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São não-lugares onde deixamos pequenos sinais e que contam uma parte da história da arquitectura portuguesa. A autora começou em 2025 a espreitar pelas portas e só parou este Verão.

Magda Rodrigues, Mag, anda muito a pé por Lisboa e pelos subúrbios (há outra forma de conhecer um território?). Foi assim que começou a reparar nas entradas dos edifícios, umas mais barrocas, outras minimalistas, umas com sinais de vida – como um carrinho de bebé preso por uma corrente –, outras assépticas. A primeira fotografia aconteceu em 2025, em Queluz. Seguiram-se perto de 120, até ao passado mês de Julho. "O primeiro prédio foi o único em que entrei. Em todos os outros eu tiro a fotografia do lado de fora, com a câmara encostada ao vidro", concretiza, à mesa de um café de Alcântara.
Não é a primeira vez que a fotógrafa se interessa pelo "que é menos óbvio mas muito rico", pelos "detalhes". Fê-lo em "Mãos no Metro de Lisboa" (o título é auto-explicativo), durante a pandemia, ou em "Três por Quatro", um trabalho sobre carteiras de pessoas que ali guardavam as fotografias de familiares e amigos.
Agora começou "a olhar para os prédios e a perceber que há uma diversidade muito grande, de arquitectura mas também de sinais, de um rasto humano que é possível encontrar". Desde "objectos que as pessoas deixam à porta" a "vasos dos condóminos" ou "obras que destruíram azulejos para instalar canalização nova, por exemplo", relata a fotógrafa. "Uma vez vi um triciclo tapado por uma manta, quase como aquela coisa que fazemos na praia de tapar a mochila com a toalha, achando que assim já fica tudo bem. Este tipo de gestos interessa-me e enternece-me", admite.
Correndo em paralelo um trabalho de pesquisa, Mag Rodrigues foi percebendo que as pequenas partes de um hall têm nomes técnicos repletos de camadas, como "cabeça de cavalo" (a designação dada a um determinado formato de escada e corrimão, visto da perspectiva de quem entra no prédio), e que a evolução da arquitectura e do design do interior de edifícios deve ser contada. Neste caso, com foco na Grande Lisboa dos anos 60 aos 90. "Há uma estética que se está a perder na cidade de Lisboa e que, de alguma forma, se mantém nos subúrbios, por isso, interessou-me ir a lugares como a Amadora, Queluz, Moscavide ou Sacavém, explica a autora, que cresceu em Mem-Martins. "Talvez ainda vá fotografar a entrada do prédio da minha infância", solta.
A autora quis que a amostra fosse o mais diversificada possível, também no que toca a classes sociais. "Fotografei prédios cujo valor por metro quadrado será mais baixo, outros mais alto. Encontrei zonas onde muitas entradas têm murais e esculturas, como Alvalade." No final, juntamente com o devido enquadramento teórico (o trabalho em curso é a dissertação de mestrado de Magda Rodrigues), há-de surgir um glossário. Se daí vai sair um livro? "É possível", pondera a fotógrafa, que planeia apresentar o projecto a uma editora.
Com o passar das décadas, muitos destes halls vão sofrer obras, ser reabilitados ou mesmo desaparecer, e Magda Rodrigues sabe isso. "Há uma decisão consciente de documentar, de preservar." Um dia poderemos provar que já viveram plantas e pessoas num determinado prédio de Lisboa, entretanto transformado noutra coisa qualquer.
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