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Rui Teixeira decidiu trazer a febre da fotografia analógica para a Baixa Pombalina. Fomos espreitar a Vintage Cameras.

A paixão, primeiro pelo vídeo, depois pela fotografia, foi um acaso, e dura há quase 40 anos. Um mês depois de inaugurar uma loja-museu no Porto, onde tem expostas cerca de 700 câmaras analógicas, Rui Teixeira trouxe a Vintage Cameras para Lisboa. Na Baixa, o espaço tem feito sucesso e inundado as redes sociais. A atracção principal é uma cabine fotográfica, onde podemos entrar e recuar aos anos 20 para eternizar momentos através de retratos a preto e branco. Mas o verdadeiro tesouro é a montra de máquinas fotográficas, umas à venda, outras tão raras que só pode mesmo admirá-las.
“A minha mulher adorava ter filmes caseiros do nosso filho mais velho e eu tinha um amigo videógrafo que, no Inverno, me emprestava a câmara. Um dia, ficou doente e pediu-me para desenrascar um casamento – eu era a única pessoa que sabia manusear a câmara. Fiz um curso intensivo de uma semana e, a partir daí, comecei a gravar casamentos”, recorda Rui Teixeira, que na altura trabalhava como fotocompositor. “Foi, aliás, num casamento – por causa de um pôr-do-sol maravilhoso – que decidi começar a fotografar e a investir em formação. Depois até criei uma empresa de família e desenvolvi um interesse pelo coleccionismo de máquinas fotográficas [analógicas].”
As primeiras câmaras que comprou foram umas Kodak Petit, produzidas em diferentes cores. Seguiram-se as Penti, câmeras alemãs de meio quadro, desenhadas por Walter Henning no final dos anos 50, e as Coronet Midget, uma das câmaras subminiatura mais populares – o modelo azul, o único que Rui não tem à venda na loja, começou a ser produzido por volta de 1937 e é hoje o mais difícil de encontrar. “Muitas das câmaras que colecciono fotografam em formatos que já não é possível revelar, a não ser que se desenvolva um laboratório em casa com adaptações, mas é extremamente difícil”, revela, antes de contar que, entretanto, um dos filhos teve a ideia de “montar um museu auto-sustentável”.
O projecto começou a ser pensado em Abril do ano passado e a primeira Vintage Cameras nasceu em Agosto, na Rua de Santa Catarina, no Porto. Um mês depois, abriram portas em Lisboa, com um conceito ligeiramente diferente. Não há museu – o espaço que arranjaram na Rua de São Nicolau é bastante mais modesto –, mas têm o que chamam de dark room, onde a luz é restrita e se encontram réplicas de materiais e ferramentas específicas que permitem a manipulação segura de filmes e papéis fotográficos, bem como um visualizador estéreo de 1905, capaz de fornecer imagens tridimensionais a partir de fotografias. “Não fazemos revelação”, avisa o portuense. “Mas somos parceiros do Carmencita [Film Lab], um dos melhores laboratórios da Europa. Podem cá deixar os vossos rolos.”
Quanto às câmaras analógicas, se no Porto se percorrem mais de 170 anos de História, em Lisboa a oferta é mais pequena. O foco está em modelos mais compactos – automáticos e fáceis de levar para todo o lado – de marcas como a Canon, a Nikon, a Pentax e a Olympus, mas Rui espera poder contribuir para educar as novas gerações. “A fotografia analógica está a ter um crescente interesse entre os jovens, e penso que seja a forma correcta de aprender a fotografar, porque com uma máquina digital dispara-se para qualquer lado. O analógico ajuda-te a pensar antes de fazeres. Cada rolo tem no máximo 36 fotografias, por isso tens de encontrar o melhor cenário, a melhor composição, a melhor luz. Só depois disso é que executas.”
Tem sido uma experiência muito gratificante, confessa. Até já ajudou uma senhora de “oitenta e muitos”, que apareceu no espaço do Porto à procura de uma câmara. Mas em Lisboa os visitantes são, de facto, mais novos. No dia em que nos mostra o espaço pela primeira vez, há cerca de dois grupos diferentes e todos aparentam estar na casa dos 20. Vieram para experimentar a Photomatic, uma cabine fotográfica de inspiração vintage, que permite tirar duas tiras, com três fotografias cada, por 5€. Saem na hora, a preto e branco, e não têm qualquer efeito ou molduras modernas. Foi assim que se tornaram virais nas redes sociais.
Outro dos destaques são as exposições de fotografia que promovem quinzenalmente. “São trabalhos de jovens fotógrafos e não estamos sequer preocupados em ver as fotografias. Às vezes só as vemos quando estão a ser expostas, porque queremos que haja liberdade criativa”, revela Rui, que nos guia até uma série de seis fotografias tiradas por Ricardo Fortes, o gerente da Vintage Cameras da Rua de São Nicolau. Tem 28 anos e começou a fotografar em analógico há cerca de seis. “Esta série que fiz, com uma SLR Nikon F4, foi quando estava bem no pico da minha obsessão. Agora até fotografo mais em digital, mas foi o analógico que me abriu a porta. Com os telemóveis a fotografia é uma coisa mais banal. Emocionalmente, ver uma fotografia analógica é diferente.”
Rua de São Nicolau, 73, 2.º andar (Baixa). Ter-Sáb 10.30-13.00, 14.00-19.00 (é preciso tocar à campainha)
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