram sempre para outro lado”, queixa-se.
Não fugindo da Lisboa mais central, também o largo do chafariz do Alto do Pina, na Penha de França, onde todos os anos o Santo António é uma grande festa, passa um Natal discreto. Neste início de Dezembro, a Junta vai iluminar a rua ao lado, a Barão Sabrosa, sem esquecer zonas vizinhas como a Quinta do Lavrado, na Picheleira, nem eixos e pontos centrais como a Avenida General Roçadas ou a Praça Paiva Couceiro. Mas o largo da Rua Sabino de Sousa, coração do bairro e das marchas, manter-se-á de fora.
Também este ano a Rua Morais Soares, que normalmente recebe decorações em toda a extensão, ficou limitada a dois ou três pontos de luz. “A decoração luminosa deste eixo é da responsabilidade da União das Associações de Comércio e Serviços, que decidiu colocá-la apenas num troço da rua”, esclarece a Junta de Freguesia da Penha de França, que afirma estar numa “corrida contra o tempo” para resolver a questão das luzes, desde que tomou posse o novo executivo.
A Time Out contactou a UACS no sentido de perceber quais os critérios que definem as zonas da cidade a iluminar, mas não obteve resposta.
Ad-hoc e do próprio bolso
Não vendo as iluminações de Natal chegarem à porta de casa, ou pelo menos perto, são vários os grupos de moradores que decidem meter mãos à obra. Na Boavista, “cada um dá um valor simbólico e depois decoram-se as árvores, os quintais, na zona das casas novas”, explica o residente Joaquim Pinto. Com dois euros de cada bolso, faz-se o Natal.
Nos Anjos, também a Rua Cidade de Manchester é um pequeno oásis comunitário. Desde 2017, os vizinhos juntam-se para dar uma nova vida a materiais em desuso, de tampas de plástico a capsúlas de café, nas tílias que acompanham as escadinhas. “Nem sequer é preciso fazer uma vaquinha. Comprei 40 metros de luzes e gastei seis euros. Elas duram três a quatro anos e são de baixo consumo”, expõe Carlos Sacramento, dinamizador do grupo de moradores da rua. “O que queremos é que as pessoas apareçam no dia da montagem”, conclui.
Em Novembro, o grupo lançou um apelo aos moradores para que, no dia 29, se juntassem, trazendo com eles decorações de Natal. O último sábado do mês foi o arranque das luzes na rua, e contou com um pequeno lanche entre vizinhos. “É a única actividade do nosso grupo que nunca parou, mesmo na pandemia”, orgulha-se o morador da zona.
🗞️ Mais notícias: fique a par das novidades com a Time Out
📲 Siga-nos nas redes sociais: Whatsapp, Instagram, Facebook e LinkedIn

