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Com outra luz e sem paredes pintadas, o Museu Gulbenkian reabre fiel ao projecto de 1969

Modernizado, arejado e muitíssimo bem iluminado – assim reabre o Museu Calouste Gulbenkian, casa de uma colecção de arte que vai do Antigo Egipto aos movimentos do século XX. Dizemos-lhe o que mudou.

Mauro Gonçalves
Escrito por
Mauro Gonçalves
Editor Executivo, Time Out Lisboa
Museu Calouste Gulbenkian
Fernando Guerra | Museu Calouste Gulbenkian
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"Não existem paredes pintadas". A frase é dita com orgulho por Teresa Nunes da Ponta, a arquitecta que assina o projecto de renovação do Museu Calouste Gulbenkian, com reabertura marcada para este sábado, 18 de Julho, ao fim de mais de um ano de obras. E quem se lembra dos tons de azul e do grená que costumavam servir de pano de fundo às pinturas e esculturas do século passado conseguirá, certamente, reconhecer a pertinência da afirmação.

Não há, de facto, paredes pintadas no interior do renovado museu, originalmente inaugurado em 1969, projectado pelos arquitetos Ruy Jervis d’Athouguia, Alberto Pessoa e Pedro Cid. O seu valor enquanto jóia do Modernismo português foi atestado em 2010, quando o edifício se tornou Monumento Nacional.

Museu Calouste Gulbenkian
Pedro PinaMuseu Calouste Gulbenkian

Tal base nunca poderia ser objecto de alienação, sendo que o mais recente projecto de renovação fez precisamente o contrário, sobretudo no que toca aos revestimentos das galerias e à relação destes espaços com o jardim – outra obra de valor reconhecido na cidade, esta da autoria dos paisagistas Gonçalo Ribeiro Telles e António Viana Barreto –, colocando interior e exterior em diálogo ao longo do percurso, algo que já tínhamos visto em 2024, quando o Centro de Arte Moderna reabriu, também ele renovado.

Nas palavras da arquitecta, foram retomadas "as regras e os princípios do edifício original", o que se traduz numa nova e refrescante simplicidade – cromática e dos materiais e das texturas, mas também na harmonização dos elementos arte, natureza e arquitectura. Se na estrutura estão presentes o betão, o vidro e o bronze, lá dentro encontramos madeira, pedra (granito e lioz) e seda, revestimento que o museu volta agora a adoptar. Pelo meio, houve exercícios de minúcia – caso da recuperação de uma parte das vitrines, que se mantém original, e de um novo projecto de iluminação, que devolveu às galerias de pintura a luz difusa superior.

Uma colecção de obras-primas e uma obra-prima arquitectónica

É também numa só frase que Xavier F. Salomon sintetiza a empreitada que agora chega ao fim. Quando assumiu funções como director do Museu Calouste Gulbenkian, já em 2026, a renovação ia a meio. Contudo, a nova proposta museográfica e a visão do historiador estiveram alinhadas desde o primeiro dia. Salomon pediu apenas uma alteração ao projeto – que o chão das galerias dedicadas à arte europeia fosse em alcatifa e não madeira. A opção trouxe, segundo o director, uma maior intimidade ao espaço e, junto às grandes janelas que dão para o jardim, parece recriar uma continuidade da relva dentro do museu.

Museu Calouste Gulbenkian
Pedro PinaXavier F. Salomon, director do Museu Calouste Gulbenkian

É junto à Diana de Houdon, estátua em mármore de grande escala, isolada de tudo o resto, que esta visão melhor se concretiza. O sol projecta a silhueta da deusa na parede, rodeada pela folhagem das árvores. "O mais extraordinário neste museu, a nível mundial, é o facto de ser uma combinação de uma colecção de obras-primas e uma obra-prima arquitectónica. Muitos outros museus foram construídos na mesma altura, mas nenhum deles tem a relação entre arte e natureza que temos aqui. Nenhum. Neste aspecto, é um museu absolutamente extraordinário e único. Não vão encontrar isto em nenhum outro museu do mundo", afirma Xavier F. Salomon, durante uma visita destinada à imprensa, esta quinta-feira.

"Portanto, o grande projecto aqui foi reafirmar precisamente isso. Olhar para o edifício e melhorá-lo de diversas formas, e em aspectos bastante práticos – a iluminação, a segurança, os serviços aos visitantes, a climatização, mas sempre com esta ideia de respeitar o espírito da arquitectura. E um edifício de 1969, uma obra-prima arquitectónica, é tão importante como um um edifício renascentista ou um barroco. É preciso respeitar as regras e a arquitectura de cada período e este é e será sempre um edifício de 1969", remata.

Museu Calouste Gulbenkian
Fernando Guerra'Diana' de Houdon, Museu Calouste Gulbenkian

Ao longo do percurso pelas galerias, os visitantes vão poder ver as peças de sempre, mas melhor. O museu divide-se em três núcleos e o primeiro é dedicado à Antiguidade, com objectos do Antigo Egipto, Roma e Grécia antigas, mas também Mesopotâmia. Aqui, um dos grandes desafios museológicos era a diversidade de escalas das peças expostas. Acabou por ser parcialmente resolvido com a criação de um gabinete de numismática, para a exposição de moedas e medalhas.

No segundo núcleo, chegamos à Ásia – uma viagem que arranca numa ampla galeria, brindada com luz natural, dedicada ao mundo islâmico. Tapetes persas, vidros da dinastia Mameluca e cerâmica e azulejaria do Cáucaso – ao valor estético que movia o impulso coleccionista do senhor Gulbenkian junta-se aqui o contexto histórico, com novos textos e descrições. O percurso segue com as exuberantes porcelanas e lacas chinesas, rumo a uma última paragem: o Japão, onde a fragilidade das gravuras e as exigências de conservação vão obrigar a uma maior rotatividade de obras.

No núcleo dedicado à Europa, o terceiro, emergem as mais emblemáticas obras pictóricas da colecção. Falamos de pinturas de mestres como Rembrandt, Rubens (no caso, obras adquiridas por Gulbenkian ao Museu Hermitage, em 1930), Fragonard, Gainsborough, Degas, Turner, van Dyck, Renoir ou Monet, mas também de esculturas de Rodin, além de um impressionante espólio de mobiliário francês do século XVIII – segundo Xavier F. Salomon, superior ao que encontramos em Versalhes. O director deixa ainda outra nota sobre o conjunto notável de prata francesa e sobre os livros, que podem agora ser expostos à luz do dia (literalmente), graças aos novos filtros aplicados aos vidros das janelas.

Museu Calouste Gulbenkian
Pedro PinaMuseu Calouste Gulbenkian

Quanto aos tons que predominam na sala, são o bege, castanho e cinzento de 1969, garante. Sem azuis ou qualquer outra tonalidade viva, Salomon parece convicto: "As obras de arte sobressaem como nunca sobressaíram antes". No final do percurso, tal como já acontecia antes, chegamos à sala dedicada a René Lalique. Os pequenos objectos estão agora expostos em diálogo com peças de outros artistas contemporâneos. Tudo para oferecer uma nova perspetiva sobre o trabalho deste joalheiro e mestre vidreiro, amigo chegado de Calouste Gulbenkian. "É um museu para visitar uma e outra vez e olhar para as coisas de uma forma diferente. Esse é um dos grandes prazeres de se ter uma arca do tesouro como esta".

Museu renovado – nove dias de entrada livre

O Museu Calouste Gulbenkian abre ao público este sábado, 18 de Julho, às 10.00 da manhã. O momento serve também para assinalar o 70.º aniversário da fundação, pelo que, nesse dia, o museu ficará aberto até à meia-noite. No dia seguinte, domingo, o museu encerra às 20.00. A entrada é gratuita até 26 de Julho e será feita em intervalos de dez minutos. Aderentes do Cartão Gulbenkian podem reservar bilhetes gratuitos online, mas também têm direito a uma visita gratuita ao museu (mesmo depois do dia 26).

Avenida de Berna, 45 A (Praça de Espanha). Fim-de-semana inaugural: Sáb 10.00-00.00, Dom 10.00-20.00. Entrada livre

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