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Banda desenhada. O mangusto na horta da Júlia não é um mangusto

O mais recente romance gráfico de Joana Mosi está nomeado para os prémios do festival Amadora BD como Melhor Obra de BD Portuguesa. Falámos com a autora.

Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
Joana Mosi
Joana MosiO Mangusto, de Joana Mosi
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Júlia tem um enorme problema: destruíram-lhe a horta – que, para dizer a verdade, é só um canteiro – e ela está convencida que o vândalo misterioso é um mangusto. Claro que ela nunca viu nem conhece quem tenha alguma vez visto um, mas ao que tudo indica é uma espécie bastante comum na Península Ibérica. Entre tentar descobrir como se livrar dele e ignorar o que realmente a desassossega, a protagonista perambula pelos pântanos da solidão e do luto, vulnerável aos desencontros familiares e às falhas de comunicação, com a mãe e a amiga Marta, mas sobretudo com o seu irmão, que se mudou lá para casa depois de ter perdido o emprego e a namorada. Só que, no caso de Joel, é o que Júlia não reconhece, a adversidade não o esmorece nem o torna menos empático com o sofrimento dos outros, por mais que ela faça questão de dizer a toda a gente que ele só sabe ficar o dia todo no sofá a jogar videojogos.

Joana Mosi já não se lembra quando começou a trabalhar nesta história, mas andou às voltas durante muitos anos até concluir o projecto numa residência artística, na Dinamarca, com o apoio de uma bolsa de criação literária da Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas do Ministério da Cultura. Publicado primeiro no Canadá, em francês pela Pow Pow, e, agora, em edição nacional, O Mangusto (que A Seita edita em papel de qualidade e capa dura, com o preço nos 25€) está nomeado para os prémios do festival Amadora BD como Melhor Obra de BD Portuguesa e poderá vir a sagrar-se vencedor no domingo, 22 de Outubro, pelas 18.00, no antigo Ski Skate Amadora Parque. Com 182 páginas, é a primeira obra de fôlego da autora, que assina quer o argumento quer a arte, numa narrativa a preto-e-branco, que se funde com a página, num balanço delicado entre movimento e inércia, som e silêncio, liberação e clausura.

“Eu vivo no campo e estou sempre obcecada com um bicho qualquer, como os saca-rabos, que são uma espécie de mangusto invasor na Península Ibérica, ou seja, é um problema tão grave [em zonas rurais, como a Ericeira, onde reside desde a adolescência] e a maior parte das pessoas não faz ideia. É mais ao menos esse o paralelismo que faço no livro com a doença mental, o luto e o sofrimento, que são coisas tão comuns, fazem parte da nossa sociedade e, no entanto, não se fala sobre isso, apesar de toda a gente ter essa experiência, mais tarde ou mais cedo”, diz-nos Mosi, a quem interessa particularmente, confessa, dissecar quotidianos. “O meu objectivo não era falar sobre depressão, se quisermos ser mais específicos. Queria mesmo era explorar esta ideia de uma personagem que, à custa de um problema que ela nem sabe se é verdadeiro, consegue alienar-se do mundo à sua volta e, potencialmente, até da solução, se é que existe.”

O problema de Júlia, no fundo, não é o mangusto que nunca viu, nem o mangusto é o mangusto que ela imagina que existe. A sua obsessão não é mais que uma forma de escapismo, tal como um jogo de vídeo – que Mosi incorpora na narrativa, confundindo facto com ficção – é para Joel um lugar de conforto, onde palavras como “stress” e “ansiedade” não vêm no dicionário. Claro que Júlia não percebe por que é que alguém quereria estar no sofá a fazer coisas que podia fazer na vida real, como plantar alfaces e regar a horta. Na verdade, durante a pandemia, o jogo de vídeo que Mosi não nomeia no livro, mas que é claramente o Animal Crossing: New Horizons, atraiu milhões para o virtual.

Joana Mosi
Joana MosiO Mangusto, de Joana Mosi

“Eu nunca joguei, mas nessa altura muitos amigos meus estavam a jogar e até me senti excluída dessa nova vida social, que era melhor que tudo o resto e onde as pessoas estavam a conviver [é possível, através de uma subscrição premium, partilhar o território com até oito jogadores]”, conta Mosi, para de seguida nos dizer que, quando era miúda e jogava Playstation, também os pais tinham o mesmo preconceito de Júlia. Sem ser a temática central de O Mangusto (dizer que há uma temática, em vez de uma constelação delas, seria na verdade redutor), há de facto uma desconstrução do que é “o tipo de pessoas que jogam”. Ao contrário de Júlia, que não joga, Joel não é uma pessoa que não aprecia o mundo lá fora nem tem falta de sensibilidade ou interesse nos outros. É até, arriscamos dizer e Mosi confirma, “a personagem mais empática do livro”, apesar dele próprio não estar exactamente no melhor momento da sua vida.

Até que ponto somos responsáveis pelos nossos problemas, e de que forma depende de nós encontrar a sua solução? É a questão que se impõe no marasmo que é a vida de Júlia. Ultrapassar o seu “mangusto”, o que a atormenta verdadeiramente, não é uma tarefa fácil nem linear. O animal que destrói a horta – a cabeça, o coração, a força anímica – de Júlia é um animal com o qual estamos todos, directa ou indirectamente, mais ou menos familiarizados. Falar às vezes ajuda, outras nem por isso, muitas vezes não sabemos como, demoramos a reconhecer, fazemos desvios. E, com sorte, numa dessas voltas, do passado para o presente, do presente para o passado, lá se faz o clique.

Da ideia à execução

“Quando comecei a escrever isto não fazia ideia se ia ser publicada ou não, isso é fazer banda desenhada em Portugal. Mas o programa de residência [Open Workshop], durante o qual concluí o projecto, surgiu porque se realiza numa escola onde trabalho [a The Animation Workshop, no antigo quartel militar de Viborg, na Dinamarca] e, como gosto muito de lá trabalhar, tentei arranjar forma de lá passar mais tempo. Candidatei-me e, à segunda vez, fui seleccionada”, revela, entre risos, antes de confessar que a oportunidade influenciou significativamente o resultado final. “Eu não tenho propriamente um estilo, mas até então desenhava apenas tradicionalmente, em papel, e uma das coisas que aconteceu foi que tive de me adaptar às ferramentas que a residência me oferecia e, aquela em particular, está sobretudo preparada para pessoas que iam trabalhar em cinema de animação, portanto o que me forneceram foi softwares para computador e o livro acabou por ser todo desenhado digitalmente.”

Joana Mosi
A SeitaPáginas de O Mangusto, de Joana Mosi

O visual estilizado, a traço preto, sempre com a mesma espessura e muito pouco expressivo em determinadas cenas, acabou por se adaptar às temáticas exploradas, afiança-nos Mosi, que quis transmitir uma sensação de desconexão, que se reflecte também em discretos detalhes, como as molduras aparentemente vazias ou os silêncios (há páginas seguidas sem qualquer diálogo ou pensamento). “Não gosto de ilustrar guiões, portanto cada vez faço menos, para evitar a tentação que é ter um texto e arranjar um correspondente em imagem. Pessoalmente acho uma seca e não me divirto, então arranjo formas de me desafiar, como se estivesse perante um puzzle”, explica. “As páginas que só têm um quadrado no meio, por exemplo, são soluções improvisadas, porque – apesar de, no final, nos parecer que foi muito calculado – o processo é completamente experimental. Experimental no sentido em que, intencionalmente, não me imponho regras, e assim é sempre uma surpresa para mim, porque não o tinha planeado em primeiro lugar.”

A abordagem, que procura evitar que a arte sirva apenas de “legenda” para o argumento e vice-versa, convida-nos também a reflectir sobre, por um lado, perspectivas – o que se vê, o que se pensa, o que se conta – e, por outro, a memória – as que temos, as que perdemos, as que não queremos recordar. “Gosto muito e foi o que tentei também fazer aqui, que é criar personagens nas quais não podemos confiar. Não sei se é perceptível ou não, mas tudo o que a Júlia diz é a percepção dela da realidade, o que é perfeitamente legítimo, porque a nossa perspectiva é a nossa percepção da realidade. Mas só porque ela diz as coisas de uma maneira não significa que esse seja o único ângulo de visão e, a verdade, é que todas as personagens, incluindo a mãe, são pessoas que perderam alguma coisa e todas elas estão muito concentradas em ajudar a outra pessoa, mas não o conseguem fazer porque analisam o outro e a situação do outro a partir da sua própria perspectiva”, remata Mosi, que se tem divertido a ouvir as diferentes interpretações do que escreveu. “As leituras que fazem são 99% das vezes muito mais interessantes que a minha e fui eu que o escrevi.”

O Mangusto, de Joana Mosi. A Seita. 184 pp. 25€

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