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Drogas e folclore: ‘Rabo de Peixe’ está de volta à Netflix

A segunda temporada da série estreia-se esta sexta-feira, 17 de Outubro. O elenco e o criador, Augusto Fraga, falam-nos sobre o reencontro com a comunidade açoriana.

Hugo Geada
Escrito por
Hugo Geada
Jornalista
André Leitão, José Condessa e Helena Caldeira
©DR | Rodagem da segunda temporada de 'Rabo de Peixe'
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Quando José Condessa chegou a Rabo de Peixe pela primeira vez, não imaginava que a forma de quebrar o gelo com os habitantes daquela vila açoriana se faria através de uma linguagem que conhecia bastante bem. Não, não é o português, nem sequer a sua variante micaelense, um dos muitos sotaques que se ouvem na ilha de São Miguel. Estamos a falar do futebol.

“Foi a jogar à bola com os miúdos que tive o primeiro encontro com as pessoas deste sítio. Conheci a casa de cada um, conheci os pais, conheci pessoas que me ajudaram nesta construção de personagem”, diz o actor à Time Out. “Fui a casamentos, a baptizados, jantei na casa de pessoas, levaram-me a pescar. Acolheram-me de porta aberta. Já tinha noção da tragédia que aconteceu aqui e dos estereótipos que são colocados nestas pessoas, mas conhecê-las pessoalmente ajudou-me a ter uma perspectiva mais realista do que acontecia aqui”.  

Nesta altura do campeonato, já todos conhecemos a surreal história que inspira (livremente) Rabo de Peixe. Em 2001, deu à costa desta vila açoriana uma grande quantidade de cocaína, que acabaria por ficar na posse de alguns habitantes. Apesar de se falar com um certo tom anedótico deste episódio, recordando, por exemplo, como cozinheiras passaram a panar peixe com o pó branco, muitos locais ficaram viciados neste narcótico – foram várias as mortes por overdose – e outros viraram-se para o tráfico.  

Este cenário bizarro e curioso fez com que a série criada por Augusto Fraga (ele próprio açoriano) se tornasse a mais bem-sucedida série portuguesa na Netflix, atingindo o top 10 de visualizações em mais de 30 países.

Quando foram filmar a segunda temporada – que estreia esta sexta-feira, 17 de Outubro –, o regresso a Rabo de Peixe foi como um regresso a casa para o elenco depois de muito tempo longe (a primeira temporada estreou-se em Maio de 2023). As crianças com quem Condessa jogava futebol nas ruas estavam mais crescidas e os locais receberam-no como um velho amigo. “Tivemos oportunidade de regressar às casas daquelas mesmas pessoas e de vermos os miúdos já crescidos. Elas partilharam connosco o que acharam da série. Que viram a série juntos porque, se alguém não tinha Netflix, eles abriam as portas de casa para os outros verem. Vivemos momentos muito bonitos”, recorda o protagonista. “A estreia da primeira temporada foi na Ribeira Grande num evento que contou com as pessoas que nos ajudaram a fazer a série. Foi a primeira vez que muitas daquelas pessoas estiveram juntas numa sala a ver uma série que os representava. Estamos a falar dos pescadores, agricultores, das pessoas da rua que nos ajudavam nem que fosse para nos aquecer o café. Foi aí que tivemos a certeza que alguma coisa estava muito bem feita. A ficção é sobre isto. Mostrar o lado humano e celebrar estas pessoas.”

Rabo de Peixe
Ukbar FilmesRabo de Peixe

Estes novos episódios, que na linha temporal da narrativa acontecem três meses após o final da primeira temporada, quando Eduardo (interpretado por José Condessa) abandona a ilha para tentar chegar aos Estados Unidos. O plano do jovem açoriano saiu furado e é obrigado a regressar. No entanto, encontra um cenário diferente, com novas dinâmicas de poder, mudanças no grupo de amigos e novos obstáculos para a missão de enriquecer e procurar uma vida melhor. 

Para esta segunda temporada, a preocupação foi evoluir as personagens e criar uma narrativa que não se repetisse, frisa o realizador e guionista Augusto de Fraga. “Estes personagens estão em sítios totalmente diferentes daqueles que encontramos na primeira temporada. Temos um Eduardo novo, um Eduardo mais dorido, magoado, revoltado, mas também mais violento e mais atento à sobrevivência. Mas também encontramos uma  Sílvia muito mais poderosa e a ocupar um lugar de liderança que pertencia ao Eduardo”.

Houve também uma atenção especial para que fosse utilizada uma abordagem técnica diferente. “Quisemos inovar em termos de história, mas também a nível técnico. Em termos de criatividade e movimentos de câmara”, adianta Fraga. Para os actores, isso implicou redescobrir os personagens, explorando novas facetas e emoções. Maria João Bastos, que interpreta a Inspectora Frias, e Paolla Oliveira, actriz brasileira que se estreia nesta temporada no papel de uma líder do tráfico, reforçam esta visão. “O grande desafio foi o facto da primeira temporada ter sido o sucesso e agora termos uma história que fosse igualmente surpreendente, cativante e que continuasse a prender o público à história. A preocupação foi criar algo tão especial quanto a primeira”, observa a intérprete portuguesa. 

Uma linha entre o estereótipo e a autenticidade 

Um cuidado central da produção foi evitar a criação de estereótipos ou preconceitos sobre a comunidade de Rabo de Peixe. “Sou açoriano, portanto tenho sempre o cuidado de representar a minha terra de uma forma digna”, diz-nos Augusto de Fraga, embora recordando que “qualquer ficção é uma interpretação da realidade”.

O elenco reforça este cuidado. Helena Caldeira (Sílvia), André Leitão (Carlinhos), Rodrigo Tomás (Rafael) e Kelly Bailey (Bruna) explicam que a atenção à representação humana das personagens foi fundamental: “Rabo de Peixe, infelizmente, sempre foi altamente estigmatizado. Tentámos nunca deixar de transparecer todo o lado humano que estas personagens têm e que todos nós temos. Era importante manter o respeito pela cultura local e evitar caricaturas. Houve muito esse cuidado desde o início”, diz André. 

A integração na comunidade foi um ponto essencial para que a série mantivesse esta autenticidade. Condessa descreve o impacto do contacto directo com os habitantes: “Essas pessoas abriram-nos a porta de casa e contaram-nos a sua história como se fôssemos família”, histórias essas que acabam por ganhar raízes no argumento. Num dos primeiros episódios da segunda temporada, vemos um rapaz, em cima de um telhado, a dizer que se vai suicidar, este é interpelado por Rafael que lhe grita: “Não te atires daí. Não te vais matar, só vais partir as pernas”. “Esse episódio aconteceu mesmo”, diz Augusto Fraga. Acreditamos. Todo este “folclore” local oferece um toque autêntico aos episódios e confere-lhe um ambiente muito mais realista.

A linguagem e o sotaque açoriano também exigiram uma atenção especial, apesar de o protagonista explicar que não se tratava de tentar reproduzir um micaelense perfeito, mas de capturar as expressões da forma mais natural possível. “Não podíamos trabalhar só com actores micaelenses, mas tivemos encontros com especialistas e depois deixámos apenas o que era natural nas personagens. Aplicámos uma série de expressões que se tornaram muito usadas no dia-a-dia, sem forçar nada, e que nos ajudaram a voltar rapidamente à personagem”.

Estas expressões caricatas, utilizadas de forma rápida e imprevisível, ajudam a prender o espectador ao ecrã e a soltar várias gargalhadas. Confessamos que fomos, rapidamente, desarmados em alguns momentos, especialmente, com a frase, dita para Eduardo: “Já vi conas com mais tomates do que ele”. Os actores confessam que muitas vezes se riem com estas expressões absurdas. Rafael confessa que se riu quando ouviu Helena Caldeira dizer, na primeira temporada, ao pai, interpretado por Albano Jerónimo: “Gosto de foder, mas não há ninguém que saiba fazer um minete de jeito”. Augusto confessa que “I make my own choriças”, dito por Pêpê Rapazote, foi um momento de inspiração. No entanto, a resposta mais comum para melhor expressão vai para: “e tu, ò quarta-feira, estás aí a meio. Ou entras, ou vais prà puta que te pariu”.

Para alguns espectadores, pode ser demasiado grosseiro ouvir estas coisas, mas é a forma do guião representar da forma mais natural possível as vivências destas pessoas. “O que não se falava, até ao lançamento de Rabo de Peixe, era das pessoas”, reforça Condessa. “Eram tão estereotipadas por todos os que estavam de fora que eram esquecidas no seu dia-a-dia, no seu trabalho, nos seus amores, nos seus sonhos, dos filmes que gostam de ver. Enquanto artistas, queremos contar este ponto de vista humano e belo. Não as queremos esquecer. Estamos a valorizar a luta daquelas pessoas”. 

Netflix. Estreia a 17 de Outubro (T2) 

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